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Alibaba conta como a China pretende conquistar Hollywood

É um daqueles dias mais frios em Pequim no sábado em que visito Gao Xiaosong. Chego mais cedo no “Linked Hybrid”, um complexo grande e futurista cujas oito torres de apartamentos são ligadas por arrojadas pontes suspensas. Um porteiro me observa cuidadosamente enquanto me movimento pelo saguão com meu casaco acolchoado, esperando dar a hora combinada.
Imagino que ele está de olho em mim porque eu lhe disse o número do apartamento e assumi que sabe que vou me encontrar com uma celebridade. Mas quando Gao me cumprimenta no andar superior, percebo que isso provavelmente não está correto: o apartamento é parcamente mobiliado, a
sala de estar está vazia, com exceção de uma única cadeira elétrica de massagem.
Com sua figura rechonchuda, bochechas marcadas e um cavanhaque irregular, o próprio Gao não é exatamente fascinante – mas não me deixo enganar; esse homem de 49 anos está solidamente incorporado à elite do setor de entretenimento da China. Ele é um popular cantor-compositor, diretor de cinema e intelectual ao estilo Malcolm Gladwell. Hoje em dia, porém, sua função o afastou da China. Jack Ma, fundador do grupo gigante de comércio eletrônico Alibaba e o homem mais rico da China, o encarregou de conquistar Hollywood.
Como presidente da estratégica comissão da Alibaba Entertainment, Gao está encarregado de aprender os segredos da produção de filmes e programas de TV cativantes – uma missão com enormes ramificações para Hollywood e a China. Apenas os Estados Unidos gastam mais que a China em produção de TV; no ano passado, o número de chineses que frequentaram as salas de cinema bateu um recorde, com as bilheterias chegando a 61 bilhões de yuans (US$ 9,1 bilhões). Mas Gao diz que quando se trata de qualidade, o país ainda tem muito que aprender.
“Às vezes fico embaraçado”, diz ele. “Mesmo um filme ruim pode ganhar muito dinheiro. No momento, os filmes chineses realmente não merecem tirar 60 bilhões de yuans das pessoas comuns. Podemos fazer coisa melhor com esse dinheiro.”
Após tanto tempo longe de Pequim, Gao parece ansiar pelos confortos do lar. A mesa está posta com as necessidades simples de um cozido: a refeição clássica de pedaços de carne com vegetais que é cozida na própria mesa. “Cresci em Pequim e sempre acho que se você está recebendo hóspedes no inverno, não tem muita graça sair”, diz Gao. “É melhor receber em casa.”
Embora agora ele sempre aprecie cozidos servidos em restaurantes de forma elaborada, Gao cresceu com versões bem mais modestas do prato. “Quando eu era criança, não havia vegetais no inverno, somente repolho”, diz ele, lembrando-se da austera Pequim da década de 70, antes que as reformas econômicas de Deng Xiaoping colocassem o país no rumo de um crescimento explosivo. “Em outubro ou novembro, todas as famílias compravam centenas de quilos e os guardavam no quintal ou num corredor. Aqueles repolhos grandes e toscos – era difícil fazer aquilo ter um sabor bom.”
Enquanto o cozido esquenta, Gao oferece três opções de bebida: vinho, cerveja ou Maotai, a marca premium dos baijiu chineses, ou destilados brancos. Eu hesito, lembrando-me de experiências lastimáveis tidas com o baijiu no passado, mas
já sentindo que o rumo de nossa conversa poderá levar a essa decisão. Escolho o Maotai. Gao apresenta uma garrafa com o seu próprio nome e rosto impressos no rótulo (“Foi um presente”, diz ele ironicamente. “Não é o ideal”.)
Mas o apartamento carece de taças apropriadas para o baijiu, que são como uma versão menor de uma taça de vinho. Gao telefona para o seu motorista e pede para ele trazer algumas, enquanto despeja a primeira rodada em taças de vinho.
