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Empresas aguardam o Brexit com estoque recorde

Durante 46 anos, as empresas manufatureiras britânicas construíram suas cadeias de fornecimento e mercados de exportação em torno do livre comércio com a Europa. Dentro de dias ou semanas, isso poderá acabar, rompendo uma das mais avançadas linhas de montagem do mundo.
Ao se preparar para um divórcio cujos termos são incertos, as companhias estão acumulando produtos em números raramente vistos fora de uma guerra. Fabricantes de biscoitos, produtores de metal e do Airbus estão estocando ingredientes, matérias-primas, peças de automóveis e aviões.
Somente em março, as empresas estocaram matérias-primas e componentes no ritmo mais acelerado do que o de qualquer outra nação industrializada, segundo pesquisa da IHS Markit, publicada desde 1992. Os estoques de produtos acabados também aumentaram no ritmo mais acelerado já registrado no Reino Unido.
As companhias industriais no Reino Unido estão particularmente vulneráveis pois importam muitos componentes da Europa, que entram na fabricação de seus produtos, e portanto seriam duplamente atingidas por novas tarifas, atrasos na alfândega e burocracia.
Governos dos dois lados do Canal da Mancha alertam que uma saída sem acordo poderia resultar em caos nas fronteiras, inspeções intrusivas de cargas e tarifas exorbitantes entre o Reino Unido e a zona do euro. As empresas estão tentando se preparar para isso.
A Stannah Group, que há 150 anos fabrica equipamentos como cadeiras-elevadores e elevadores em Hampshire, no sul da Inglaterra, tem 500 mil libras (US$ 600 mil) em estoque, incluindo 750 cadeiras-elevadores. Normalmente, a empresa mantém 100 em estoque. Ela transformou seu espaço de treinamentos em armazém.
A Airbus, que produz a maior parte de suas asas no Reino Unido, ordenou aos fornecedores que mantenham estoques para pelo menos um mês, como medida de proteção contra eventuais interrupções no fornecimento decorrentes do Brexit. Ela também está estocando peças em fábricas no Reino Unido e na Europa.
A Meggitt, fornecedora de componentes de aviação para a Airbus e a Boeing, diz que formou um estoque avaliado em cerca de 5 milhões de libras no fim do ano. O ADS Group, um grupo lobista da indústria aeroespacial no Reino Unido, estima que o custo do aumento dos estoques em todo o setor poderá superar US$ 1 bilhão.
Em Londres, o aeroporto de Heathrow, o mais movimentado da Europa, estocou peças mecânicas para garantir que equipamentos que movimentam itens como bagagem não sejam desativados porque os componentes estão presos na Europa. O aeroporto também fez estoque de luvas de borracha e outros itens necessários para procedimentos de segurança. Companhias farmacêuticas receberam ordem do governo britânico para formar estoques de medicamentos considerados críticos.
Fábricas na Irlanda também estão formando estoques em ritmo acelerado, mostram dados da IHS Markit. Em outras partes da Europa, a Adidas da Alemanha começou a separar serviços de frete para clientes do Reino Unido daqueles da Europa continental. A fabricante de automóveis BMW reservou espaço em um enorme avião de carga Antonov para
transportar peças para contornar problemas na travessia do Canal da Mancha.
Economistas alertam que essa formação de estoques prejudica a economia como um todo, mesmo no caso de um divórcio com acordo. O dinheiro preso nos estoques implica em menos recursos para investir em novos equipamentos e em contratações, o que pode afetar negativamente o crescimento.

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