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Premiê da Itália renuncia e país vive incerteza política

O governo da Itália desabou, mergulhando o país, já frágil economicamente, em uma turbulência política mais profunda, e desencadeando uma disputa ente o popular político de extrema-direita Matteo Salvini e seus rivais que querem mantê-lo fora do poder.
O premiê Giuseppe Conte anunciou ontem sua renúncia em um discurso ao Senado, acusando Salvini, ministro do Interior, de provocar uma crise política enquanto a Itália busca uma forma de reparar suas finanças.
Salvini, uma força política da extrema-direita insurgente da Europa, começou
a pressionar por eleições antecipadas em 8 de agosto, para explorar as pesquisas de opinião que mostram que a Liga se tornou o partido mais popular da Itália, com 36% das preferências. A Liga é o parceiro menor da coalizão liderada pelo antiestablishment Movimento 5 Estrelas (M5S) desde junho de 2018.
Dirigentes do M5S estão explorando a única alternativa plausível a eleições antecipadas que a Liga provavelmente venceria: uma nova coalizão de governo com seus antigo rival, o Partido Democrático, de centro-esquerda. Negociações nos próximos dias vão mostrar se tal coalizão é possível ou se será preciso antecipar as eleições.
Os sinais de que os democratas e o M5S se preparam para discutir um governo alternativo levaram os investidores a comprar os bônus italianos de 10 anos, reduzindo a taxa de retorno para 1,346%, de 1,441% na segunda-feira.
O prêmio de risco da dívida italiana, comparado com a dívida alemã, mais confiável, subiu no começo do mês por causa dos temores de que eleições antecipadas poderiam levar a um governo liderado por Salvini, que desafiaria a União Europeia (UE) com um déficit orçamentário mais alto.
A disputa pelo poder na Itália é um sintoma da turbulência política que persiste na Europa após uma década de crises, que incluem a depressão econômica na periferia da zona do euro e as pressões da crescente imigração.
A fidelidade dos eleitores europeus tornou-se cada vez mais volátil com a erosão da confiança pública nos partidos tradicionais conservadores e social-democratas que dominaram por décadas os governos dos países da UE. Movimentos insurgentes que vão da extrema-esquerda anticapitalista à extrema-direita nativista ganharam espaço. Entre as novas forças também há grupos ecléticos ideologicamente, como o M5S, que cresceu a partir de protestos contra a corrupção, e iniciantes centristas, como o presidente francês, Emmanuel Macron.
A turbulência política foi mais longe na Itália do que outros países da UE. Nas eleições de março de 2018, os partidos tradicionais italianos sofreram uma pesada derrota. Um em cada três italianos apoiou o M5S, enquanto a Liga conquistou 17% dos votos. Desde então o M5S tem tido dificuldades no governo e seu apoio caiu à metade, enquanto a posição dura de Salvini sobre a imigração ajudou a duplicar a popularidade da Liga.
Se a Itália antecipar as eleições, Salvini pode se tornar o primeiro líder de um país importante da UE a vir de um partido
que se descreve como populista à direita dos conservadores tradicionais da Europa. Salvini, admirador do presidente russo
Vladimir Putin, tem contestado as regras da UE sobre disciplina fiscal. Alguns dirigentes da Liga defendem a saída da Itália do euro, embora Salvini diga que isso não está em sua agenda.
Conte, um premiê sem partido, mas próximo ao M5S, atacou Salvini por minar o governo. Em 8 de agosto, Salvini disse que queria “perguntar aos italianos se eles querem me dar plenos poderes”. Alguns críticos apontaram que o líder fascista italiano Benito Mussolini usou uma frase semelhante ao exigir o poder em 1922.
“Não precisamos de pessoas com plenos poderes, mas de pessoas com uma cultura de [respeito pelas] instituições e senso de responsabilidade”, disse Conte ao Senado. Ele acusou Salvini de colocar seus interesses pessoais e partidários antes das necessidades do país e de não ter respeito pela Constituição da Itália.
“Nós somos os únicos supostos fascistas que querem uma eleição”, retrucou Salvini.
O presidente italiano, Sergio Mattarella, deve sondar os líderes partidários nos próximos dias para verificar se uma nova maioria de governo pode ser montada no Parlamento. Se não for possível, eleições antecipadas podem ocorrer no fim de outubro.
Pesquisas de opinião sugerem que a Liga poderia conquistar maioria absoluta no Parlamento junto com dois aliados menores: o Irmãos da Itália, de extrema-direita, e o conservador Forza Italia, do ex-premiê Silvio Berlusconi.
A Itália tem de apresentar até 15 de outubro seu plano orçamentário à UE – e aprovar a lei orçamentária até 2020 – que satisfaça as regras de disciplina fiscal com a redução do déficit. O governo precisa encontrar economias significativas para evitar um aumento já aprovado pelo Legislativo no imposto sobre valor agregado (IVA), que pode prejudicar o já frágil gasto de consumo.
Aprovar um orçamento que evite aumento de impostos em meio a um colapso do governo pode ser uma tarefa difícil. Conte, o M5S e os democratas da oposição acusaram Salvini de correr o risco de instaurar a incerteza financeira e até uma recessão.
Salvini reiterou que quer reduzir o imposto de renda e, se necessário, desafiar a UE. “Não tenho medo. A Liga não tem medo”, disse ele no Senado.

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