Petróleo em alta atinge economias emergentes

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Os preços do petróleo costumam subir nos momentos mais inconvenientes. Como em 2007, por exemplo, quando o preço do barril alcançou os três dígitos, desestabilizando uma economia mundial que já caminhava para uma crise financeira. Ou como vem ocorrendo neste instante. A mais de US$ 80 o barril, o Brent custa quase duas vezes mais do que no meio do ano passado e atingiu um valor três vezes maior do que o registrado no início de 2016. O petróleo caro ainda não significa uma crise. Mas está colocando os mercados emergentes, já em dificuldade, sob pressão.
O fato de o petróleo mais uma vez ser causa de problemas não surpreende muito. Há uma década e meia sua cotação de US$ 100 o barril parecia ter vindo para ficar. Mas, em 2014, os preços caíram com o boom do xisto nos Estados Unidos que virou do avesso o mercado. O mundo rapidamente aceitou a ideia de uma “nova normalidade” no caso do petróleo, em que a produção de xisto flexível e em grande escala nos Estados Unidos prometia manter os preços estáveis e moderados. Os americanos tiveram a oportunidade de trocar seus carros Prius pelos SUVs bebedores de gasolina antes de o mercado sofrer outra reviravolta. Nem todos os choques petrolíferos são os mesmos.
Quando o crescimento global robusto impulsiona a demanda por petróleo e provoca uma alta dos preços, o efeito sobre a economia mundial é amplamente benigno. Neste caso, o preço mais alto do petróleo nos países que precisam importar é compensado, até certo ponto, pela demanda aumentada das exportações. Pelo contrário, um aumento resultante de uma interrupção da oferta é mais preocupante. Os preços mais altos em meados do ano 2000 foram claramente resultado do aumento da demanda. Muitas economias suportaram os custos crescentes razoavelmente bem até que houve uma queda vertiginosa em 2007.
Mas a causa da atual disparada dos preços é mais nebulosa. 
O crescimento da demanda é um fator. O consumo de petróleo nos países avançados aumentou à medida que a depressão pós-crise retrocedeu e os preços mais baixos atenuaram o incentivo para poupar energia. Mas o crescimento global deve desacelerar em 2019, segundo previsões da OCDE. O crescimento na China, que aumentou a demanda nos anos 2000, vem perdendo fôlego, o que significa menos consumo de energia.
Por outro lado, as limitações da oferta são mais preocupantes. Crises políticas e econômicas corroeram a capacidade produtiva da Venezuela. E os preços subiram em antecipação às sanções mais rígidas contra o Irã prometidas pelos EUA e que devem entrar em vigor em novembro. Numa recente reunião os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e outros grandes exportadores de petróleo como a Rússia, decidiram não responder aos preços crescentes do produto aumentando a oferta. 
No passado, os preços em elevação ameaçavam a economia global porque restringiam os orçamentos das famílias e reduziam assim os gastos em países acostumados ao consumo de petróleo, como os EUA. Mas outras economias estão menos cobertas. Os grandes mercados emergentes mais em risco representam uma parcela bem maior do PIB global do que no passado. Para as economias importadoras de petróleo nos países emergentes, a natureza e o momento da atual disparada dos preços são preocupantes.
Mais caro. Quando o petróleo fica mais caro, no caso das economias importadoras as condições deterioram: o preço das suas importações sobe em relação ao das exportações. Por causa disso, os déficits de conta corrente aumentam. Num momento mais propício isso não seria motivo de preocupação. A taxa de câmbio para os importadores depreciaria facilitando um ajuste: eles comprariam um pouco menos do que antes do resto do mundo e venderiam um pouco mais. Os déficits de conta corrente seriam mais fáceis de financiar por causa da disposição daqueles investidores mais otimistas para emprestar para países emergentes que vêm crescendo rapidamente.
O crescimento do comércio mundial vem desacelerando, As encomendas para as fábricas que exportam contraíram no semestre passado. À medida que o comércio mundial perde fôlego, o ajuste que precisa ser feito pelos importadores de petróleo para enfrentar os preços mais altos do produto fica mais severo. 
O déficit de conta corrente da Índia continua a crescer, por exemplo, mesmo com a rupia alcançando níveis recorde de desvalorização ante o dólar. A perda de valor das moedas exacerba o peso da dívida em dólar. Nos últimos anos, empresas em mercados emergentes tomaram muito dinheiro emprestado atraídas pelos juros baixos. Para companhias que ganham na sua moeda doméstica, mas tem uma dívida em dólar, as desvalorizações que facilitam o ajuste aos preços mais altos do petróleo resultam em aperto financeiro. As empresas devedoras reduzem seus investimentos e as contratações, ou ficam inadimplentes. 
Infelizmente, os preços do petróleo vêm subindo enquanto as condições financeiras globais se tornam menos clementes. Os bancos centrais de países ricos, em alerta aos sinais de uma aceleração da inflação, vêm adotando políticas monetárias mais rígidas. Quando o Federal Reserve americano elevou sua taxa básica de juros em mais de 25 pontos, para o intervalo entre 2% e 2,25%, em 26 de setembro, ele reiterou que novos aumentos estavam a caminho. E os juros mais altos nos Estados Unidos agem como um ímã atraindo o capital global, encarecendo o dólar e absorvendo o dinheiro que antes buscava grandes retornos em mercados emergentes. 

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