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Conte segue como premiê em novo governo da Itália

O anti-establishment Movimento 5 Estrelas (M5S) e o Partido Democrático, de centro-esquerda, duas legendas rivais na Itália, alcançaram ontem um acordo para formar um novo governo. Isso põe fim a uma crise do governo que ameaçou levar à realização de eleições nacionais pela segunda vez em menos de dois anos.
O M5S e o PD se uniram para evitar ascensão do dirigente nativista de extrema-direita Matteo Salvini, da Liga, que ameaçou desafiar as regras orçamentárias da União Europeia (UE) e defende um endurecimento da política de imigração.
O acordo foi fechado após dias de tensas negociações.
O pacto vai adiar, pelo menos por enquanto, a ascensão de Salvini e de seu partido, reconhecidamente nativista, firmemente anti-UE, que até o dia 9 deste mês governou o país junto com o M5S em uma frágil coalizão. Com a substituição da Liga pelos democratas pró-UE na nova coalizão de governo, é provável que Bruxelas se defronte com uma Itália mais cooperativa em questões como a imigração e na adesão às rígidas regras fiscais do bloco comercial.
No curto prazo, a nova coalizão sugere que Salvini cometeu um erro de cálculo, pouco mais de duas semanas atrás, quando deixou o governo anterior e defendeu a realização de novas eleições, após 18 meses de um mandato de cinco anos. Ele se arrisca agora a militar na oposição até as próximas eleições, que só terão de ser obrigatoriamente realizadas em 2023.
Mas a Liga é o partido de maior popularidade da Itália, segundo pesquisas de opinião, e Salvini tende a se mostrar um fator incômodo o suficiente para uma coalizão que já tem dificuldades em contornar suas diferenças políticas.
Há sinais de que Conte, de comportamento conciliador, que não pertence a nenhum dos dois partidos da coalizão, adote uma postura mais incisiva agora que Salvini está na oposição. Em sessão do Parlamento realizada na semana passada, o premiê criticou Salvini por solapar um governo em que ele foi vice-premiê, acusando-o de colocar interesses pessoais e partidários à frente aos do país.
Conte era um advogado pouco conhecido quando o M5S e a Liga o escolheram, no ano passado, como um candidato de conciliação entre os dois partidos para encabeçar sua coalizão. Ele era o mediador entre os dois lados, que discordavam continuamente, mas muitas vezes se alinhou ao M5S. Luigi Di Maio, líder do M5S, insistiu que Conte continuasse como premiê.
Conte se encontra na manhã de hoje com o presidente da Itália, Sergio Mattarella, que lhe dará, oficialmente, poderes para formar o governo. Detalhes sobre os detalhes do novo governo, como quais serão os ministros, não foram revelados. Di Maio, que no governo anterior era ministro do Trabalho e vice-premiê, deverá assumir um Ministério de peso.
Os mercados comemoraram ontem do anúncio oficial dos dois partidos, e o prêmio de risco sobre a dívida italiana, em
comparação com a alemã, caiu para seu nível mais baixo desde antes da formação da coalizão de governo entre o M5S e a Liga no ano passado.
Ainda há uma possibilidade de que a coalizão desmorone antes de se concretizar completamente. O M5S promoverá uma votação em seu site nos próximos dias para que seus apoiadores digam se querem ou não que o acordo com os democratas seja finalizado. Se a maioria for contra o acordo, o M5S disse que sairá do novo governo.
Se passar por esse obstáculo, o novo governo enfrentará de imediato desafios consideráveis. Ele deve submeter um projeto orçamentário à UE até 15 de outubro, e aprovar a lei orçamentária no fim do ano. Dirigentes da UE e o mercado financeiro vão acompanhar de perto a evolução dos acontecimentos: a Itália tem uma enorme dívida, que é, proporcionalmente, a mais alta da zona do euro depois da Grécia, o que deixa pouco espaço para as medidas de estímulo fiscal que o M5S defende. Em vez disso, o governo terá que cortar gastos ou elevar impostos para evitar um aumento automático no imposto sobre valor agregado (IVA), o que pode pressionar mais a já estagnada economia da Itália. O UBS estima que o PIB, que ficou estável no segundo trimestre, crescerá 0,1% este ano e 0,5% em 2020.
Outras medidas iniciais também devem incluir a aprovação de uma lei para reduzir o número de representantes no Parlamento em mais de um terço, uma das principais reivindicações do M5S. Atualmente são 951 parlamentares.
Como tem a maior representação no Parlamento, o M5S será o principal partido da coalizão. Alinhar-se aos democratas é um movimento arriscado, segundo analistas. Embora fosse provável sair menor no caso de novas eleições, o M5S também pode ter dificuldades em qualquer eleição futura se não conseguir estabilizar a economia e lidar com a imigração e outras questões difíceis.
O M5S também tem uma longa história de disputas com os democratas, o que levanta dúvidas sobre a durabilidade da nova coalizão. Os democratas exigiram inicialmente que o novo governo fosse liderado por outra pessoa que não Conte, para demonstrar que trata-se de um novo governo.

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