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Um velho novo mundo no cinema da Disney

Em janeiro de 1991, Jeffrey Katzenberg, então chairman da Walt Disney Studios, enviou um memorando de 28 páginas para seus colegas intitulado “O mundo está mudando: algumas ideias sobre nossa empresa”, em que lamentou que o estúdio havia perdido o rumo. As finanças da empresa estavam saudáveis – a Disney havia derrotado os concorrentes nas bilheterias no ano anterior. Mas Katenberg achava que a empresa tinha se concentrado indevidamente em blockbusters. O estúdio deveria se fixar menos em grandes orçamentos, grandes nomes e efeitos tecnológicos para se concentrar mais no desenvolvimento de ideias originais e executá-las bem. “As pessoas não querem ver o que já viram. Nosso trabalho não é explorar fórmulas recicladas, mas criar e desenvolver histórias inteiramente novas”. 
Seu conselho parece pitoresco nos dias de hoje. Dos dez filmes mais caros já produzidos, seis são da Disney. Em 2012, o estúdio contratou Alan Horn como novo chairman depois de ele passar um período bem sucedido na Warner Brothers, onde consagrou uma grande parte do orçamento a uma série de filmes de enorme sucesso, como os do Harry Potter. 
Se o americano médio assiste apenas a cinco filmes por ano, ele afirmava, eles provavelmente optarão por algo “que tenha grande valor em termos de produção, seja por causa da história, dos artistas envolvidos ou dos efeitos visuais especiais”.
Esse enfoque pode ter um efeito indesejado. Cálculo de Stephen Follows, consultor da área de filmes, mostra que metade das produções de Hollywood com orçamento superior a US$ 100 milhões perdeu dinheiro. Quando Horn chegou à Disney, o estúdio registraria dois dos piores fracassos de bilheteria: os filmes John Carter (2012) e O Cavaleiro Solitário (2013), com prejuízo de US$ 200 milhões cada um. Mas, desde então, parece ter encontrado a fórmula mágica: remakes extravagantes de fantasias animadas que o público adora. 
Bilheteria
Cinderela (2015) rendeu US$ 535 milhões de um orçamento de US$ 95 milhões. O Livro da Selva implicou um gasto de produção de US$ 175 milhões e faturou US$ 963 milhões. O orçamento de produção e marketing de US$ 300 milhões de A Bela e a Fera (2017), estrelado por Emma Thompson, Ewan McGregor e Ian McKellen, é o filme musical mais caro até hoje. Dez dias após o lançamento, já era a maior bilheteria de um filme do gênero, com US$ 1,2 bilhão de ingressos vendidos. De acordo com o Hollywood Reporter, Disney foi o estúdio mais lucrativo nos últimos quatro anos, com uma receita de bilheteria global de mais de US$ 7 bilhões em 2016 e 2018. 
Princesas e animais falantes não são os únicos personagens que retornaram à tela: o público foi invadido por feiticeiros, personagens de capa e espada, dinossauros e Jedi. Mas no mundo dos contos de fadas, a Disney tem uma vantagem. Gerações de crianças cresceram com seus desenhos animados e muito tempo se passou permitindo recontar os clássicos usando novas tecnologias. 
Em 2019, o estúdio adicionará Dumbo, Aladim e O Rei Leão à sua lista de remakes. Pinóquio, Branca de Neve, Peter Pan, A Sereiazinha e James e o Pêssego Gigante serão os próximos.
Um passo crucial nesses remakes é chegar à base de fãs desses filmes monitorando cuidadosamente os fóruns online e grupos de foco. Alguns fãs mais puristas condenam qualquer tipo de atualização dos filmes originais, como novo desenho de Mrs. Potts e o bule de chá encantado em A Bela e a Fera. Mas o cinéfilo quer grandes momentos: a valsa em A Bela e a Fera ou Simba alçado nas planícies africanas, embora seja menos exigente quanto aos detalhes. 
Hoje isso significa atrair estrelas – Emma Watson como a Bela, Donald Glocer e Beyoncé como Simba e Nala, Will Smith como o Gênio – e diretores que reforçam os títulos. Tim Burton é adequado para uma história sobre um elefante de circo perseguido e um magnata do entretenimento funesto porque a condição de outsider de Dumbo é “uma característica essencial que percorre todo o trabalho de Burton”, segundo Derek Frey, o produtor do filme. 
Efeitos
Produtores e diretores hoje conseguem efeitos gerados por computador extremamente sofisticados. Exceto o ator que interpretou Mogli em O Livro da Selva, o resto foi digitalizado; a exuberante floresta tropical e os animais convincentes arrebataram um Oscar. O diretor Jon Favreau aplicará as mesmas técnicas no caso de O Rei Leão.
“Colocamos qualquer animal ao lado de um real e é impossível dizer a diferença”, afirmou Richard Stammers, supervisor de efeitos visuais de Dumbo. Os animadores criam o músculo, as rugas da pele e o movimento do pelo. O realismo por si só é uma maravilha.
Essas novas versões não são a única maneira pela qual os estúdios da Disney está revisando seus preceitos. Em 2018, o estúdio lançou O Retorno de Mary Poppins e um filme sobre Christopher Robin, companheiro de O Ursinho Pooh. Cruella de Vil, Rose Red (irmã de Branca de Neve), Tinker Bell e Prince Charming estão todos na fila. Temores de que Disney desprestigiaria suas relíquias de família com essas novas experiências e derivados foram infundados. Segundo o site de resenhas Rotten Tomatoes, 86% do público aprovaram O Livro da Selva, como também Cinderela.
Mas a insistência de Katzenberg em “histórias inteiramente novas”, contadas no cinema, não foi inteiramente desacreditada.

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