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China tira prioridade de energia renovável

Políticas de proteção ambiental deixaram de ser prioridade na China, que se preocupa hoje em estabilizar sua economia. O investimento da China em energia renovável caiu 39% ao ano no primeiro semestre
A poluída cidade chinesa de Baoding é conhecida por duas coisas: hambúrgueres de carne de burro e painéis solares. Um centro industrial logo ao sul de Pequim – a 45 minutos de distância num trem de alta velocidade – a zona de alta tecnologia da cidade se intitula Vale da Energia, porque é a sede de muitos fabricantes de painéis solares.
Mas, para Vincent Yu, vice-gerente geral da Yingli Solar, uma das primeiras empresas de energia renovável a se instalar na cidade, os negócios têm sido difíceis ultimamente. “Nos últimos dois anos houve muita pressão. Os subsídios para projetos de energia solar caíram”, diz Yu. Ele avalia que as novas instalações solares na China – que chegaram a 53 gigawatts (GW) em 2017, quando a demanda atingiu o pico – serão cerca de 40% menores este ano.
As fotografias em seu escritório mostram a Yingli em seus dias de glória, uma década atrás. As vendas aumentavam, e a empresa gastou milhões com o patrocínio das Copas do Mundo de Futebol de 2010 e 2014. A Yingli foi a maior fabricante de painéis solares do mundo em 2012 e 2013, com exportações para todas as regiões do planeta e celebrada na China como uma gigante nacional. Seu imenso parque industrial em Baoding ainda é uma alusão a esse status, com um espaçoso museu dedicado à história da empresa como pioneira no uso de energia solar.
Hoje a Yingli está insolvente. Ela não faz pagamentos relativos a suas dívidas desde 2016 e em 2018, foi excluída da Bolsa de Valores de Nova York porque sua capitalização de mercado tinha caído abaixo do limite mínimo de US$ 50 milhões. A Yingli ainda produz painéis solares, mas suas fábricas operam com prejuízo, e o ativo mais valioso que lhe resta é o terreno em que elas estão. Alguns se perguntam como é que a Yingli ainda está operando. Analistas acreditam que as conexões políticas de seu fundador podem ter ajudado a manter os credores à distância.
A empresa é a vítima mais proeminente de uma mudança na política que se faz sentir em todo o setor de energia renovável em um país que já foi celebrado como o grande defensor mundial da energia limpa. O investimento chinês em energia limpa está despencando – passou de US$ 76 bilhões, no primeiro semestre de 2017, para US$ 29 bilhões no primeiro semestre deste ano.
Para a conferência da ONU sobre mudança climática (CoP-25), reunião anual que começará na próxima segunda-feira em Madri, na Espanha, isso é alarmante.
A preocupação com o impacto da mudança climática nunca foi tão grande. Mas a diferença entre o que os países deveriam fazer e o que estão de fato fazendo – emitindo níveis crescentes de dióxido de carbono – também é grande. Com a saída dos EUA do Acordo do Clima de Paris, a atenção está cada vez mais voltada para a China.
O país é o mais “verde” do mundo, mas também é o maior poluidor. Tem mais energia eólica e solar do que qualquer outro, mas também é o país que mais constrói novas usinas a carvão no mundo. No ano passado, suas emissões atingiram um recorde e corresponderam a mais da metade do aumento mundial das emissões de dióxido de carbono relacionadas à energia, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Este ano, as emissões chinesas devem crescer 3% em relação a 2018.
“Tudo está em risco para o planeta, porque a economia chinesa é muito maior do que qualquer outra”, diz Adair Turner, presidente da Comissão de Transições Energéticas. “Mesmo a Europa como um todo produz consideravelmente menos emissões do que a China.”
Ele menciona a promessa atual da China, de que suas emissões de CO2 atingirão seu ponto máximo até 2030 e diz que esse plano não é nem de longe suficientemente ambicioso. “Sejamos claros, se isso for tudo o que a China fará, então estamos no caminho do desastre climático”, diz Turner, que faz lobby para que a China adote uma meta de zerar as emissões líquidas até 2050. “Isso é verdade para todos os [países que assumiram compromissos sob o Acordo de Paris]… Todo mundo sempre soube que serão necessários avanços muito significativos para chegarmos ao menos perto da meta de 2o C.”
