Assistente virtual chega aos veículos

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A assistente virtual Alexa, da Amazon, é a “Maria tagarela” do mundo da tecnologia. O sistema acionado por comandos de voz é capaz de contar piadas, pedir pizza e desligar a torneira da cozinha, por isso, não surpreende que tenha chegado ao carro.
Embora prometa conveniência e elimine a necessidade de os motoristas usarem as mãos para comandar determinados sistemas, porém, pesquisadores e engenheiros advertem que a Alexa abre novas vulnerabilidades a ataques de hackers, ataques sônicos e rastreamento.
A depender da forma de conexão usada pela assistente digital, os ataques podem variar de gracinhas irritantes a ações perigosas, entre as quais destrancar as portas de uma casa para permitir furtos.
“À medida que tornamos todos os sistemas mais inteligentes e mais conectados terminamos oferecendo uma imensa superfície para ataques, em aparelhos como carros, sem que essa jamais tenha sido a intenção”, disse Nadir Izrael, vice-presidente de tecnologia da Armis, uma empresa de segurança na Internet.
No ano passado, a Armis identificou uma dessas vulnerabilidades (chamada BlueBorne), que expunha bilhões de dispositivos conectados, entre os quais os alto-falantes inteligentes Amazon Echo e Google Home, à possibilidade de captura por hackers. Carros dotados de sistemas BlueTooth também estavam vulneráveis.
Veículos são um alvo altamente lucrativo, disse Yoni Heilbronn, vice-presidente de marketing da Argus Cyber Security, adquirida recentemente pela fabricante de autopeças Continental. “Há pessoas dentro desses veículos que se movem em alta velocidade, e o preço dos carros é significativo. Assim, quantos bitcoins as pessoas estariam dispostas a pagar a um hacker que ataque um carro usando ransomware?”
Os sistemas de navegação já reconhecem -ainda que em muitos casos de maneira imperfeita- as vozes dos motoristas, e muitos carros contam com sistemas próprios de reconhecimento de voz. Se um smartphone for conectado ao sistema de informação e entretenimento de um carro, o motorista terá acesso a recursos como a assistente digital Siri, da Apple, ou ao Google Assistant.
Mas nesses casos os comandos por voz são limitados. Não se pode ligar o carro ou abrir as janelas com eles. A Siri não é capaz nem mesmo de mudar a estação de rádio.
Já a Alexa, por outro lado, tem por intenção interagir com milhares de aparelhos conectados -por meio de comandos específicos, pré-programados-, executando tarefas como acender luzes, abrir fechaduras, desativar sistemas de segurança caseiros ou mesmo encomendar papel higiênico para o ano inteiro. E já está conectando carros e casas.
Montadoras como BMW, Ford, Hyundai e Nissan, e start-ups como a Byton, já se renderam aos atrativos da Alexa.
Ainda que assistentes comandados por voz sejam cada vez mais frequentes em modelos novos, por exemplo da Mercedes-Benz e Toyota, a maior parte das capacidades automobilísticas da Alexa é unidirecional hoje -de casa para o carro- e toma por base apps automobilísticos para smartphones.
“A Alexa pega carona em nosso app”, disse Denise Barfuss, gerente de serviços conectados na Nissan. “Se estiver frio lá fora, você pode ordenar que a Alexa ligue o carro, de dentro de casa, para o motor começar a esquentar”, ela disse.
Comandos simples via Alexa também podem ligar os faróis ou tocar a buzina, disse Barfuss, mas instruções remotas que alterem o status do carro -por exemplo trancar e destrancar portas ou ligar o motor- requerem que a pessoa use uma senha falada.
Ainda que bots de voz como Alexa e o Google Assistant possam ser ensinados a reconhecer vozes diferentes -o bastante para reconhecer os membros de uma família e associá-los às suas estações de rádio preferidas no sistema Pandora, por exemplo-, eles não oferecem qualquer forma de segurança biométrica, como análise de voz.
