Trump quer comércio baseado em negociação pontual

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Donald Trump está movendo os EUA de um sistema comercial baseado em regras (rules based trading system) para negociações pontuais (deals based trade) de interesse americano, o que poderá levar ao caos no comércio global.
A avaliação é de Arancha Gonzalez, diretora-executiva do Centro de Comércio Internacional (ITC, na sigla em inglês), agência da ONU e da Organização Mundial do Comércio, e que assessorou o ex-diretor-geral da OMC Pascal Lamy.
Todo mundo tem algum problema comercial com os EUA, a maior potência econômica. O que Trump começa a fazer é selecionar produtos para proteger e agradar a determinados lobbies, ignorando outros onde os EUA têm superávit, como mostrou matéria de Assis Moreira, publicada no Valor de 11/03.
Fontes em Genebra destacavam as contradições de Trump ao assinar na semana passada a medida unilateral para impor sobretaxas de 25% sobre importações de aço e de 10% às de alumínio.
Primeiro, ele disse que estava impondo uma salvaguarda para proteger a segurança nacional dos EUA. Depois, que estava respondendo a uma situação de dumping (importações com preços considerados deslealmente baixos). Finalmente, que queria reequilibrar o comércio dos EUA para reduzir o déficit comercial caso a caso.
São três coisas diferentes, mas visivelmente pouco importa a Trump qual o mecanismo usado para restringir o acesso a mercado. O que conta é reduzir as importações. A obsessão de Trump é com o déficit comercial.
Observadores consideram que também no comércio a visão de Trump não tem sentido. As regras do comércio internacional não foram feitas para se ter equilíbrio entre exportações e importações. Negociações internacionais são resultados de concessões entre diferentes setores, e não para garantir reciprocidade tarifária perfeita, como Trump ameaça cobrar agora.
Em todo caso, na direção que Washington quer, União Europeia (UE), Japão e Coreia do Sul estão entre os que se colocam na fila para negociar um compromisso e evitar que seus produtos siderúrgicos sejam afetado pelas tarifas.
Ao mesmo tempo, o principal negociador comercial americano, Robert Lighthizer, parece querer ressuscitar uma velha ideia que se utilizou nos anos 1980 com o Japão, que é pedir aos sócios comerciais para restringirem voluntariamente as exportações para os EUA.
Resta a negociadores, na cena comercial em Genebra, concordar com o vice-diretor-geral da OMC, Alan Wolff, indicado pelo governo Trump, que disse que o sistema multilateral de comércio promovido pela OMC vai agora ser testado como nunca antes e não pode mais ser dado como garantido.
Numa de suas primeiras declarações ao chegar a Genebra, em 2017, Wolff sugeriu que os membros da OMC deveriam aprender como funcionar na ausência da liderança dos EUA, uma nova realidade que, ele achava, não tinha sido entendida por vários países.
Na semana passada, em discurso na Câmara de Comércio dos EUA, em Washington, Wolff disse que, embora quase todos os países defendam o multilateralismo, na prática eles têm outras prioridades. Exemplificou que a China coloca foco na política econômica externa com sua Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota; a UE acumula acordos bilaterais, totalizando 96; o

Japão agrupou o que restou da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês) depois de Trump abandonar essa negociação; e muitos países em desenvolvimento não parecem convictos de que se abrir o comércio seja bom como motor para o desenvolvimento.
Para completar, Trump, o único líder que não para de mencionar a OMC, o faz basicamente para criticar a organização.

http://www.valor.com.br/internacional/5377651/trump-quer-comercio-baseado-em-negociacao-pontual#

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