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Google segue o internauta, mesmo que ele não queira

O Google tem tanta vontade de saber aonde você vai, que registra seus deslocamentos mesmo quando você diz explicitamente à empresa para que não o faça.
Uma investigação da “Associated Press” concluiu que muitos serviços do Google em aparelhos com sistema Android e iPhones registram os dados de sua localização mesmo se você optar por uma configuração de privacidade que impeça o Google de fazê-lo. Pesquisadores da área de ciência da computação da Universidade de Princeton confirmaram essas conclusões.
Na maioria das vezes, o Google é bastante claro sobre pedir permissão para
usar suas informações de localização. Um aplicativo como o Google Maps vai
lembra-lo de autorizar o acesso à sua localização se você usa-lo para navegar. Se concordar que o aplicativo registre sua localização ao longo do tempo, o Google Maps exibirá esse histórico em uma “linha do tempo”, que mapeia seus deslocamentos diários.
O armazenamento de suas movimentações minuto a minuto traz riscos de privacidade e já foi usado para determinar a localização de suspeitos – como quando a polícia em Raleigh, Carolina do Norte, enviou ao Google um mandado, em 2017, para que a empresa localizasse aparelhos próximos à cena de um crime.
A empresa permite que você “pause” essa função na configuração chamada “histórico de localização”. O Google sustenta que isso impede a empresa de lembrar onde você esteve.
A página de “ajuda” do Google sobre o assunto afirma: “Você pode desligar o ‘histórico de localização’ a qualquer momento. Com o ‘histórico de localização’ desligado, os lugares aonde você vai não são mais armazenados.”
Isso não é verdade. Mesmo com o “histórico de localização” pausado, alguns aplicativos do Google armazenam automaticamente dados sobre local e horário sem pedir sua autorização.
Por exemplo, o Google armazena um registro instantâneo de sua localização quando você simplesmente abre seu aplicativo Google Maps. Atualizações automáticas diárias com informações sobre o clima nos telefones Android, do Google, também indicam sua localização aproximada. Além disso, algumas buscas que não tem nada a ver com a localização, como “bolachas com gotas de chocolate” ou “kits de ciência para crianças”, apontam com precisão sua latitude e longitude e as salvam em sua conta no Google.
Esse problema de privacidade afeta os cerca de 2 bilhões de usuários do Android e centenas de milhões de donos de iPhone que usam o serviço de mapas e o de buscas do Google pelo mundo.
Armazenar dados de localização contrariando a vontade dos usuários é errado, disse Jonathan Mayer, cientista da computação em Princeton e ex-diretor de tecnologia do departamento de aplicação das normas da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Um pesquisador do laboratório de Mayer confirmou as descobertas da “AP” em vários aparelhos Android; a “AP” realizou seus próprios testes em vários iPhones.
“Se você permite que os usuários desliguem algo que é chamado ‘histórico de localização’”, então tudo o que guarda o histórico de localização deveria ser desativado”, disse Mayer. “Essa parece ser uma posição bem simples de se ter.”
Armazenar o histórico de movimentações traz riscos à privacidade e já foi usado para localizar suspeitos de crimes
O Google sustenta que está sendo perfeitamente claro. “Há várias formas diferentes pelas quais o Google pode usar a localização para melhorar a experiência das pessoas, incluindo: histórico de localização, atividade na web e nos aplicativos, e serviços de localização do aparelho”, segundo comunicado de um porta-voz do Google enviado à “AP”. “Fornecemos descrições claras dessas ferramentas e controles sólidos para que as pessoas possam ligá-los ou desligá-los e apagar seus históricos a qualquer momento.”
Para impedir que o Google salve esses indicadores de localização, os usuários podem usar outra configuração para encerrar a prática, mas que não se refere especificamente a informações sobre a localização. A configuração, chamada “atividade na web e nos aplicativos” já vem ativada como padrão e armazena em sua conta do Google várias informações sobre os sites e aplicativos do Google.
Quando pausada, isso evita que as atividades em quaisquer aparelhos sejam guardadas em sua conta. Deixar o “atividade na web e nos aplicativos” ligado e o “histórico de localização” desligado, no entanto, apenas impede que o Google adicione seus deslocamentos à “linha de tempo”, como é chamada a visualização de suas movimentações diárias. Não impede o recolhimento de outros marcadores de localização do Google.
Você pode apagar esses marcadores manualmente, mas esse é um processo trabalhoso, já que é preciso selecioná-los individualmente, a menos que se queira apagar toda sua atividade armazenada.
É possível ver esses indicadores armazenados em sua conta no Google na página myactivity.google.com, embora eles normalmente estejam sob vários cabeçalhos diferentes, muitos dos quais não relacionados à localização.
Para demonstrar o grau de alcance desses outros indicadores, a “AP” criou um mapa visual dos deslocamentos de Gunes Acar, pesquisador de pós-doutorado em Princeton, que levou um telefone Android com o “histórico de localização” desativado e compartilhou os registros de sua conta no Google.
O mapa permite ver o trajeto de trem de Acar em duas viagens a Nova York e visitas a lugares como o parque suspenso High Line, o complexo Chelsea Market, o Central Park, e os bairros Hell’s Kitchen e Harlem. Para proteger a privacidade do pesquisador, a “AP” não mostrou o indicador de localização mais revelador e frequente – o endereço da casa do usuário.
