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Como mapear coisas que não existem – Uma produção a partir da 31ª Bienal de São Paulo

Clara Paulino.

[O objetivo] Não é explicar cada projeto, mas sim tencionar as possibilidades de aproximação e abordagem, explorando as diversas possibilidades que não devem terminar e não terminam aqui […]. Também não são um percurso linear da Bienal; a ideia é que cada visitante entre numa espécie de jornada pessoal ou coletiva. (Introdução ao audioguia da 31ª Bienal de São Paulo)
É com uma densa obra que a 31ª Bienal recepciona seus olhares curiosos, ainda que nada diferente fosse esperado. Desde logo, o observador passageiro desfruta da magnitude de uma parede pintada e caligrafada em tinta escura, entendendo ser o impacto visual a única faceta do painel. Aos poucos, porém, conforme vão sendo identificadas as imprevistas ilhas e montanhas encaixadas nesse grandioso conjunto de mapas, intensifica-se também a experiência do visitante, que agora é capaz de trilhar jornadas infinitas.
Trata-se dos desenhos do artista contemporâneo Qiu Zhijie, que introduz o convidativo tema dessa Bienal, “Como falar de coisas que não existem”. Ao nomear as regiões mapeadas com ideologias políticas, linhas filosóficas, teses econômicas, heróis fictícios, deuses, religiões e outras tantas coisas fisicamente inexistentes, o artista desperta estranhamento e curiosidade em quem ali passa. Possivelmente inspirado em antigas tradições chinesas, Zhijie incita uma reflexão a respeito da representação de coisas que inexistem para além da concepção.

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O artista Qiu Zhijie trabalha na instalação de sua obra. Foto: Pedro Ivo Transferetti/Fundação Bienal de São Paulo
É sabido desde as primeiras alegorias platônicas que as tentativas de representação feitas pelo homem são sempre carregadas de adaptações e imperfeições. “Ceci n’est pas une pipe”, resume Magritte. Contudo, sendo inerente a qualquer referência que o indivíduo é capaz de fazer, essa noção da condição humana não tem impedido que mesmo as impressões mais complexas sejam expressas ao mundo de formas incontáveis. Ao expor um retrato daquilo que é impalpável, a obra retoma a desenvoltura da arte em se esquivar do compromisso com as classificações mundanas para trazer, com a solidificação das visões do artista, novas formas de ser, falar, ler, aprender, usar, imaginar ou sonhar.

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“La trahison des images”, do surrealista René Magritte, atenta para a ideia de que a imagem de um cachimbo não é um cachimbo em sí
Por milênios, os mapas foram a maneira com a qual o ser humano documentou imageticamente seu conhecimento sobre os territórios globais. É natural também que, ao tomarem forma, esses registros sejam reflexo do ponto de vista de quem os fez.
Em sua representação, Qiu Zhijie curiosamente acrescenta à noção de espaço o efeito do tempo, entrelaçando ambos conceitos num mesmo mapa. Assim, as distâncias na escala do desenho podem avançar centímetros na representação e anos da cronologia, em uma “viagem inexistente” — como assina o painel. Lado a lado, estão Bakunin, Lênin e Mao Tsé-Tung, por exemplo, que passam a se dispor segundo os critérios concebidos na visão de mundo do artista. A obra acaba por estar, como tudo que nasce, profundamente ligada a seu contexto, guardando consigo cenários e perspectivas que jamais se repetirão. Seus traços, reforçando o caráter representativo da obra, desaparecerão também com o fim dessa Bienal.
Graças ao hábito de registro das civilizações, o passar do tempo fez dos mapas heranças gráficas da constante transformação do mundo. Das mais simplistas inscrições cuneiformes do babilônico “Imago Mundi” (500 A.C., aos estudos do cientista grego Cláudio Ptolomeu, que, em 150 D.C., usou a matemática para construir a malha geométrica sobre seus mapas; ou do grandioso e medieval mapa de Hereford, que se orienta pelo tempo bíblico e crenças cristãs, à projeção de Mercator (1569 D.C.), que em dezoito folhas xilogravadas planificou a curvatura do mundo. Todas elas, às suas maneiras, carregam consigo histórias e visões capazes de guiar o futuro.

You can’t connect the dots looking forward; you can only connect them looking backwards. (Steve Jobs, Stanford Commencement Address, 2005)
Sob uma ótica diferente — isoladas de seu tempo, por exemplo — , as soluções cartográficas de cada contexto podem parecer inocentes ou ignorantes. Verdadeiramente prepotente, porém, seria esperar qualquer outra solução, ou acreditar que essas são menos válidas que as representações atuais. Mais adiante, somente o olhar distanciado possibilita a compreensão dos limites da contemporaneidade, bem como o entendimento de seus papéis na cronologia

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