A influência econômica e geopolítica da China cresceu dramaticamente nos últimos 15 anos, mas o mesmo não aconteceu com sua influência cultural ao redor do mundo. Gao observa que quando começou sua carreira como cantor e compositor, no começo dos anos 90, não havia nenhuma gravadora em toda a China. “A história da indústria de entretenimento da China é curta, de modo que precisamos proceder lentamente”, diz ele.
A Coreia do Sul, acredita ele, pode servir de modelo. Com a ajuda de subsídios do governo desde o fim da década de 90, os filmes, programas de TV e, principalmente, os grupos de música pop coreanos vêm sendo exportados para a Ásia e outras partes do mundo. É uma visão inspiradora, mas exige que os estúdios de cinema chineses façam filmes melhores. Pergunto se a censura explica o motivo de os filmes chineses não conseguirem cativar as plateias mundiais. Gao é enfático ao afirmar que o verdadeiro problema é uma falta de conhecimento profissional e experiência. E Hollywood, afirma ele, tem seu próprio regime informal de censura.
Para Gao Xiaosong, a globalização da indústria de entretenimento na China vai decolar a partir de Hollywood
“Em Hollywood, muitas coisas não podem ser filmadas. O vilão não pode ser uma pessoa de cor. Ele definitivamente será uma pessoa branca como você. Ele não pode ser uma mulher ou um asiático… Minha experiência é que a correção política em Hollywood é possivelmente a censura mais poderosa do mundo. Mas apesar dessa grande pressão”, acrescenta ele diplomaticamente, “Hollywood ainda faz grandes filmes”.
Na verdade, Gao insiste que as limitações ao conteúdo estimulam, e não reprimem, a criatividade. Por ter crescido na década de 70, ele foi criado numa dieta de filmes soviéticos – uma prova, sugere ele enquanto recita uma lista de filmes, de que obras-primas modernas podem ser produzidas sob censura.
A panela elétrica começa a borbulhar. Gao coloca carne dentro dela com seus pauzinhos e do meu lado da mesa contribuo colocando cogumelos. Os shiitakes são fibrosos e precisam de um tempo para amolecer.
Gao é extremamente bem-conectado, de modo que não surpreende que ele já conhecia Ma havia quase uma década quando começou a trabalhar com ele em 2015. “Jack Ma é a primeira pessoa que conheci em minha vida que tem o temperamento e o caráter de um verdadeiro líder”, diz ele. “Quando estou com ele, tenho a sensação de estar testemunhando a história.”
No começo de cada ano, Ma pede a Gao uma lista de livros para ler durante o ano, embora seja muito ocupado e consiga ler apenas uma fração deles. “Este ano ele pediu outra lista de livros e então fui em frente e comprei 10.000 livros e os enviei para a sua casa”, diz Gao, que no momento está escrevendo uma história autorizada do grupo Alibaba para marcar o 20o aniversário da companhia. Gao também compôs a música-tema de “Gong Shou Dao”, um curta-metragem em que Ma estrela como mestre de kung fu, lutando com lendas das artes marciais como Jet Li e Donnie Yen. O próprio Ma gravou a música num dueto com a diva pop Faye Wong.
Como um dos assistentes mais confiáveis de Ma, Gao está no centro de um enorme conglomerado corporativo, mas nem sempre foi assim. Como estudante em Pequim no fim da década de 80, ele interessou-se por “heavy metal” e deixou os cabelos crescerem “porque as garotas gostavam disso”. Gao descreve o cenário musical da China na época como dividido entre o rock pesado – com destaque para o astro Cui Jian, que compôs hinos ao desencanto e foi forçado a uma aposentadoria temporária depois de cantar para os estudantes da Praça Tiananmen – e músicas de propaganda executadas por bandas militares.
