Pensar e repensar para comunicar

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Por Gisele Jordão

O ato de comunicar, de tornar comum a um determinado grupo ou indivíduo uma determinada mensagem, é certamente complexo. Ao considerar que em toda comunicação haverá um ruído, expõe-se que a compreensão da mensagem depende da habilidade de codificação e escolha do meio mais adequado para seu envio. O entendimento de como acontecerá a decodificação da mensagem é fundamental para melhor codificá-la e, portanto, diminuir a incidência de ruídos. Assim sendo, quanto maior o conhecimento do indivíduo que receberá a mensagem sobre o assunto por ela tratado, menor o ruído.
De forma pragmática, não se espera que, por exemplo, o entendimento sobre ‘o que é sexualidade’ ou ainda ‘qual o significado de gênero’ de um médico, de uma mãe ou de um pastor evangélico parta das mesmas referências e resulte no mesmo entendimento ou ainda na mesma (re)ação frente ao abordado. É no reconhecimento desta diversidade e na restituição do papel do sujeito que habitam as perspectivas psicanalítica e antropológica abordadas, respectivamente, pelos professores Pedro e Fred. Contudo, a legitimidade de diferentes interpretações é diretamente questionada quando contemplada por meio de formas caricatas de representação, em uma velada hegemonia discursiva, de grupos sociais ainda compreendidos como ‘minorias’.
É neste momento, então, que o direito ganha máxima necessidade para regular “o comportamento livre do ser humano, disciplinando os direitos e deveres decorrentes das várias relações sociais e, justamente para cumprir essa função, deve acompanhar as mudanças que decorrem da evolução dessas relações”, como nos apresentou em seu texto a professora Denise Fabretti.
O surgimento de uma economia globalizada e muito competitiva redimensionou, além dos conceitos de tempo e espaço, o entendimento da importância e benefícios da informação e incentivou a formação de uma nova sociedade, que utiliza a tecnologia da informação como base para sua reestruturação sócio-econômica e cultural. A evolução tecnológica, o desenvolvimento dos canais de mídia e a mudança e conscientização do indivíduo foram simultâneos. Em decorrência disso, observa o sociólogo e professor de comunicação Manuel Castells, substancial foi o papel desta tecnologia “ao possibilitar a formação de redes como modo dinâmico e auto-expansível de organização da atividade humana. Essa lógica preponderante de redes transforma todos os domínios da vida social e econômica”, favorecendo aos indivíduos seguirem em seus projetos e interesses próprios e reafirmarem seus valores.
A sociedade, em diversas e novas organizações sistêmicas, propõe organicamente novos significados a cada momento, impulsionada por agentes de mudança – além dos tecnológicos – como os demográficos, geográficos, econômicos, sócio-políticos e sócio-culturais. A integração global proporcionada por uma série de fatores desenvolvidos em toda a história comercial e política mundial, traz alterações estruturais constantes para o ambiente social, negocial e, obviamente, de comunicação. A comunicação, por sua vez, fundamenta-se como um grande agente de mudança, ainda que corroborando em muito com a visão social aceita.
Se de fato “o meio é a mensagem”, como acreditava McLuhan (2002), quando dizia que os meios são, também, extensões tecnológicas da comunicação que produzem grande impacto cultural no ambiente e no indivíduo, a multiplicação de meios e canais de comunicação cria um número imenso de possibilidades para a comunicação. Assim, meio funde-se com a mensagem, favorecendo ou não seu conteúdo na entrega para o receptor. Ou seja, o meio e suas características junto com o conteúdo formam uma nova linguagem, a mensagem, com um significado específico. O significado, por sua vez, é o resultado da decodificação processada pelo receptor. Essa decodificação depende diretamente de seu entendimento e referências, seu ambiente e competências.
Domingo, São Paulo sediou sua 17ª edição da Parada do Orgulho LGBT. Diversos pontos de vista foram apresentados, pela mídia ou por representantes de grupos sociais, sobre o evento. Desde percepções que incluem a ‘safadeza’ como único valor cultivado no encontro, até às daqueles que criticam sua despolitização, o evento se constrói de diversas maneiras frente ao pensamento social e seus representantes midiáticos. E, neste ambiente de entendimento sobre a Parada, coincidentemente ou não, o polêmico projeto – que pretende alterar resolução de 1.999 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que proibe os profissionais da área de fazer tratamentos de reversão da homossexualidade – foi retomado em pauta, quase em contraposição à aura gay que o evento deixou no país.
Ontem, durante sessão em que o assunto era ponto central, o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorais (CDHM), deputado pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), referiu-se à imprensa como “a mídia secular” que, pela “ausência de conhecimento sobre processo legislativo” foi maldosamente induzida a nomear um projeto que trata da liberdade profissional de um psicólogo como o Projeto da Cura Gay. Segundo os comentários de seus relatores na sessão de votação na tarde de ontem, o projeto garante ‘apenas’ a liberdade do profissional em escolher o que se deve fazer nos casos em que o paciente queira mudar sua condição homossexual. Interessante notar que neste discurso não só os valores se invertem – quando afirmam proteger a autonomia de uma categoria profissional –, bem como a questão central que move o projeto não é, por seus defensores, discutida – a reversibilidade da condição homossexual.
A proposta falaciosa evoca e se apoia na família como instituição de formato pré-definido e perfeito e a coloca na centralidade do discurso de defesa deste projeto. De fato, o papel social da família – independente de seu arranjo – é o que garante a segurança de seus integrantes, o que promove os aportes afetivos, culturais, educacionais e materiais para o desenvolvimento de seus indivíduos. Contudo, o conceito de família construído pela comunicação não tem sido muito generoso com a diversidade dos novos arranjos observados na atualidade. Com alguma frequência, pode-se observar uma família não convencional em uma novela ou ainda em um comercial. Nesta mesma frequência, cuidadosamente estabelece-se a visão tradicional e típica de família ocidental e patriarcal (a convencional família dos comerciais de margarina) como a melhor opção, a que não traz danos ou sofrimentos. Há ainda o caso comum do homem gay com traços de comportamento e trejeitos femininos, que raramente estabelece um relacionamento sólido com alguém. Será que já não passamos do momento de repensar e reformar o pensamento na comunicação? Seja na perspectiva da recepção da comunicação, seja na da produção da mensagem, a construção dos conceitos de gênero e de família, observada de diversas formas, ganha ares interpretativos e, por vezes, parciais.
Edgar Morin, em A Cabeça Bem-feita, de 2003, aponta que os novos tempos são intrínsecos a uma nova forma de pensar; reforça que para se reformar o pensamento é necessário reformar as instituições, para se reformar as instituições é necessário reformar o pensamento. Assim, natural parece que quando há alterações nas instituições, existam influências na forma de pensar. Essa mudança social implica em realmente alterar a maneira de agir em relação à comunicação produzida: pensar de forma distinta, mudando a maneira de pesquisar, de criar, de veicular. Romper com este obstáculo epistemológico pode significar um grande elemento de contribuição para novos tempos, aqueles que não fornecerão condições para que discussões inaceitáveis como essa ganhem espaço e força.

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