Preço de licença 5G varia de nada a bilhões

Como se calcula o preço de uma licença de espectro eletromagnético para as telecomunicações? As operadoras telefônicas chinesas as receberam de graça, como parte dos planos de Pequim para lançar a tecnologia 5G nacionalmente. Em partes da Europa, no entanto, recentes leilões envolveram preços tão altos que pelo menos uma empresa teve que reduzir a distribuição de dividendos aos acionistas. Nos Estados Unidos, onde o presidente Donald Trump, declarou que “a corrida 5G é uma corrida que os EUA precisam vencer”, as licenças de frequências têm sido vendidas pelos preços mais baixos da história.
As operadoras argumentam que a tecnologia 5G vai oferecer um serviço mais rápido e confiável para todas as demandas, desde a transmissão de vídeos até experiências de realidade virtual avançada. Governos nacionais veem a “corrida” da nova tecnologia das redes sem fio como parte essencial para abrir o caminho para um mundo de cidades inteligentes, carros autônomos e fábricas automatizadas, no qual redes mais rápidas e reativas vão ter capacidade para lidar com os volumes imensos de dados gerados por esses setores.
Para as operadoras, as licenças representam um sinal verde – acesso à infraestrutura que será crucial para seu sucesso no futuro, até mesmo para a sua existência. Para os governos nacionais, as licenças não são menos importantes, sendo que alguns, precisando arrecadar mais, têm dado pistas pouco claras sobre como se deve buscar o equilíbrio necessário, de levantar bilhões de um setor já lutando para reduzir custos e ao mesmo tempo estimular a rápida adoção dos serviços 5G.
Isso significa que, 20 anos após os leilões dos espectros 3G terem ganhado as manchetes ao levantar somas recorde e quase quebrado algumas operadoras, está surgindo um novo cenário de preços para as frequências. Ondas de rádio antes usadas para quase tudo, desde satélites acadêmicos e transmissões de TV até os microfones sem fio usados nos teatros, passaram a ser liberadas e vendidas ao setor de telecomunicações para uso comercial e para atender a demanda insaciável dos consumidores por dados.
Apesar de toda a badalação, entretanto, as operadoras encontram dificuldade para dizer se vão realmente ter algum lucro com a nova tecnologia sem fio, segundo Jay Goldberg, consultor da D2D Advisory. Muito depende de a liberação dessas frequências permitir que se obtenha o que se espera das redes 5G sem quebrar as operadoras, como quase aconteceu na época das 3G.
“O risco é que o 5G exija grandes compras de bandas que só comecem a ser lucrativas em dez anos”, diz Goldberg.
A corrida entre países como China, Coreia do Sul, Estados Unidos e Reino Unido para ser o primeiro a lançar as redes 5G fez surgir um outro tipo discussão, sobre quem vai dominar a próxima geração de telefonia móvel e ficar com a maioria dos
benefícios econômicos. A guerra comercial entre EUA e China inclui uma batalha sobre a tecnologia 5G e o papel da fabricante chinesa de equipamentos de rede Huawei no mercado mundial.
A resposta a essa pergunta vai definir não apenas o futuro desse recurso
tecnológico – considerado o “sangue vital da indústria de telefonia celular” – e das próprias operadoras de telefonia, mas também vai ter um impacto fundamental no próximo estágio de desenvolvimento da economia digital.
Em junho, a China optou por ceder, em vez de vender, as licenças de frequência às operadoras telefônicas do país. Depois, em julho, os EUA realizaram sua maior venda, alardeando um plano para leiloar até o fim do ano mais frequências do que todas as atualmente em uso pelas operadoras sem fio no país. Definiu os lances por algumas larguras de banda de frequência bem altas a um valor de um décimo de centavo de dólar por megahertz per capita, um preço entre os mais baratos já vistos no país.
Outros governos veem os espectros – ondas de rádio usadas para transmitir a telefonia sem fio e outros sinais eletromagnéticos – como uma “galinha dos ovos de ouro”. O órgão supervisor das telecomunicações na Índia acaba de propor a venda de blocos de banda 5G a um preço 40% superior ao cobrado em outros países asiáticos.
Leilões na Itália e Alemanha levantaram somas enormes. A Vodafone foi obrigada a reduzir os dividendos pela primeira vez na história depois de um leilão na Alemanha, em meio a alertas de empresas do setor de que quanto mais gastarem em licenças, menos vão ter para investir em novas antenas, servidores e estações-bases para suas redes.
Os alertas parecem ser uma ameaça levemente sutil aos políticos europeus, que querem ver uma instalação rápida das redes 5G, mas se mostram relutantes em limitar o preço das licenças. Segundo a MTN Consulting, o custo representou, em média, 11,4% dos investimentos em bens de capital do setor entre 2011 e 2018.