“Era tudo sobre a sociedade – seja dizendo que a sociedade era boa ou dizendo que era ruim”, diz ele sobre a música da época. “Eu não estava prestando muita atenção na sociedade. Eu me preocupava em crescer, me preocupava com a minha vida e os meus sentimentos.”
Bebemos uma segunda dose de baijiu e crio coragem para perguntar a Gao sobre seus pensamentos sobre os protestos da
Praça Tiananmen, ocorridos há exatos 30 anos. Gao estudava engenharia de radares na Universidade Tsinghua, a principal
instituição científica da China, antes de desistir do curso para fazer a Academia de Cinema de Pequim. O movimento da Praça Tiananmen também foi liderado por estudantes precoces das principais universidades de Pequim.
Sociável como ele só, Gao nega-se a discutir suas memórias sobre aqueles dias terríveis. Qualquer membro do establishment da China – seja ele o político, o corporativo ou o da mídia – sabe que é melhor não comentar publicamente questões sensíveis, especialmente os três “Ts”: Taiwan, Tibet e Tiananmen. Isso se aplica especialmente agora que o presidente Ji Xinping apertou o controle sobre a dissidência desde que assumiu o poder no fim de 2013.
Ao longo da última década, Gao conduziu uma sucessão de “talk shows” pela internet voltados para um público urbano e instruído – muito parecido com o grupo de pessoas que consome podcasts nos EUA ou na Europa. “Antes, ninguém imaginava que as pessoas pagariam para ouvir conversas intelectuais, porque se um intelectual fazia um pronunciamento, não conseguia arregimentar muitas pessoas, ou seu livro poderia vender apenas 500 cópias”, diz Gao. “Mas agora temos muitos intelectuais produzindo conteúdos, incluindo muitos professores, e as pessoas estão de fato pagando por isso.”
Alibaba Pictures coproduziu “Green Book: O Guia”, Oscar de Melhor Filme, e “The Wandering Earth”
O talento particular de Gao é para provocações semi-roteirizadas que parecem genuinamente naturais, ao mesmo tempo em que ele nunca entra em conflito com o aparato da censura chinesa. A “Xiaosong-pedia”, que cobria assuntos desde “Star Wars” e as concubinas da dinastia Ming, às tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, recebeu mais de 900 milhões de visualizações em seus dois anos e meio de existência.
Seus fãs o têm como um intelectual com instinto de “entertainer”, enquanto que críticos igualmente aguerridos o classificam de insuportavelmente presunçoso. “Acho que o povo chinês gosta mais de intelectuais do que os americanos”, afirma ele. “Os americanos realmente gostam de estrelas do esporte. Se você se encontra com uma pessoa totalmente estranha mas seu boné diz ’49ers’ [time profissional de futebol americano], você imediatamente tem assunto para muito papo. Quando os chineses sentam-se à mesa, todos querem falar sobre história.”
Começo a esquentar com o baijiu e o vapor que emana da panela, além do sistema de aquecimento geotérmico do Linked Hybrid. Abaixo o zíper de meu casaco pesado, que parecia indispensável uma hora antes. O tom de Gao enquanto conversamos é a mesma mistura de sarcasmo e autodidatismo sincero de seu programa. Servimos mais uma dose. Gao coloca daikon fatiado na panela e eu atiro alguns pedaços retangulares de tofu. Pergunto a Gao se as tensões geopolíticas entre os EUA e a China afetam sua capacidade de estabelecer relações para a Alibaba em Hollywood.
“No começo era, ‘nossa, os chineses têm muito dinheiro’. Esse é o hábito usual de Hollywood. Não importa se o dinheiro vem do Oriente Médio ou do Japão. O dinheiro de qualquer lugar é bom”, diz ele.
“Posteriormente, começamos a sentir um pouco de reação. Eu estava em uma reunião em um canal de TV – não direi qual é porque era um dos grandes – e eles me perguntaram; ‘você vem da China, espera trazer toda aquele censura para cá?’. Mas isso não é tão sério quanto na política. As pessoas ainda estão dispostas a trabalhar com a China. Não é nem porque temos dinheiro, e sim porque temos mercado.”