As gigantes da internet estão cada vez mais sob os holofotes públicos quanto à forma como cuidam dos dados dos usuários, depois da série de escândalos de privacidade no Facebook e das novas regras sobre sigilo de dados adotadas recentemente pela União Europeia.
Em 2017, o site de notícias de negócios “Quartz” descobriu que o Google estava rastreando os usuários de Android, ao recolher os endereços das torres de antenas de telefones celulares das redondezas, mesmo quando todos os serviços de localização estavam desativados. O Google mudou essa prática e reiterou que, de qualquer forma, nunca salvava esses dados.
Críticos dizem que a insistência do Google em rastrear a localização de seus usuários é uma decorrência de seu empenho em aumentar a receita com anúncios.
“Eles produzem informações para uso em publicidade a partir dos dados”, disse Peter Lenz, analista sênior geoespacial da Dstillery, uma empresa rival de tecnologia de anúncios. “Para eles, mais dados presumivelmente significam mais lucros.”
Críticos dizem que insistência do Google em rastrear localização decorre do empenho em vender mais anúncios
A “AP” tomou conhecimento do assunto por meio de K. Shankari, uma pesquisadora de pós-graduação da Universidade da Califórnia em Berkeley, que estuda os padrões de deslocamentos de voluntários entre suas casas e o trabalho para ajudar no planejamento urbano. Ela percebeu que seu telefone Android lhe pedia para classificar uma visita de compras à rede varejista de roupas Kohl’s, apesar de ela ter desligado seu “histórico de localização”.
”Então, como o Google Maps soube onde eu estava?”, perguntou em comentário em um blog.
A “AP” não conseguiu recriar exatamente o caso de Shankari, mas as tentativas de fazê-lo revelaram o rastreamento dos deslocamentos pelo Google. As conclusões chocaram a pesquisadora.
“Não me oponho, em princípio, ao rastreamento da localização em segundo plano”, disse. “O que realmente me incomoda é que isso não seja avisado explicitamente.”
O Google oferece uma descrição mais precisa de como o “histórico de localização” realmente funciona apenas quando você o desliga – uma janela do tipo “pop-up” aparece quando você “pausa” o “histórico de localização” na página de sua conta no Google. Na janela, a companhia destaca que “alguns dados de localização podem ser salvos como parte de sua atividade em outros serviços do Google, como os de busca e mapas”.
O Google dá mais informações em outra janela “pop-up” que aparece quando você reativa a configuração “atividade na web e nos aplicativos” – uma ação pouco comum para muitos usuários, já que ela vem ativada na pré-configuração. A janela informa que, quando ativada, a configuração “salva as coisas que você faz em sites, aplicativos e serviços do Google [...] e informações associadas, como a localização.”
Alertas de quando você está para desligar o “histórico de localização” nas configurações dos aparelhos iPhone e Android são mais difíceis de interpretar. No Android, a janela explica que os “lugares aonde você vai com seus aparelhos vão deixar de ser adicionados a seu mapa de ‘histórico de localização’”. No iPhone, simplesmente se lê “nenhum de seus aplicativos do Google vai ser capaz de armazenar dados de localização em seu ‘histórico de localização’”.
O texto no iPhone é tecnicamente verdadeiro, ainda que possa induzir ao erro. Com o “histórico de localização” desligado, o Google Maps e outros aplicativos armazenam suas localizações na seção de sua conta chamada “minha atividade”, não no “histórico de localização”.
Desde 2014, o Google deixa os anunciantes acompanharem a eficácia de suas propagandas on-line sob uma função que permite medir as visitas em suas lojas físicas, algo que, segundo o Google, depende dos históricos de localização dos usuários.
A companhia vem apostando mais fichas nessa frente para impulsionar a receita com publicidade, que aumentou 20% em 2017, somando US$ 95,4 bilhões.
Em julho, no encontro Google Marketing Live, executivos da companhia lançaram uma nova ferramenta chamada “campanhas locais”, que usa os anúncios de forma dinâmica para aumentar as visitas presenciais às lojas.
A empresa sustenta que pode mensurar qual foi o sucesso de uma campanha em atrair tráfego presencial a partir dos dados dos usuários do Google nos históricos de localização.
O Google também informa que os registros de localização armazenados em “minha atividade” são usados nos anúncios direcionados. As empresas podem direcionar anúncios para áreas geográficas específicas – por exemplo, um raio de 1,5 quilômetro em torno de algum ponto referencial em particular – e pagar um adicional para atingir essa audiência mais bem definida.
Desativar o “atividade na web e nos aplicativos” impede o Google de armazenar os indicadores de localização, mas também vai impedi-lo de armazenar as informações geradas por buscas e outras atividades. Isso pode limitar a eficácia do Google Assistant, o assistente pessoal da empresa.
Sean O’Brien, pesquisador do Laboratório de Privacidade de Yale, com quem a “AP” compartilhou suas descobertas, considerou “dissimulado” o fato de o Google salvar continuamente essas localizações mesmo quando os usuários desativam o “histórico de localização”. “Para mim, é algo que as pessoas deveriam saber”, disse O’Brien.

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