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Turquia ataca forças curdas na Síria e no Iraque após retirada americana

Menos de 24 horas depois de o presidente americano Donald Trump anunciar a retirada das tropas que guardavam a fronteira nordeste síria, a Turquia começou a atacar forças curdas e a milícia Forças Democráticas da Síria (FDS), anti-Bashar Assad, em território sírio e iraquiano, segundo o jornal israelense Jerusalem Post, citando agências oficiais síria e turca. 
Em uma grande mudança de diretriz, que torna a Turquia responsável por milhares de prisioneiros jihadistas, Trump declarou no domingo à noite que os EUA não iriam se opor a uma operação de Ancara contra os curdos. No dia seguinte, Trump foi bombardeado por críticas de opositores e até dos próprios republicanos, no momento em que enfrenta um processo político que pode levar a seu impeachment na Câmara. 
Ao justificar sua decisão, Trump disse que estava procurando um acabar com as “guerras infinitas” nas quais seu país está envolvido. Imediatamente, a Turquia informou que começara a preparar um ataque no norte da Síria para “limpar” a região dos “terroristas” que ameaçam sua segurança, como afirmou o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu. 
Tentando reverter o mal-estar criado pela mudança radical da política adotada por Washington, Trump ameaçou depois “aniquilar” a economia da Turquia caso o país passe dos limites na Síria.
“Como disse antes, e só para reiterar, se a Turquia fizer algo que eu, em minha grande e inigualável sabedoria, considero fora dos limites, destruirei e aniquilarei totalmente a economia da Turquia”, disse Trump pelo Twitter. 
“Já fiz isso antes”, acrescentou o republicano, em referência à queda da lira turca, que perdeu 25% do valor em agosto, quando os EUA pressionavam economicamente pela libertação do missionário Andrew Brunson, que estava preso na Turquia desde outubro 2016 por supostamente colaborar com terroristas.
O início da retirada das tropas americanas no noroeste da Síria deixou o caminho livre para uma operação turca contra a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG). As YPG são o principal grupo na luta contra o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) e contam com o apoio dos EUA e outros países ocidentais. A decisão foi denunciada como uma “facada nas costas” pelas forças lideradas pelos curdo.
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, já havia afirmado que o Exército turco estava pronto para iniciar a qualquer momento uma ofensiva na Síria. Mas a primeira ação foi além e atingiu também o território iraquiano, na divisa com a Turquia. Os curdos integram a maior minoria do Oriente Médio sem um Estado próprio. São cerca de 30 milhões de pessoas espalhadas principalmente por Turquia, Irã, Iraque e Síria. 
Segundo a agência oficial síria Sana, as forças turcas atacaram posições curdas na cidade de Al-Malikiyah, no norte sírio. A agência turca Anadolu informou, por sua vez, que a Força Aérea turca “neutralizou” três membros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), na região de Gara, segundo o Ministério Nacional da Defesa da Turquia.
Trump justificou a decisão de retirar seus soldados sob a alegação de que cabe aos atores da região resolver a situação. “Turquia, Europa, Síria, Irã, Iraque, Rússia e curdos agora terão de resolver a situação e o que querem fazer com os combatentes do EI capturados em seu ‘bairro’”, disse Trump em sua conta no Twitter. “É hora de sairmos dessas ridículas guerras sem fim, muitas delas tribais, e levar nossos soldados para casa. Lutaremos onde seja em nosso benefício, e lutaremos somente para vencer.”
Há meses o governo turco ameaça lançar uma intensa operação contra as posições das YPG situadas no leste do Rio Eufrates para criar uma “zona de segurança”, separando as forças curdas e turcas.
Os curdos da Síria já advertiram ontem que uma invasão militar turca provocará o ressurgimento do EI. Em um comunicado, as FDS afirmaram que uma operação desse tipo terminará com anos de operações lideradas pelos curdos para derrotar os jihadistas e permitirá o retorno de alguns dos líderes do EI que sobreviveram.

Resistência em Washington
Em decisão repentina no ano passado, Trump anunciou a retirada das tropas americanas da Síria – cerca de 2 mil soldados – após dizer que os EUA tinham vencido o Estado Islâmico. 
O anúncio acabou levando à renúncia de seu então secretário de Defesa, Jim Mattis, que não concordava com a medida. O senado, liderado pelo republicano Mitch McConnell, conteve o ímpeto do presidente ao aprovar, por maioria, uma resolução condenando a retirada, da qual Trump desistiu em janeiro, sem esconder sua frustração por não fazer mais para desligar os EUA dos emaranhados da região. 
McConnell voltou a criticar hoje a saída da Síria, em um raro posicionamento comum com os democratas. “Uma retirada precipitada das forças americanas da Síria só beneficiaria a Rússia, o Irã e o regime de Assad. E aumentaria o risco de o Estado Islâmico e outros grupos terroristas se reagruparem”, afirmou McConnell em um comunicado. 
“Essa decisão representa uma terrível ameaça à segurança e estabilidade regionais e envia uma mensagem perigosa ao Irã e à Rússia, bem como aos nossos aliados, de que os EUA não são mais um parceiro de confiança”, disse a presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi. 
Trump tem ficado particularmente irritado pelo fato de os EUA continuarem pagando pela prisão de milhares de combatentes do Estado Islâmico detidos na Síria e no Iraque. Por meses, ele tem pressionado países da Europa e outros a assumirem a responsabilidade pelos seus combatentes estrangeiros, encontrando apenas resistência desses governos, que temem levá-los de volta para casa. 

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,casa-branca-acusa-turquia-de-preparar-invasao-do-norte-da-siria,70003040156

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