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No Vietnã, um novo encontro de Trump e Kim

Após a espetacular apresentação feita para as TVs, em junho do ano passado, em Cingapura, Donald Trump e Kim Jong-un precisavam de outro show. Uma segunda cúpula entre o presidente americano e o ditador da Coreia do Norte começa hoje em Hanói, no Vietnã.
A escolha do local é intrigante. Para os EUA, o Partido Comunista do Vietnã é um inimigo transformado em companheiro e abriu um rastro de reformas de mercado no país. Aparentemente, espera-se que Kim olhe e aprenda. No entanto, até agora, ele tem se recusado a copiar a transformação econômica do Vietnã. E, embora Trump tenha confessado ter se apaixonado pelo jovem déspota, Coreia do Norte e EUA apenas começaram a namorar. 
Para Kim, o Vietnã pode ser apenas um país que derrotou os EUA. Hanói, claro, é só o cenário. Em Cingapura, os moradores receberam avisos oficiais para manter as luzes acesas durante a noite para maximizar o deslumbramento da silhueta da cidade. Em Hanói, os habitantes locais têm um limite um pouco mais subversivo. Um barbeiro está oferecendo aos clientes o look Trump ou Kim, de graça. Ambos são sensíveis quanto às piadas feitas sobre seus cabelos, embora apenas um deles possa mandar os gozadores para o gulag (destino de alguns críticos da política externa de Kim, que foram expurgados em uma ação “anticorrupção”).
Os penteados podem ser bem definidos, mas os contornos de qualquer acordo de cúpula continuam imprecisos. Em Cingapura, os dois lados concordaram em construir “um estável e duradouro regime de paz”. Trump disse que daria à Coreia do Norte as “garantias de segurança” e Kim se comprometeu com a “desnuclearização completa” da Península Coreana. 
Muita coisa continuou vaga: cronogramas, verificação e o que de fato significa desnuclearização. A Coreia do Norte adotou o termo para incluir o afastamento do compromisso de segurança dos EUA com a Coreia do Sul. No entanto, a equipe de Trump foi inflexível: isso tudo se referia ao “completo e verificável” desmantelamento das armas nucleares da Coreia do Norte.
Que diferença alguns meses fazem. Esta semana, Trump colocou um limite mais distante no prazo para a desnuclearização da Coreia do Norte. “Eu não estou com pressa”, disse. “Desde que não haja testes.” Os testes se referem a lançamentos de mísseis norte-coreanos e seis detonações nucleares que, no fim de 2017, haviam se transformado em um perigoso jogo de provocação. 
A decisão de Trump de sentar-se com Kim merece algum crédito (embora dificilmente seja digno de Nobel da Paz, sugerido pelo primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe). A região certamente se sente menos tensa em razão da turbulenta diplomacia, que envolve também a Coreia do Sul, desde o início do ano passado. Mas a afirmação de Trump de que a Coreia do Norte não é mais uma ameaça nuclear é rejeitada por seus próprios chefes de inteligência. Isto pode até causar preocupação em Kim, que quase certamente está expandindo seu arsenal.
Trump estabeleceu um nível pouco exigente para o sucesso em Hanói, mas Kim terá de oferecer algo. Choi Kang, do Asan Institute, centro de estudos de Seul, prevê um “negócio ruim e limitado”. Isso pode incluir a destruição dos reatores nucleares em Yongbyon e permitir que os inspetores confirmem que o local de Punggye-ri, onde os dispositivos nucleares foram detonados no subsolo, está realmente fechado. 
Os especialistas, porém, acreditam que o quinto e o sexto testes nucleares foram programados para ensinar aos norte-coreanos tudo o que eles precisam saber a respeito da detonação. Yongbyon, que foi desativado antes, estava mesmo decrépito. Thae Yong-ho, o mais graduado diplomata norte-coreano que desertou, diz que tais medidas são a mesma coisa que pintar um carro antigo para revenda. 
Enquanto isso, deve-se esperar pouco em Hanói sobre a inspeção do programa nuclear, menos ainda sobre a declaração de toda a sua extensão. Thae argumenta que Kim, inteligentemente, mudou a ênfase do desarmamento nuclear para a “paz”. Ambos os lados podem concordar em estabelecer escritórios de ligação nas capitais, um primeiro passo para normalizar as relações diplomáticas, e uma eventual “declaração de paz” – uma afirmação vaga e não vinculante de que nenhum dos lados ameaçará o outro.
O que Kim deseja, acima de tudo, é um alívio das sanções. Trump pode calcular que garantir a concessão não custaria muito aos EUA. O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, está se oferecendo para investir nas ferrovias da Coreia do Norte e promover a cooperação econômica. Se fossem permitidas maiores remessas de petróleo, a China pagaria todos os custos. Trump ficaria satisfeito com esse resultado, mesmo que não desmantele as armas nucleares norte-coreanas. Em Cingapura, Trump foi manipulado sem saber. Em Hanói, pode ser que ele nem se importe.

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