EUA empregam seu poder econômico para isolar o Irã

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Ao mesmo tempo em que líderes europeus preparavam suas reivindicações para serem isentados das sanções impostas por Donald Trump contra o Irã, assessores advertiam sobre o crescente receio das companhias multinacionais de fazer negócios com a República Islâmica.
Os EUA ofereceram prazos de 90 a 180 dias antes de impor novas restrições às empresas que tiverem negócios com o Irã. Mas Steven Mnuchin, o secretário do Tesouro dos EUA alertou que apesar dos prazos de carência e isenções dadas, o objetivo dos EUA é impor “sanções máximas” ao Irã.
Andrew Peek, vice-secretário adjunto para assuntos relacionados com o Oriente Próximo, disse ontem que os europeus haviam acatado pedidos anteriores dos EUA para aplicação de sanções contra o Irã – e que ele espera o mesmo desta vez, como mostrou artigo do Financial Times , publicado pelo Valor em 10/05.
Grandes bancos se mostravam relutantes em se envolver com o Irã antes mesmo da decisão da Casa Branca de deixar o acordo nuclear, dadas as nefastas consequências, para uma empresa financeira, de entrar em conflito com as restrições do Tesouro americano.
Especialistas enfatizaram que a eficácia das sanções dos EUA é muito mais difícil de prever do que sob o regime anterior ao Plano de Ação Abrangente Coletivo (JCPOA, em inglês) ter sido firmado em 2015, porque os americanos estão agindo unilateralmente, e não mediante um esforço internacional. Empresas chinesas, em especial, poderão considerar baixa a ameaça de serem impactadas pelo poderio repressivo americano.
Mas Suzanne Maloney, pesquisadora do Brookings Center for Middle East Policy, disse que os riscos para as grandes empresas ocidentais se tornarão agudos. “O problema para os europeus é que suas economias são extremamente entrelaçadas com a americana.”
“Até mesmo as empresas que poderiam comprar petróleo de forma independente têm alguma exposição ao mercado americano. Assim, mesmo que haja um mecanismo de bloqueio para ajudar a proteger as empresas europeias, se você é uma grande empresa internacional, não vai desejar antagonizar o Tesouro dos EUA”.
Uma ex-autoridade do Tesouro americano prevê que os governos não conseguirão convencer um banco ou uma empresa europeia a continuar fazendo negócios com o Irã, devido aos riscos de serem desconectados do sistema financeiro dos EUA. “Veremos superconformidade, lembrando bastante o que ocorreu nos últimos anos. Isso vale para os europeus, para o Japão e para a Coreia do Sul. O único ponto de interrogação é a China e, talvez, a Rússia”, disse.
Em conversas reservadas, executivos europeus admitiram que será difícil para uma empresa multinacional com negócios e laços financeiros com os EUA permanecer ativa no Irã. Eles citaram a multa de US$ 9 bilhões imposta ao banco francês BNP Paribas em 2014, por violar sanções contra o Irã, Cuba e Sudão, como prova do risco.
“O impacto inicial disso será, essencialmente, congelar o comércio com o Irã”, disse um executivo do setor de petróleo. “Somos todos financiados por bancos europeus que não fornecerão nenhum financiamento para negócios com o Irã, mesmo se quiséssemos.”
Autoridades governamentais europeias estão acalentando esperanças de que possam negociar um nicho permissivo para
certas empresas com negócios no Irã. A UE também vem estudando a retomada de instrumentos para compensar as sanções, criadas em resposta às medidas dos EUA contra o Irã, Líbia e Cuba nos anos 90. Mas os diplomatas dizem que sua eficácia nunca foi totalmente testada – e que seu impacto provavelmente será ainda mais fraco agora, dada a crescente interação dos sistemas financeiro e repressivo americano com as empresas europeias.
Outra opção que está sendo explorada é disponibilizar linhas de financiamento não denominadas em dólares para bancar empresas europeias no Irã, como o contrato de crédito de € 5 bilhões assinado entre Roma e Teerã em janeiro, para ajudar empresas italianas. Diplomatas e técnicos de contingência europeus identificaram o Banco Europeu de Investimentos como uma possível fonte de financiamento, mas diversos obstáculos precisariam ser superados para que o banco se envolvesse.
Algumas autoridades da UE já se conformaram com o fato de que as empresas europeias sofrerão consequências econômicas da decisão de Trump. “Estou descobrindo a cada dia quanta dor a Europa poderá suportar devido a seu parceiro americano”, disse uma autoridade europeia. “A questão é: quanto mais podemos suportar?”.
A principal ameaça com que se defrontam as empresas é de serem atingidas pelas sanções secundárias, que penalizam empresas e indivíduos não americanos que negociam com regimes alvo dos EUA. Essas sanções não têm sido usadas com frequência, mas são uma ferramenta política poderosa. Elas podem ser usadas para restringir o acesso de uma empresa ao sistema financeiro, mercados de capitais, compras governamentais e financiamento de crédito para exportações dos EUA.

http://www.valor.com.br/internacional/5515459/eua-empregam-seu-poder-economico-para-isolar-o-ira#

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