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Estamos vendo nascer o Tea Party democrata

As primárias do Partido Democrata terão o maior número de candidatos em 40 anos, com pelo menos 24 nomes confirmados. Entre líderes históricos, como Joe Biden, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, há também novatos, como o prefeito Pete Buttigieg e Beto O’Rourke. Em entrevista ao Estado, o historiador Geoffrey Kabaservice diz que o número de concorrentes é alto porque há chance de vitória. 
O que vai definir as primárias democratas?
A grande novidade é a ascensão de um movimento coeso e forte de uma esquerda mais radical, ligada a políticas identitárias e ao conceito de justiça social. Esse movimento se consolidou, inclusive com a criação de uma espécie de comitê central para fomentar candidaturas de jovens contrários ao establishment do partido.
Exatamente. AOC (como é chamada nos EUA) se tornou o rosto deste movimento. Mas não se restringe a ela. Grupos que são escritórios políticos de jovens e inspirados por Sanders, reúnem diversos pequenos doadores. Eles querem não apenas candidatos progressistas, mas jovens, com diversidade e oriundos da classe trabalhadora, em vez de políticos típicos.
Como este movimento vai afetar a corrida democrata?
Eles são barulhentos. Sabem usar as redes sociais e defendem políticas públicas que beiram o populismo. Assim como o Tea Party, no Partido Republicano, eles forçarão os candidatos centristas a modular o discurso para agradar esses eleitores radicais. Isso representa um risco, porque pode afetar o candidato na eleição nacional.
Mas Trump venceu com um discurso agressivo, não?
Claro, mas era um discurso que agradava à maioria dos eleitores por suas promessas econômicas e a ação que teve em Estados afetados pela desindustrialização e pela imigração. No caso dos democratas, há pautas que agradam muitos eleitores, como o combate à desigualdade, mas há temas espinhosos, como aborto, igualdade de gêneros e políticas identitárias. O que estamos vendo é uma lenta virada à esquerda do Partido Democrata. A dúvida é se esse movimento terá o caráter do Tea Party, com sua rigidez ideológica e incapacidade de negociar, ou se será pragmático. 
É possível um radical vencer?
Não acho que seja o caso. Como republicano, espero que não. Esse discurso tóxico faz mal para a política americana. Esse aliás vai ser o foco de Trump: o Partido Democrata está tomado por “socialistas” e os americanos precisam repelir o “perigo comunista”. 
Pode dar certo?
Acho difícil. Nas eleições de meio de mandato, quase todos os democratas que derrotaram republicanos moderados eram também moderados. Poucos apoiam a agenda socialista de Sanders. E o fato de Biden liderar as pesquisas é sinal de que ele é um nome que ainda une o partido. 
Em longo prazo, esse movimento pode ter êxito?
O Tea Party empurrou os republicanos para o populismo e derrubou a antiga liderança do partido, mas não atingiu muitos dos seus objetivos, como a diminuição do Estado e a destruição do Obamacare. A radicalização ocorreu, mas não se consolidou. Tende a acontecer o mesmo no Partido Democrata.
 
Quem será o candidato democrata?
Se tivesse que apostar, colocaria minhas fichas em Biden ou Elizabeth Warren. Se alguém corre por fora é Kamala Harris, que tem carisma e ótimo discurso. Fora desses, não apostaria em ninguém.

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