O debate se dá enquanto uma nova rodada de leilões está por ocorrer nos próximos meses, do Reino Unido à Índia e dos Estados Unidos à França. Os leilões vão servir para indicar as prioridades dos governos no que se refere aos planos para o 5G.
Para EUA e China, o 5G é estratégico e entrou na guerra comercial; outros países o veem como a ‘galinha dos ovos de ouro’
“Alguns países veem isso como uma forma de tributar nossa indústria, em vez de ajudar as novas tecnologias”, diz Enrique Lloves, chefe de estratégia da Telefónica, o grupo espanhol de telecomunicações. “Esse dinheiro não está voltando para a indústria e isso é uma preocupação para nós, para os consumidores e para a economia.”
Outros contestam que preços altos das licenças tenham impacto sobre os preços aos consumidores. “Não há evidências de que custos mais altos com os espectros tenham levado a preços mais altos [para os consumidores]“, diz Paul Klemperer, principal arquiteto dos leilões 3G no Reino Unido no ano 2000. “Se eu herdo uma casa de graça isso não quer dizer que, como proprietário, não vou cobrar nada de aluguel.”
Para as operadoras, o dilema é grande: se pagarem muito, podem ter dificuldade para lançar a tecnologia; se pagarem pouco, podem perder acesso às redes 5G, clientes e, potencialmente, até seu negócio.
As operadoras europeias destacam o caso da Tele2 como exemplo do que pode dar errado. A empresa não conseguiu licenças 4G quando foram vendidas na Noruega em 2013, depois de as participantes estabelecidas terem sido surpreendidas por uma nova rival, financiada pelo bilionário Len Blavatnik. A Tele2, com sede na vizinha Suécia, viu-se obrigada a sair da Noruega alguns meses depois.
O rápido crescimento da indústria sem fio nos anos 90 e a importância das frequências ajudaram a criar o sistema de leilões para distribuir as licenças. As bandas foram divididas e distribuídas em troca de quantias nominais primeiramente nos anos 80 para as então nascentes operadoras sem fio, como a BT Cellnet e Racal Electronics, a empresa do setor de defesa que deu origem à Vodafone no Reino Unido. Passados 15 anos, essas licenças tornaram-se um mercado multibilionário, em grande medida, erigido sobre o ar.
Essa abordagem, porém, foi interrompida de repente depois do ano 2000, quando o leilão 3G no Reino Unido levantou assombrosos 22,5 bilhões de libras esterlinas (US$ 27,25 bilhões) de cinco operadoras, no que representou um ponto de inflexão tanto no crescimento do setor sem fio na Europa quanto no valor das frequências. A euforia durou pouco e foi seguida por leilões decepcionantes na Itália, Holanda e Suíça.
O valor das licenças caiu rapidamente depois de as maiores operadoras europeias terem gastado demasiado para conquistar o mercado de 3G. A BT viu-se obrigada a desmembrar sua unidade sem fio depois de os leilões no Reino Unido e Alemanha terem carregado seu balanço patrimonial com muitas dívidas. No leilão de bandas 4G no Reino Unido, 13 anos depois, foram levantados apenas 2,3 bilhões de libras, o que deixou o então ministro das Finanças, George Osborne, com um déficit de 1,2 bilhão de libras nas contas públicas, já que ele havia previsto em seu orçamento uma arrecadação muito maior com as licenças.
Há várias formas de vender as licenças, como leilões de envelopes fechados, “rodadas múltiplas ascendentes” ou simples disputas diretas. O sucesso ou fracasso é determinado por um conjunto de fatores, como o número de licenças sendo ofertado, a quantidade de bandas e as condições de cada licença, como a cobertura geográfica. Esses fatores podem ser concebidos para encorajar novos participantes — com o oferecimento de mais licenças do que o número de redes existentes – ou para tolher as grandes empresas que já têm muitas licenças, por meio da imposição de restrições.
A forma como os blocos de bandas são agrupados também pode ter influência. Uma divisão em blocos similares pode reduzir a tensão competitiva. Por outro lado, blocos muitos desiguais, como no caso da Itália, podem resultar em lances frenéticos, com as operadoras lutando para não ficar com uma parte muito pequena das ondas de rádio.
Uma estruturação mal feita pode levar a distorções no mercado, com alguns participantes pagando demasiado pelas licenças ou ganhando menos do que precisam para competir. “É muito, muito difícil descobrir qual pode ser a melhor estratégia”, diz um economista especializado em leilões de banda. “Esses leilões simplesmente são muito complicados”.
Por algum tempo, isso não foi um problema. A decepção com as redes 3G foi um balde de água fria nos leilões. Em 2016 e 2017, os certames na Eslováquia, Espanha, Irlanda e República Tcheca levantaram quantias modestas. Isso mudou em 2018 com o leilão de bandas para uso em redes 5G no Reino Unido. A quantia de 1,35 bilhão de libras gasta por quatro operadora britânicas pode ter parecido baixa, mas o preço por megahertz foi o dobro do estimado pelo mercado.