O Acordo de Paris, do qual a China é signatária, se compromete a limitar o aumento do aquecimento global a menos de 2o C. Mas essa meta parece cada vez mais fora de alcance. O mundo está no rumo de um aquecimento de 3o C até o fim deste século, se as tendências atuais se mantiverem. Isso significa que o nível do mar pode subir até 1 metro, o que poria em risco mais de 600 milhões de pessoas que vivem em áreas baixas e costeiras, segundo recente relatório do Painel Intergovernamental das ONU sobre Mudança Climática.
O pacto climático está sob ataque de muitos lados, e os EUA estão saindo dele totalmente por ordem do presidente Donald Trump. A fragmentação do multilateralismo enfraqueceu ainda mais o acordo climático, que carece de qualquer mecanismo de execução. A China – cuja atenção está desviada para a desaceleração da economia, a guerra comercial com os EUA e os protestos em Hong Kong – não é a única razão pela qual o planeta está no rumo de mudanças climáticas devastadoras, mas está perto do topo da lista.
“O ímpeto geral sobre as questões climáticas e ambientais vem diminuindo [na China]”, avalia Li Shuo, consultor sênior de política global do Greenpeace. A mudança climática se tornou uma prioridade menor para Pequim. “Há menos espaço para a agenda verde.”
O investimento da China em energia renovável caiu 39% no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018, segundo dados da Bloomberg New Energy Finance. Pequim tirou subsídios para projetos de painéis solares no meio do ano passado e está reduzindo os recursos destinados à energia eólica, causando uma mudança abrupta.
“Esta é provavelmente uma fase ruim”, diz Li Junfeng, importante autoridade de energia renovável e chefe do Centro Nacional de Pesquisa Estratégica sobre Mudanças Climáticas, que faz parte do Ministério de Planejamento do governo. “A nova política ainda não está em vigor, e a política antiga [de subsídios] foi interrompida.”
Cinco anos atrás, quando o país crescia de forma robusta, Pequim via políticas ambientais mais fortes como o cerne de sua transformação econômica, com o abandono do modelo baseado na indústria pesada, de alto consumo energético. Hoje, com o crescimento da economia no ritmo mais lento desde os anos 90, isso mudou.
“A maior prioridade política na China é tentar estabilizar a economia”, diz Kevin Tu, economista de energia que já comandou o escritório da China na AIE. “Qualquer outra coisa, incluindo a proteção ambiental, especialmente as mudanças climáticas, terá de ceder espaço a essas prioridades políticas.”
No papel, as metas climáticas da China não mudaram: Pequim prometeu que suas emissões de dióxido de carbono atingirão o limite máximo até 2030 e estabeleceu que até essa data passará a extrair 20% de sua energia primária de fontes não fósseis. Contudo, essa promessa permitiria à China continuar a aumentar suas emissões ao longo da próxima década, com implicações devastadoras para o planeta. Seus investimentos na Iniciativa do Cinturão e da Rota, na qual os bancos estatais destinaram mais de US$ 30 bilhões para a construção de usinas a carvão em outros países, também contribuem para as emissões globais.
A participação da China no Acordo de Paris em 2015 foi anunciada por ativistas como uma grande vitória. Convencer Pequim a estabelecer metas climáticas era uma das principais prioridades dos EUA, sob o governo de Barack Obama. Mas, embutida nas negociações, havia uma expectativa de que a China atingisse sua meta de emissões muito antes de 2030. O ano que vem será crucial, pois os países que assinaram o Acordo de Paris devem apresentar metas aprimoradas – mas os ânimos em Pequim tornam bem menos provável a definição de metas climáticas mais ambiciosas para a China.
Li diz que a deterioração das relações entre EUA e China – junto com os distúrbios em Hong Kong – ajudou a alimentar um sentimento nacionalista crescente e uma raiva contra o Ocidente.
Um dos alvos dessa ira nacionalista é Greta Thunberg, a ativista adolescente sueca, reverenciada como uma heroína do clima em algumas partes do mundo. “Muitos internautas veem [Greta] como uma representante da agenda liberal ocidental”, diz Li. “Há essa perspectiva maior de que o Ocidente está unido contra a China.”