O resultado é que as capacidades de reconhecimento de voz da Alexa não têm discernimento suficiente para propósitos de segurança, de acordo com a Amazon. Um porta-voz da empresa afirmou, no entanto, que a Amazon tinha equipes especiais dedicadas a revisar e atualizar continuamente a segurança de seu software.
Sem medidas como essas, qualquer pessoa que ouça uma senha falada poderia usá-la para destrancar e ligar um veículo, e só restaria à vítima perguntar: “Alexa, o que aconteceu com o meu carro?”
As preocupações de segurança se tornam mais desafiadoras quando recursos como a Alexa são usados para conectar casas e carros. Um motorista que ainda está na estrada pode ordenar a abertura da porta de sua garagem, por exemplo, ou desligar as luzes da sala.
A Ford já oferece esse tipo de recurso, no app Ford+Alexa, que permite acesso a 25 mil capacidades diferentes do sistema Alexa nos veículos da montadora que disponham do sistema de conexão Sync 3. A Ford também está oferecendo um novo recurso que permite que o motorista ative a Alexa por comando de voz, sem precisar apertar um botão inicial.
Essa conveniência leva em conta a possibilidade de que crianças irrequietas no banco traseiro peçam, por exemplo, canções de Rick Astley. Timur Pulathaneli, supervisor de veículos e serviços conectados da Ford, disse que caso isso se prove incômodo, o motorista pode desligar o recurso no app e fazer com que a Alexa entre em operação apenas se ativada por um botão na coluna de direção.
O sistema da Ford também limita o que um ladrão ou manobrista podem fazer se estiverem ao volante. Uma pessoa não poderia abrir a porta da casa do dono do carro, porque o sistema requer o smartphone do proprietário -ou seja, o ladrão teria de roubar o celular, além do carro.
Adicionar assistentes digitais comandados por voz a veículos pode causar a impressão de que um carro é só mais um aparelho na chamada internet das coisas, mas haverá muito mais em jogo.
“O que é adicionado, quando o carro se torna parte da rede, é a localização específica de quem estiver dirigindo”, disse Gang Wang, professor assistente do Colégio de Engenharia da Universidade de Tecnologia da Virgínia. “Pode-se rastrear aonde um carro vai, e a que horas.”
Se comprometido, o sistema Alexa poderia fornecer a um criminoso detalhes sobre as compras do usuário, seus hábitos ao volante e rotinas de deslocamento. E, para facilitar a conexão com outros aparelhos inteligentes, a Alexa busca constantemente por sistemas compatíveis.
Toda essa informação é enviada aos servidores da Amazon e depois compartilhada com outras empresas, aponta Travis Witteveen, presidente-executivo da Avira, uma companhia de segurança on-line. O compartilhamento dessas informações agrava as vulnerabilidades de segurança do sistema, e as do carro.
Mesmo assim, as conveniências que os assistentes digitais oferecem podem torná-los parte obrigatória de novos modelos de automóveis A Nuance, uma das empresas líderes em sistemas de reconhecimento de voz, no setor automotivo, já está trabalhando em sistemas de voz para carros que seriam ainda mais fáceis de usar. Eric Montague, diretor sênior de marketing e estratégia de produtos da Nuance, disse que este ano a empresa introduziria um sistema que poderia ser ativado sem frase código ou botão no painel.
O carro um dia simplesmente compreenderá quando alguém estiver falando com ele.
“As pessoas vão querer conversar com seus carros”, disse Martyn Humphries, vice-presidente da NXP, cujos sensores são usados exclusivamente em aplicações automotivas. “Ou seja, a segurança vai ter de continuar a evoluir em companhia disso”.

http://www1.folha.uol.com.br/tec/2018/01/1953607-assistente-virtual-chega-aos-veiculos-mas-abre-brecha-para-vulnerabilidades.shtml

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