Economia global cresce sob incertezas

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A expansão da economia global alimenta um moderado otimismo das empresas, mas diferentes analistas alertam que essa retomada ainda será insuficiente em vários países e sujeita a incertezas políticas e econômicas.

O índice de PIB global da consultoria britânica Capital Economics mostra que o crescimento mundial passou de 2% no fim de 2015 para 3,5% no segundo semestre de 2016. A expectativa é de taxa um pouco maior neste ano, performance que continuará inferior à taxa de 4% do período pré-crise.

Comparado à mediocridade dos últimos tempos, o resultado é comemorado. Para o banco Barclay, de Londres, o recente Índice de Gerentes de Compras (PMI, em inglês), medidor da atividade de milhares de fábricas, sinaliza que chegou ao fim a depressão da produção industrial, que afetou o crescimento nos últimos anos, como mostrou artigo de Assis Moreira no Valor de 06/03.

“Acreditamos que o sentimento global tornou-se positivo e que essa reanimação na confiança poderá impulsionar a produção também”, diz o banco em nota.

A Capital Economics atribui a “impressionante” retomada do PIB global desde o ano passado a fatores como políticas de estímulo na China, a segunda maior economia do mundo, e à estabilização do preço do petróleo. No entanto, acredita que o crescimento mundial dificilmente vai acelerar mais ainda nos próximos meses, embora tampouco deva desacelerar.

Alfredo Calcagno, um dos principais economistas da Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), constata uma melhora na economia global, mas também observa que a demanda global insuficiente continua a limitar a expansão da produção e da produtividade. E isso, por sua vez, afeta uma expansão maior de salários e do consumo.

Para a Capital Economics, a melhoria global não se deve a esperanças sobre o programa econômico dos Estados Unidos com Donald Trump, até porque os dados são de antes da eleição americana.

A melhoria se deve, primeiro, à forte política de expansão da China. A China está “claramente se recuperando”, graças a recentes incentivos para infraestrutura e maior demanda global por seus produtos, reforça o Instituto Internacional de Finanças (IIF).

Um segundo ponto seria a estabilização dos preços do petróleo entre US$ 40 e US$ 60. A queda da cotação do barril no fim de 2014 causou forte baixa nos investimentos nos EUA e empurrou alguns emergentes para a recessão, incluindo a Rússia. Hoje, diante da estabilização do preço, a indústria petroleira se recupera.

Além disso, nos EUA os investimentos do setor de mineração cresceram 23% no quarto trimestre de 2016, em termos anualizados.

Sobretudo, a consultoria britânica acha que o freio provocado pela crise financeira global enfim passou. As famílias nos países desenvolvidos não estão mais focando somente em reduzir suas dívidas e se comprometem com novos projetos. O setor financeiro se recupera, com a exceção de algumas áreas na Europa. Os empréstimos bancários para as corporações crescem nos países desenvolvidos.

A Unctad, por sua vez, avalia que a melhora na economia em 2017 e 2018 deve ser baseada, em parte, numa modesta aceleração nos países desenvolvidos, a começar pelos EUA, com crescimento acima de 2% ante 1,6% no ano passado.

A economia europeia se beneficiou da desvalorização do euro, do preço menor do petróleo, do custo barato do dinheiro e de política fiscal menos restritiva. Mas os investimentos continuam fracos, e as incertezas políticas são fortes em vários países importantes.

Entre os emergentes, o crescimento continua rápido na maioria dos países da Ásia graças à sólida demanda, incluindo consumo e investimentos. Os produtores de commodities, como o Brasil e a Rússia, se beneficiam da recuperação nos preços. Mas a expansão econômica continuará fraca em vários países. Por outro lado, até agora os emergentes não foram afetados por redução dos fluxos de capitais, diante da perspectiva de aumento da taxa de juros nos EUA.

No geral, as perspectivas são boas, mas não se deve esperar aceleração do crescimento nos próximos meses, avalia Capital Economics. A atividade na zona do euro, por exemplo, pode desacelerar um pouco. Mesmo se os partidos populistas anti- integração europeia na Alemanha, França, Itália e Holanda não chegarem ao poder, o apoio que receberem nas urnas aumentará sua influência nas decisões governamentais. O que pode reduzir as chances de cooperação e maior integração, deixando o mercado comum mais vulnerável.

Para Calcagno, da Unctad, o mais importante atualmente é o que, de fato, o governo Trump implementará sobre regulação financeira e comércio e qual será o impacto da alta dos juros.

“Uma aceleração do crescimento dos EUA pode ter efeito positivo sobre a demanda global, mas precisamos ver se isso não será acompanhado por novas medidas protecionistas ou aumento de desequilíbrios globais”, diz.

O Banco Internacional de Compensações (BIS), espécie de banco dos bancos centrais, tem insistido sobre os riscos que mais protecionismo pode causar. E não vê ainda um caminho claro para crescimento duradouro da economia global.

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