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Sobretaxa ao México alarma empresas americanas

Executivos de empresas dos Estados Unidos têm dificuldades para imaginar como será o sistema de comércio mundial remodelado pelo presidente Donald Trump, depois de sua decisão, da semana passada, de abrir uma segunda frente na sua guerra comercial, ao voltar as baterias para o México.
O plano de Trump de utilizar tarifas contra o México como retaliação à imigração ilegal fez com que empresas e investidores compreendessem que suas decisões anteriores – como as tarifas sobre o aço e o alumínio – não eram simplesmente táticas de negociação para obter metas estratégicas mais amplas, dizem analistas.
“O mercado gostaria de crer que o presidente está blefando com relação às tarifas, mas ele não está”, disse Diane Swonk, economista-chefe da Grant Thornton. Ela observou que as empresas estão agora “pisando em ovos”.
Autoridades do Federal Reserve (Fed, o BC americano) citam a tensão comercial como ameaça ao crescimento há mais de um ano, mas as empresas americanas foram lentas em perceber isso.
Para muitos investidores, a decisão de Trump de cobrar tarifas sobre as importações do México marca um ponto de inflexão alarmante. O México está altamente integrado ao crucial mercado automotivo dos EUA, com autopeças muitas vezes atravessando repetidamente a fronteira entre os dois países, o que as sujeita, potencialmente, à reincidência de tarifas.
O México também foi o segundo maior país exportador de produtos para os EUA no ano passado, depois da China, que vende mais de US$ 500 bilhões ao ano aos EUA. Isso significa que enormes quantidades de mercadorias podem ser afetadas caso Trump eleve as tarifas, como ameaçou fazer, mesmo diante do risco de causar uma significativa desestabilização na economia e no mercado financeiro.
Depois da significativa volatilidade registrada pelos mercados financeiros na sexta-feira, os investidores agora veem uma probabilidade significativa de os EUA entrarem em recessão, diante da disposição do presidente de seguir com sua agenda comercial cada vez mais hostil.
O economista Seth Carpenter, do UBS, disse que os investidores acordaram para a possibilidade de as tarifas continuarem sendo “o instrumento preferido” de Trump, e que uma nova escalada da guerra comercial pode levar à uma significativa desaceleração da economia americana. “Caiu a ficha.”
As ações continuaram a perder valor nesta semana, em vista da compreensão pelos investidores da crescente ameaça à economia. Jim Bullard, presidente do Fed de St. Louis, disse que pode ser necessária uma redução das taxas de juros “em breve”, em vista dos conflitos comerciais e das baixas expectativas de inflação.
Se todas as ameaças de tarifas contra o México e a China forem implementadas, a medida núcleo da inflação – que exclui os preços voláteis de alimentos e energia – poderá subir até 1,25 ponto percentual, estima o Goldman Sachs, o que comprometerá o poder de compra dos consumidores. O banco reduziu sua previsão para o crescimento dos EUA no segundo semestre deste ano em meio ponto percentual, para 2%.
Outros estão mais pessimistas. Mais de dois terços dos diretores financeiros consultados pela Universidade Duke veem uma recessão até o terceiro trimestre do ano que vem, de acordo com pesquisa divulgada em abril. A tensão comercial foi o principal impulsionador dessas preocupações, disse John Graham, professor da Faculdade de Negócios Fuqua da Duke.
Esse levantamento foi divulgado semanas antes do anúncio, no início de maio, da elevação das tarifas americanas sobre US$ 200 bilhões em produtos chineses para 25%, ao lado das medidas mais recentes tomadas por Washington contra a gigante chinesa de telecomunicações Huawei, e da investida contra o México.
Graham disse que os investidores e empresas estão perguntando: “Será que esta será uma guerra comercial ininterrupta, que se estenderá pelos próximos anos?”
A julgar pelas variações dos bônus e ações, os mercados estão embutindo nos preços uma probabilidade de recessão de 37%, segundo Roberto Perli, da Cornerstone Macro. Ele descreveu essa probabilidade como elevada, mas ainda não alarmante.
De maneira preocupante, a mudança das expectativas com relação à política do Fed se assemelha às observadas durante a crise financeira, quando os investidores precificavam probabilidades mais altas de cortes das taxas de juros.
Novos sinais poderão se seguir nesta semana, vindos de um grande simpósio de política pública em Chicago, onde a diretoria executiva do Fed examinará seus instrumentos e sua estratégia de mais longo prazo. Richard Clarida, vice- presidente do Fed, disse na semana passada que o banco central precisa ser “ágil e preciso” em seu empenho em prorrogar a expansão da economia, citando riscos globais ao crescimento como um possível gatilho para redução dos juros.
Em entrevista nesta semana, Kevin Hassett, presidente do Conselho dos Assessores Econômicos de Trump, que está de saída do cargo, disse que os modelos econômicos baseados em dados quantitativos, e não em preços do mercado, não estão apontando para uma recessão, e que a alta dos preços dos bônus pode ser resultado mais do risco de baixa inflação do que de uma possível desaceleração.
Sobre o conflito com o México, ele disse que há “medidas tangíveis” que as autoridades do país poderiam tomar para enfrentar preocupações com a imigração que eliminariam o risco de tarifas.
EUA e China tinham chegado muito perto de um acordo, acrescentou Hassett, e “não há muita distância deste ponto para chegar perto de um acordo de novo”.
Mas esse tipo de mensagem otimista da Casa Branca consola muito pouco as empresas e os investidores americanos neste momento, em vista da natureza altamente imprevisível de sua política comercial.

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