Havia mais por vir. Em outubro, o governo populista da Itália levantou € 6,5 bilhões com um leilão que havia sido estruturado de forma a que apenas duas das quatro operadoras sem fio no país pudessem ganhar grandes blocos de bandas. O executivo-chefe da Vodafone, Nick Read, cuja empresa pagou € 2,4 bilhões por licenças no mercado italiano, disse que o “leilão artificial” não criou um equilíbrio justo.
O resultado repercutiu por todo o setor de telecomunicações. Executivos-chefes que já estavam sob pressão para investir em 5G e na expansão de suas redes, agora estavam precisando pagar altos preços para ganhar as licenças. O leilão na Itália teve um preço por megahertz de 0,35 euro per capita, em comparação ao 0,036 euro de um leilão na Finlândia na mesma semana.
Empresas afirmam que quanto mais gastarem em leilões, menos vão ter para investir em antenas e servidores
Em junho, a Alemanha arrecadou € 6,6 bilhões – mais do que o dobro do esperado – com um leilão de licenças 5G. Os lances foram impulsionados pela Drillisch, uma operadora sem fio de menor porte, mas também pela decisão de Berlim de separar 25% das frequências para usuários setoriais, como a indústria automotiva, que pretende usar a tecnologia mais rápida para criar métodos de produção mais avançados. Isso limitou a oferta para uso comercial para as quatro operadoras restantes.
Dirk Wössner, membro do conselho de administração da Deutsche Telekom, disse que o alto preço deixou um “gosto amargo”. “O lançamento da rede na Alemanha sofreu um contratempo significativo”, disse. “O preço poderia ter sido muito menor [...] As operadoras de rede agora carecem do dinheiro para expandir suas redes.”
Ao ser perguntado se achava que o leilão iminente no Reino Unido poderia ser se tornar mais uma disputa de lances frenéticos, o executivo-chefe da BT, Philip Jansen, disse “realmente” esperar que não. “Isso não ajuda ninguém”, acrescentou.
Se os resultados dos leilões vão se mostrar um “pesadelo” para a Alemanha e a Itália é algo que ainda não está claro – a tecnologia 5G ainda tem um longo caminho pela frente para decolar como serviço de uso generalizado. O debate sobre a melhor forma de distribuir as licenças, contudo, está dominando até os países que tentam ganhar a corrida cedendo-as da forma mais rápida possível.
Jessica Rosenworcel, comissária da Comissão Federal de Comunicações (FCC), que gerencia os leilões de bandas nos Estados Unidos, defende a necessidade de novos participantes no mercado.
“Os recentes leilões de espectro nos EUA não atraíram os níveis de demanda que víamos no passado”, disse Rosenworcel. “Precisamos entender por quê. Deveríamos reconhecer que o sucesso de nossos leilões futuros depende do desenvolvimento de uma nova classe de interesses em espectros, que possa juntar-se às fileiras dos que fazem lances por ondas de rádio e alimentam a inovação sem fio.”
As licenças de frequências nem sempre foram vistas como uma possível fonte de lucro para os governos. Ronald Coase, prêmio Nobel, foi o primeiro defender a venda das ondas de rádio em 1959, mas de início sua proposta foi atacada como sendo receita certa para uma “bagunça etérea”. As frequências de rádio, portanto, continuaram sob controle rigoroso dos governos até 1990, quando a Nova Zelândia se tornou o primeiro país a realizar um leilão de licenças.
Isso abriu caminho para o primeiro leilão nos Estados Unidos em julho de 1994. Esse processo de cinco dias gerou lances de US$ 617 milhões e acabo sendo um marco na história das telecomunicações, que viria a ter 87 leilões com US$ 60 bilhões arrecadados nos 20 anos seguintes. Os economistas por trás do leilão de 1994 posteriormente ganhariam o prêmio Golden Goose, da Harvard University, por terem usado a teoria dos jogos para liberar os EUA do “purgatório sem fio”.
Um leilão 3G do Reino Unido, seis anos depois, marcou um novo recorde, com 13 participantes batalhando ferozmente por uma das cinco licenças para lançar uma rede 3G.
O Reino Unido foi o primeiro país a realizar um leilão 3G em uma época em que as empresas de telefonia, cheias de dinheiro, estavam empenhadas em uma guerra para ganhar território.
Foi tão bem-sucedido porque conseguiu o equilíbrio certo, atraindo novos participantes e impedindo o conluio entre os nomes já atuantes, algo que se tornou um modelo a seguir.
Elaborar leilões demasiado complexos, por outro lado, pode gerar resultados decepcionantes, com os participantes ficando impedidos de participar ou incertos sobre qual a melhor estratégia a adotar. (Tradução de Sabino Ahumada)

https://www.valor.com.br/empresas/6380631/preco-de-licenca-5g-varia-de-nada-bilhoes#

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