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Tensão já afeta negócios entre EUA e México

Empresas americanas começaram a estocar insumos e produtos em reação às ameaças do presidente Donald Trump de fechar a fronteira com o México, o que colocaria em risco suas cadeias de suprimentos, segundo alerta da Câmara de Comércio dos EUA, um influente grupo de lobby empresarial.
“Neste momento, há muito ruído no sistema”, disse John Murphy, vice-presidente sênior de política internacional da Câmara de Comércio dos EUA. “Esse tipo de sinal não ajuda as empresas a fazer planos. Elas têm que reagir aumentando seu estoque, o que é caro, porque tentam se garantir no caso de um fechamento.”
O Conselho Americano de Políticas Automotivas, associação setorial que representa a Fiat Chrysler, a Ford e a General Motors, também fez seu alerta. “Qualquer ação que interrompa o comércio na fronteira será prejudicial para a economia dos EUA e, em particular, para a indústria automotiva.”
Ontem, Trump reiterou sua a ameaça de fechar a fronteira, ou partes dela, dizendo que o Congresso pode evitar tal paralisação mudando as leis para consertar o que ele chama de “brechas” na imigração. “O Congresso deve se reunir e eliminar imediatamente as brechas da Fronteira! Sem nenhuma ação,
Fronteira, ou grandes partes da Fronteira, fecharão. Esta é uma Emergência Nacional!”, tuitou o presidente, que planeja visitar amanhã a cidade fronteiriça de Calexico, na Califórnia.
O diretor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, disse ontem que o governo está discutindo maneiras de manter as vias de carga abertas se Trump decidir fechar a fronteira, mas sem dar detalhes.
As autoridades americanas estão discutindo a possibilidade de fechar portas de entrada selecionadas, fechando-as parcialmente, ou fechando todos os pontos de entrada, disse um funcionário da Casa Branca, que pediu anonimato para comentar sobre a questão.
Em meio à crescente tensão provocada pelas ameaças de Trump, o comércio na fronteira EUA-México já sofre com uma recente medida do governo americano de deslocar até 750 agentes da alfândega e da patrulha de fronteira, que gerenciam o fluxo de tráfego comercial, para ajudar a conter o fluxo de migrantes que tentam entrar no país.
Autoridades mexicanas e líderes empresariais ao longo da fronteira dos dois países alertaram que os atrasos nos portos de entrada estão causando prejuízos de dezenas de milhões de dólares para transportadoras e empresas de logística.
Desde segunda-feira, quando começaram as transferências, vem se formando filas de veículos e de caminhões comerciais nos portos de entrada em El Paso, San Diego e outros pontos ao longo da fronteira de 3.200 km, como reflexo do aumento no tempo de espera para fazer a travessia.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) estima que até 100.000 imigrantes tentaram entrar no país através da fronteira com o México em março, maior número em mais de uma década. Para conter o que chama de “crescente crise de segurança e humanitária na fronteira”, o DHS informou que a transferência de pessoal para a imigração poderá aumentar para mais de 2.000 funcionários, cerca de um oitavo do efetivo total na fronteira mexicana.
Marcelo Ebrard, ministro das Relações Exteriores do México, disse na terça-feira que a medida do DHS está gerando enormes atrasos ao remover agentes que inspecionam veículos de carga quando entram nos EUA. “Se não conseguirmos normalizar isso muito em breve, isso vai nos custar economicamente, para ambos os países.”
Uma média em torno de US$ 1 milhão em bens e serviços comerciais passam pela fronteira EUA-México a cada minuto, de acordo com Jon Barela, executivo-chefe da Borderplex Alliance, um grupo de defesa que representa negócios em El Paso, Texas, um dos pontos de passagem mais movimentados para mercadorias.
Barela disse que os atrasos, incluindo a ameaça de uma paralisação na fronteira, atingiram mais duramente o setor agrícola e a indústria automobilística. O setor automotivo americano é altamente integrado e depende do fluxo constante de peças e componentes para frente e para trás na fronteira.
“Recebo ligações de vários empresários da região e eles estão preocupados com os pedidos na ponta final do processo de fabricação. Seus clientes – fabricantes e empresas de logística – estão preocupados com o risco de redução ou mesmo suspensão dos pedidos”, disse. “Essas duas questões, comércio e migração, precisam ser separadas. Esta não será a última crise migratória neste país.”
Em Ciudad Juárez, a cidade mexicana que fica do outro lado do Rio Grande em El Paso, as esperas de duas horas por caminhões de carga se transformaram em atrasos de cinco ou seis horas e longas filas de 12 km, forçando os caminhoneiros a fazer apenas uma única travessia por turno, abaixo da média de duas ou três travessias por dia em condições normais.
Nos últimos dias os atrasos se espalharam pelo cruzamento de Laredo, de acordo com Jorge Solis, diretor-geral da Xpress International, uma empresa de logística com uma frota de cerca de 400 caminhões no norte do México. Há 40 caminhões por dia só de cerveja de uma fábrica de cerveja da Heineken em Monterrey, disse Solis. Os atrasos o obrigaram a se esforçar para encontrar caminhões disponíveis para atender à demanda.
“Os caminhões estão esperando para cruzar a fronteira e, ao mesmo tempo, a empresa ainda está produzindo cerveja em Monterrey que precisamos recolher”, disse Solis. “Todo mundo perde dinheiro, porque eles não são capazes de colocar seu produto na prateleira. Mesmo que tudo resolva amanhã, ainda teremos centenas de caminhões parados no México. Esse problema não vai desaparecer por três semanas ou mais.”
Petra Gomez, de 63 anos, dona de uma loja perto do porto de entrada de Otay Mesa para a Califórnia, na frente de Tijuana, disse que também sentia o impacto das ameaças de Trump. “Muitas pessoas não estão atravessando por medo de ficarem presas, se eles fecharem a fronteira”, disse Petra, referindo-se às dezenas de milhares de pessoas que cruzam a fronteira todos os dias entre a região de Tijuana e a Califórnia. “Se eles fecharem a fronteira, eu terei de fechar, porque não terei clientes.”

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