Trump pede reformas, mas não faz discurso hostil à ONU

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Os Estados Unidos querem ajudar a ONU a alcançar seus “objetivos verdadeiramente nobres”, disse Donald Trump, apresentando-se como um paladino da instituição multilateral que ele já tachou como um ineficiente grupo de discussões vazias.

“Nos últimos anos a ONU não atingiu seu pleno potencial devido à burocracia e à má gestão”, afirmou o presidente dos EUA em um discurso breve, pré-redigido, na sede da organização.

“Tornem a ONU grande”, disse ele mais tarde, repetindo o slogan de campanha que o levou à vitória como presidente. A ONU, disse ele, tem “enorme potencial”.

As palavras positivas marcam uma reviravolta de Trump. O presidente americano disse que quer “encontrar maneiras de a ONU poder… melhorar em desenvolvimento, gestão, paz e segurança”. Trump vai discursar na Assembleia Geral da ONU, como mostrou matéria do Financial Times, assinada por Katrina Manson, publicada no Valor de 19/09.

O presidente tinha dito anteriormente que a ONU não era amiga da liberdade e não tinha conseguido pôr fim aos grandes conflitos mundiais. Chegou até a criticar o tamanho das peças de mármore que revestem a parede da Assembleia como pequenas demais. Associados a sua postura isolacionista, sustentados por sua doutrina “os EUA em primeiro lugar”, esses episódios levaram muitos aliados a temer que ele abandonaria a entidade.

Autoridades da ONU ainda temem a possibilidade de os EUA tentarem reduzir ou suspender as suas contribuições.

Quase 130 países assinaram uma declaração de 10 pontos formulada preliminarmente pelos EUA, econômica em detalhes, na qual os signatários prometem apoio a uma ampla reforma.

Ela será defendida pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que disse que “trâmites bizantinos” e “burocracia interminável” o fazem passar noites em claro.

Trump disse que as reformas reduzirão a burocracia, eliminarão sistemas desatualizados, protegerão “delatores” e focarão em resultados, em vez de processos.

“Apesar de o orçamento básico da ONU ter crescido 140%, e seu pessoal tenha mais que dobrado desde 2000, não estamos vendo resultados coerentes com esse investimento”, disse Trump.

Os EUA são o principal financiador da ONU, bancando mais de 28% do orçamento das missões de paz, de US$ 6.8 bilhões, quase três vezes o valor pago pelo segundo maior financiador, a China. Os EUA também financiam 22% do orçamento essencial da ONU.

Nikki Haley, a embaixadora dos EUA na ONU, afirmou ontem ter encontrado “um amigo” em Guterres, que foi primeiro- ministro de Portugal pelo Partido Socialista e é um defensor dos direitos dos refugiados.

“Trump está realmente colaborando com um organismo multilateral. Isso é bastante surpreendente”, disse um funcionário da ONU. “Isso é exatamente o oposto do que ele vinha dizendo”.

Neste ano, os EUA recorreram ao Conselho de Segurança da ONU como nunca antes, com o objetivo de pressionar a economia da Coreia do Norte mediante uma série de resoluções de sanções aprovadas por unanimidade.

Essas sanções restringiram em 90% o mercado de exportação do regime norte-coreano e reduziram o acesso do país a produtos petrolíferos, numa tentativa de forçar a Coreia do Norte a paralisar o seu programa nuclear.

Os EUA também podem contar algumas vitórias desde já em sua agenda visando a redução de custos. No início deste ano, Washington anunciou um corte global de US$ 500 milhões no orçamento de operações de manutenção da paz. Mas as mudanças não foram consideradas drásticas e refletiram o impacto do fim já previsto de operações de manutenção da paz, como a da Costa do Marfim, após a mobilização dos capacetes azuis durante 13 anos.

“As perspectivas para reformas serão muito melhores se os EUA forem um parceiro engajado e construtivo, e não um antagonista que tenha praticamente abandonado a organização e precise ser trazido de volta”, afirma Jon Alterman, especialista em segurança mundial no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

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