Gao passa seus dias em Los Angeles reunindo-se com possíveis parceiros para coproduções e em busca de propriedades de mídia nas quais investir, assim como caçando talentos. “A globalização da indústria de entretenimento na China definitivamente não vai decolar a partir de Pequim”, diz. “Vai decolar a partir de Hollywood, porque a própria Hollywood faz filmes globais. Hollywood não se trata de filmes americanos; nunca acreditei nisso. São filmes globais.”
A Alibaba Pictures, que tem ações negociadas em Hong Kong, registrou prejuízo nos primeiros nove meses de 2018, mas sua sorte pode mudar neste ano. Em fevereiro, Gao representou a empresa na cerimônia de premiação do Oscar, na qual “Green Book: O Guia”, que coproduziu, ganhou o prêmio de Melhor Filme, antes de arrecadar US$ 17 milhões em seu fim de semana de estreia na China. A Alibaba Pictures também coproduziu “The Wandering Earth” (algo como Terra errante, no nome de lançamento em inglês), um filme nacionalista de ficção científica que teve arrecadação de US$ 700 milhões nos cinemas chineses desde o lançamento em fevereiro e foi selecionado pela Netflix para distribuição mundial.
Gao gosta de ressaltar o intercâmbio cultural há muito existente entre a China e o Ocidente, especialmente no caso das gerações criadas durante os anos em que o Partido Comunista eliminou a cultura chinesa tradicional do currículo escolar. “Veja Zhang Yimou”, diz, referindo-se ao diretor de filmes emblemáticos, como “Lanternas Vermelhas”. “Não se deixe distrair pelos trajes tradicionais chineses. Os esqueletos desses filmes são Shakespeare e Kurosawa.”
No entanto, ele também acredita que a Alibaba tem bastante a ensinar a Hollywood no que se refere ao comércio eletrônico e ao uso de grandes volumes de dados. De forma similar à Amazon nos EUA, a Alibaba tem uma arca do tesouro em dados sobre as preferências e hábitos de consumo dos chineses, que agora pode usar para respaldar sua ofensiva na distribuição e produção de mídia.
Além disso, a empresa pode aproveitar todo o seu ecossistema on-line para apoiar seus projetos na área de entretenimento. Para financiar-se, pode usar seu próprio dinheiro por meio da Alibaba Pictures ou do Yulebao, a plataforma de financiamento coletivo especializada em entretenimento, também pertencente ao grupo. Os ingressos são vendidos por meio de dois aplicativos on-line da Alibaba, o Taopiaopiao e o Damai. O Youku exibe programas de TV e filmes que saíram de cartaz, além de também oferecer uma plataforma de publicidade para obras por estrear. O Tmall, um mercado on-line para lojas independentes de comércio eletrônico, no mesmo estilo da Amazon, vende mercadorias licenciadas.
Gao tem um ponto de vista bem claro sobre a diferença entre arte e entretenimento comercial. Nenhum dos cinco filmes dirigidos por ele foi um grande sucesso nas bilheterias, mas Gao acha que eles se sobressaem em termos artísticos. O desejo de Hollywood de atrair os chineses e outros públicos internacionais levou a indústria a recorrer às histórias em quadrinhos e às séries de filmes de ação – algo que Gao vê como uma “concessão inevitável”. Os maiores elogios de Gao são reservados para as séries dramáticas da TV americana.
“Por que os dramas de TV americanos são tão bons? Porque apenas os americanos os assistem. Para a maioria deles, mal existe mercado no exterior. Então, eles são realmente ousados – nudez, traseiros à mostra, xingamentos. Eles estão dispostos a tudo. Isso me deixa tão contente”, diz.
O caldo da panela praticamente se evaporou. Enquanto pegamos outro baijiu, brindamos à “Netflix” – e aos seus concorrentes.

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