Ao mesmo tempo, o carvão parece estar novamente em ascensão. No mês passado, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, identificou o carvão como uma área prioritária. A China continua a ser o maior produtor do mundo. Muitos veem isso como parte de um movimento de Pequim de priorizar a segurança energética, resultado do temor dos dirigentes chineses com a deterioração das relações com o Ocidente. “A preocupação com a segurança energética é uma bênção para o [setor de] carvão na China”, diz Tu.
As autoridades chinesas também estão focadas em manter o custo da energia baixo, para ajudar a estimular a economia. Por isso, a partir de janeiro o governo permitirá flutuações no preço da eletricidade fornecida por usinas a carvão, que é regulamentado centralmente, e a expectativa é de que o preço caia com isso.
Esses fatores agravaram os problemas do setor de energia renovável. Após beneficiá-lo com subsídios generosos por mais de uma década, Pequim cortou o subsídio a painéis solares sem aviso prévio no ano passado. Os pagamentos devidos criaram um déficit de cerca de 200 bilhões de yuans (US$ 28 bilhões) no fundo de desenvolvimento de energia renovável, que faz a distribuição dos subsídios.
Frank Haugwitz, fundador da Assessoria Ásia Europa para Energia Limpa (Solar) em Hong Kong, diz que os subsídios contribuíram para um surto de produtos baseados em energia solar que superou as expectativas do governo, o que provocou o corte repentino.
Agora as cartas estão marcadas a favor do carvão. As novas políticas para energia renovável estão focadas na paridade da rede – só desenvolver projetos de energia eólica e solar que possam competir com o preço do carvão. E essa competição pode se tornar desafiadora com a queda dos preços da energia a carvão e a entrada em funcionamento de uma série de novas usinas elétricas a carvão. O setor de energia eólica viveu uma onda de projetos neste ano, com as construtoras tentando capturar o que resta dos subsídios.
A pressão diplomática sobre a China para melhorar suas metas climáticas tem sido pública. Durante uma visita de Estado do presidente francês, Emmanuel Macron, no início deste mês, os dois lados divulgaram uma declaração conjunta em que diziam que o Acordo de Paris é “irreversível” e prometiam novas metas.
Autoridades chinesas, como Li Junfeng, criticam essa pressão, já que a China provavelmente vai superar as atuais metas climáticas, ainda que não adote novos objetivos oficialmente. “Agora que os EUA se retiraram do Acordo de Paris, toda a resposta mundial à mudança climática está mudando”, diz. “Nós temos que ser realistas… Não adianta nos apressarmos.”
Ele também ressalta que a China alcançou, e superou em muito, a maioria de suas metas climáticas anteriores. O compromisso de reduzir a intensidade de carbono – a quantidade de carbono produzida por unidade do Produto Interno Bruto (PIB) – entre 40% e 50% até 2020, em comparação com os níveis de 2005, foi alcançada três anos antes. O país também superou suas metas de instalações de painéis solares, embora esse crescimento descontrolado tenha levado ao déficit nos subsídios.
Por muitos anos, a ação contra as mudanças climáticas era a única área em que Pequim e as capitais ocidentais costumavam concordar. Até os políticos ocidentais mais linha-dura consideravam o histórico da China com relação ao clima como um exemplo.
Mas isso pode estar mudando. “Com certeza isso vai azedar se a China não avançar rapidamente na direção certa”, diz Todd Stern, o principal negociador dos EUA para o Acordo de Paris, que acrescenta que agora simplesmente existe “menos margem de manobra” em termos de emissões globais. “Não temos condições de fazer o que precisamos fazer, a menos que a China esteja fazendo bastante.”
“Estamos meio que entrando num mundo novo agora… Não é só um senso de urgência, é a matemática. Faça as contas e você verá se estamos fazendo o suficiente”, diz Stern. “O Acordo de Paris vai subir e cair, no nível da vontade política dos países participantes. Isso sempre foi verdade”, acrescentou. “O problema é que existe uma falta de vontade política em praticamente todos os países, em comparação com o que é necessário.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2019/11/27/china-tira-prioridade-de-energia-renovavel.ghtml

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