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Incerteza sobre o Brexit deixa empresas aflitas

Empresas do Reino Unido estão aflitas com o risco de o país sair da União Europeia (UE) sem um acordo, já que o governo britânico está enfraquecido e as negociações do Brexit no Parlamento devem ser postergadas para o ano que vem.
O atraso na votação do Brexit implica as empresas estão fazendo seus planos com ainda menos segurança que o normal, segundo David Kershaw, CEO da agência de publicidade M&C Saatchi. Ele disse que, com um leque enorme de resultados políticos possíveis, as empresas foram abandonadas e “se perguntam que tipo de Brexit existirá, se existirá”, enquanto elaboram orçamentos para 2019.
Desde que os britânicos chocaram o mundo ao votar a favor de deixar a UE, em 2016, empresas como a Airbus e a Jaguar Land Rover têm cobrado clareza na futura relação do Reino Unido com o bloco.
Muitas empresas apoiaram o plano da premiê Theresa May, e ela usou esse apoio para tentar persuadir os parlamentares de que esse acordo é o que mais protege a economia. Esse discurso fracassou e na segunda-feira – há menos de quatro meses do Brexit – ela adiou a votação sobre o acordo no Parlamento, temendo uma derrota.
Não foi definida outra data para a votação de seu plano para o Brexit, mas May indicou que irá votá-lo antes de 21 de janeiro.
Josh Hardie, vice-diretor-geral da Confederação da Indústria Britânica, disse que esse atraso já é demasiado para algumas empresas tomarem as decisões necessárias para se proteger, forçando-as a acelerar planos e possivelmente a desperdiçar dinheiro e recursos.
“Quanto mais se desperdiçar tempo, mais investimentos serão perdidos para o Reino Unido”, disse Hardie. “Se não houver solução no ano novo, isso será a última gota para que empresas implementem seus planos de contingência.”
Empresas de vários setores – do farmacêutico ao varejo e à indústria – já começaram a estocar insumos para evitar atrasos no comércio, se o Reino Unido sair da UE de forma desordenada. O atraso viria das controles alfandegárias que teriam de ser reinstaurados, já que o hoje o comércio entre o país e a UE é livre de barreiras.
A fabricante de motores para aviões Rolls-Royce informou que está estocando peças para a eventualidade de controles alfandegários que possam retardar as entregas de componentes.
O governo disse a supermercados que mantenham o máximo de estoque possível em armazéns pelo país, levando gigantes do varejo como Tesco, J. Sainsbury e Walmart a pedirem a fornecedores que reforcem a produção, pelo receio de que suas prateleiras fiquem meio vazias se não houver acordo.
Empresas de mídia também estão se prevenindo. A NBC Universal International Networks, da Comcast, recentemente solicitou licença para seis canais internacionais na Alemanha. A americana Discovery está se preparando para transferir operações para a Holanda, no caso de um Brexit sem acordo. Elas precisam operar na UE para poder transmitir no bloco.
O Manchester Airports Group (MAG) disse que vai custear requerimentos de trabalhadores europeus para permanecer no Reino Unido depois do Brexit. O aeroporto de Heathrow, em Londres, fará o mesmo. O MAG, proprietário do terminal de Stansted e do hub de Manchester, no norte da Inglaterra, informou que cobrirá o custo de 65 libras (US$ 81) da papelada “para dar tranquilidade e conforto aos estimados colegas”. A empresa emprega mais de 400 pessoas nascidas nos 27 países da UE.
Para muitas empresas, mudanças de equipe estão entre as últimas decisões a serem tomadas, por causa de seu custo e de seu impacto nas vidas das pessoas. Mas mesmo esses planos estão começando a ser executados.
“Os clientes estão avaliando de quais transferências de pessoal podem precisar para se apressar no ano novo, se não tivermos clareza logo”, disse Caron Pope, advogada de imigração na Fragomen. “É uma tarefa dispendiosa, que custa muito dinheiro, por isso as empresas vão relutar em fazer algo que possam evitar, mas, claro, elas só podem esperar até um certo ponto.”
Os acontecimentos dramáticos dos últimos dias também forçaram outros membros da UE a prestar atenção em possíveis efeitos colaterais de uma saída desastrosa do Reino Unido, que tem a segunda maior economia da Europa.
Com muitas empresas britânicas que dependem de fornecedores no bloco para aumentar estoques, é importante que os fabricantes da UE estejam alertas para os problemas, segundo Tim Sarson, sócio da KPMG.
“A cobertura da imprensa tem significado que a ficha caiu para as pessoas de fora do Reino Unido”, disse Sarson. “De repente, isso está chegando às manchetes, superando Trump e os coletes amarelos [da França], e forçando os fornecedores da UE a levar a situação a sério.”

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