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Empresas japonesas já tiram produção da China

Companhias temem perder acesso ao mercado americano, por causa da guerra comercial entre EUA e China, e buscam realocar a produção em outros países
Da Nintendo à Uniqlo, as empresas japonesas há muito estabeleceram uma cadeia de fornecimento centrada na China, com muitos de seus produtos acabados exportados para os EUA.
Mas agora, em meio à perspectiva de uma prolongada guerra comercial entre os EUA e a China, muitas dessas companhias se encontram numa encruzilhada. Elas já vêm enfrentando um grande aumento nos salários dos trabalhadores chineses e, com a guerra comercial, ao menos um quarto das empresas japonesas está considerando a possibilidade de reduzir sua presença na China, revela uma pesquisa do “Nikkei”.
Os resultados da pesquisa indicam que um percentual significativo de empresas japonesas está se preparando para reestruturar as cadeias globais de fornecimento que construíram ao longo dos anos, em antecipação à ampliação da disputa entre as duas superpotências.
A pesquisa entrevistou um mil gerentes de fábricas e executivos de alto escalão de companhias japonesas com negócios na China. Cerca de 23% dos participantes disseram que deverão reduzir seus negócios chineses em meio à intensificação da disputa comercial entre os EUA e a China.
Enquanto isso, 60,4% dos participantes disseram que vão esperar para ver a evolução da disputa comercial, mantendo enquanto isso a atual situação.
Uma análise mais profunda do grupo “esperar para ver” mostra que os participantes se dividem principalmente em dois: aqueles que já sentem que a China está perdendo sua vantagem competitiva de “fábrica do mundo” e por isso não farão novos investimentos; e aqueles que ainda acreditam que a população de 1,4 bilhão de habitantes do país oferece um mercado grande demais para ser ignorado.
O governo do presidente Donald Trump começou a impor gradualmente tarifas punitivas de importação sobre os produtos chineses em 2018, intensificando a disputa comercial. No mês passado, os EUA aplicaram a quarta rodada de tarifas contra a China, sobre produtos que vão de fotocopiadoras a relógios inteligentes.
A pesquisa do o “Nikkei” e o Japan Center for Economic Research foi conduzida no começo de setembro após a entrada em vigor da quarta rodada de tarifas.
“Os participantes estão adotando a postura do esperar para ver, provavelmente por acreditarem que a disputa entre os EUA e a China será uma batalha prolongada”, disse Asei Ito, professor associado da Universidade e Tóquio.
A gigante dos videogames Nintendo é um bom exemplo de empresa japonesa que depende da produção chinesa para o mercado americano. Ela terceirizou sua produção de consoles de jogos vendidos nos EUA para a maior fabricante de dispositivos eletrônicos do mundo, a Foxconn. A empresa sediada em Taiwan possui uma grande base de produção na China.
Segundo uma pesquisa feita em 2018 pela Japan External Trade Organization (Jetro), 40% dos fabricantes japoneses na China dependem das exportações da China para mais da metade de suas vendas. Os EUA foram o segundo destino mais importante das exportações, perdendo só para o Japão, uma indicação de que a China se tornou uma base para as exportações para os EUA.
Mas se as tensões comerciais persistirem por muito tempo, a separação das economias americana e chinesa vai se acelerar e a rede de fornecimento entre os dois países será destruída.
Em julho, a Ricoh, empresa eletrônica e de equipamentos de processamento de imagens, transferiu da China para Taiwan a produção de fotocopiadoras destinadas ao mercado americano. A fabricante de produtos cerâmicos e eletrônicos Kyocera está transferindo sua produção da China para o Vietnã. A Fast Retailing, operadora da rede de lojas de roupas Uniqlo, vai transferir a produção da China para o Vietnã e outros países do Sudeste Asiático, antecipando-se ao risco de uma prolongada disputa comercial entre os EUA e a China.
Enquanto isso, empresa japonesas continuam produzindo na China os produtos que são destinados para aquele mercado. A separação de bases de produção para o mercado chinês de outros mercados está se tornando mais comum.
Estimulando essa mudança está a crescente avaliação de que é improvável uma redução das tensões entre EUA e China no curto prazo.
Em resposta a uma pergunta da pesquisa sobre a duração da disputa, 51,3% dos participantes disseram que ela deverá se arrastar por um longo período (mais de dez anos), ante 25,8% que acreditam que ela terá uma duração média (cerca de cinco anos) e 10,8% que acreditam que ela terá uma curta duração (de um a três anos).
As empresas japonesas não são as únicas afetadas pelo conflito comercial. Nuvens negras também pairam sobre a Foxconn, de Taiwan, que faz na China os iPhones da Apple para os EUA.
Sobre os desafios para a economia chinesa, 44,8% das empresas japonesas citaram a “possibilidade de uma desaceleração econômica brusca” e 48,6% veem risco de um estouro da bolha imobiliária.

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2019/10/07/empresas-japonesas-ja-tiram-producao-da-china.ghtml

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