Tom Wolfe via crise do romance, mas foi novo jornalismo que ficou para trás

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O livro “O Novo Jornalismo” (1973), de Tom Wolfe, é um interessante documento de época —nele, o escritor reflete, em tom sarcástico, sobre em que afinal aquela turma de repórteres com um texto cheio de charme estava inovando nos anos 1960.
O novo jornalismo era a mistura das técnicas da ficção para escrever histórias reais. Parecia imaginação, mas era tudo verdade.
Wolfe faz, nesse ensaio, um elogio do realismo do século 19, representado por nomes como Balzac e Flaubert —e  defende que a reportagem adote as mesmas técnicas que eles, como a descrição, o uso de detalhes significativos, os diálogos, a construção de cenas, como mostrou matéria da Folha de S. Paulo de 16/05.
A defesa não é de um aspecto apenas formal, mas também temático. Por meio da técnica realista, os repórteres poderiam ser os cronistas dos costumes da sociedade, já que os romancistas tinham resolvido, segundo ele, não dar bola para isso.
O autor não propunha só uma reportagem bem feita, mas a elevação do jornalismo ao status de arte. Com isso, também criticava duramente escritores do período por se dedicarem ao que chamava de neofabulismo.
O elogio de escritores do século 19 feito por ele vinha em um momento curioso, porque o realismo à moda deles estava em baixa.
A França, onde Wolfe via tanta influência para os novos jornalistas, estava dedicada nos anos 1950 e 1960 ao “nouveau roman”, movimento de experimentação literária.
O boom latino-americano também corria o mundo, e Gabriel García Márquez publicaria “Cem Anos de Solidão” em 1967, numa amostra de que os mundos fantásticos também serviam para falar da realidade.

TOM ARROGANTE
A graça do estilo de Tom Wolfe deixa mais palatável o tom arrogante do texto. E é bom agora poder olhá-lo com distanciamento.
O escritor chega a sugerir que a o surgimento do realismo equivale à invenção da eletricidade. E quem tentasse aprimorar a literatura sem recorrer a ele seria como um engenheiro que tenta melhorar uma máquina abandonando a energia elétrica.
Logo mais, diz que o novo jornalismo era “a literatura mais importante” escrita nos Estados Unidos no período. Chega a sugerir que ele podia tomar o lugar do romance.
É verdade que o romance não tem mais o prestígio do passado. Mas ele tampouco foi substituído pela reportagem, hoje desafiada pelas “fake news”.
Pelo contrário, desde que foi acusado de alienação por Wolfe, o romance continuou se transformando —até chegar, ironicamente, a um retorno do realismo literário hoje.
Se continuar a se transformar é condição para um gênero continuar vivo, está claro que o romance seguiu a adiante.
O novo jornalismo, por sua vez, virou um fóssil —um fóssil ótimo de ler, deve-se admitir, mas o que está em jogo aqui são as pretensões estéticas de Wolfe.
Suas técnicas foram adotadas por diluidores do estilo e hoje alimentam best-sellers de não ficção. São livros, muitas vezes, de grande qualidade jornalística ou histórica, mas que não têm pretensões estéticas (ou não deveriam). 
Wolfe também não esperava que o gênero criado por ele, Gay Talese, Truman Capote e outros fosse enfrentar a mesma crise da literatura na próxima esquina: a da palavra escrita, com as séries de TV, a decadência da imprensa americana etc.
O novo jornalismo continuará a ser importante para a formação de jornalistas e fonte de prazer na leitura, mas seu legado estético passou longe do que Wolfe pregava.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05/tom-wolfe-via-fim-do-romance-mas-foi-novo-jornalismo-que-ficou-para-tras.shtml

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