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Disney diversifica receitas e aposta em pacotes “magros” de TV paga

No terceiro trimestre do ano passado, quando o CEO da Walt Disney, Bob Iger, revelou que tinha havido algumas perdas modestas de assinantes na rede de TV a cabo de esportes ESPN, ele não esperava a turbulência que se seguiria.

A rede de TV a cabo mais lucrativa do mundo e a maior divisão da Disney pareciam imunes ao impacto do “corte dos fios” – o cancelamento de uma assinatura de TV a cabo ou por satélite em favor de alternativas on-line. Os comentários de Iger, que se limitavam à Disney e à ESPN, desencadearam uma venda em massa, em todo o setor, de ações de empresas de mídia. Se a poderosa ESPN se revelava vulnerável, o que se poderia esperar de qualquer outra empresa?

Mas Iger, que recentemente comemorou dez anos como CEO, não está em pânico. Em entrevista concedida na sede da Disney em Burbank, ele diz que a empresa, que no mês passado divulgou seu melhor trimestre até hoje, diversificou as fontes de receita graças aos investimentos que fez em conteúdo e em marcas, considerando o dia em que as taxas de crescimento da ESPN perdessem ritmo, como mostrou artigo do Financial Times, assinado por Matthew Garrahan, publicado no Valor de 08/03

“Concluímos que o velho ditado ‘conteúdo é tudo’ era absolutamente verdadeiro”, diz ele, acrescentando que a mudança aumentará o poder da Disney num período de turbulência tecnológica e de mudanças radicais dos hábitos televisivos dos espectadores.

“Olho para os ativos que compramos na Pixar, na Marvel e na Lucasfilm, e olho para a ESPN, e vejo marcas que vão sofrer baques no caminho devido à ruptura, mas que ficarão bem no longo prazo.”

Estava claro que o crescimento da ESPN acabaria desacelerando, diz ele. Os lucros da rede aumentaram em 2015, apesar de encerrar o ano com 92 milhões de assinantes – 3 milhões a menos do que no ano anterior. “Vamos continuar a expandir a ESPN”, diz ele. “Só que não no ritmo com que a expandimos [até agora].”

A pergunta é se os investimentos em conteúdo e em novas maneiras de distribuir a ESPN serão suficientes para neutralizar os efeitos de uma desaceleração.

Iger confia que serão, e aponta para a inclusão da rede em pacotes chamados de “magros” – assinaturas mais baratas de TV a cabo que têm menos canais que os pacotes tradicionais – como exemplo de como a empresa está reagindo à mudança de comportamento do consumidor.

“A ESPN ainda é um enorme centro de geração de lucros, e deverá receber muita atenção”, diz ele. “A questão não é se o número de assinantes cai de 95 milhões para 90 milhões ou 85 milhões. E sim as condições de saúde de longo prazo da ESPN e em que medida a ESPN continuará a ser alvo da demanda dos consumidores. Porque, se concluirmos que ela continuará, vamos elaborar uma maneira de transmitir isso aos consumidores – e os consumidores vão elaborar uma maneira de acessar isso.”

Nem todo mundo acha que uma desaceleração do crescimento da ESPN será indolor. A Disney foi rebaixada por vários analistas no início de 2016, diante das preocupações com os possíveis efeitos do “corte dos fios” sobre o negócio.

“As taxas de crescimento do lucro operacional da rede de TV a cabo poderão continuar a representar um obstáculo para a empresa como um todo nos próximos trimestres, embora seja de se esperar alguma variação trimestral”, disse o analista Kannan Venkateshwar, do Barclays.

A empresa não detalha o desempenho individual da ESPN, mas ele representa, de longe, a maior parte de sua divisão de TV a cabo, que em 2010 respondeu por 59% do lucro operacional da Disney, de US$ 7,59 bilhões. A TV a cabo continua sendo a maior divisão da Disney, mas sua participação no lucro operacional caiu, à medida que outras áreas do grupo cresceram mais depressa. Em 2015, o segmento respondeu por 46% do lucro operacional da Disney, de US$ 14,7 bilhões. Negócios como parques temáticos, produtoras cinematográficas e produtos de consumo se expandiram mais rapidamente.

Isso se deve à propriedade intelectual atualmente à disposição da Disney. Os filmes da Marvel, como “Homem de Ferro”, “Os Vingadores” e “Guardiões da Galáxia”, acrescentaram bilhões de dólares ao faturamento do grupo, enquanto a Disney Animation, que ia mal das pernas dez anos atrás, foi revitalizada sob a liderança dos fundadores da Pixar, John Lasseter e Ed Catmull.

“Zootopia: Essa Cidade É o Bicho”, o mais recente lançamento da Disney, quebrou os recordes de bilheteria no fim de semana de estreia para um filme de animação, enquanto uma sequência e uma versão da Broadway para “Frozen”, o sucesso absoluto de 2013, está no prelo.

Com a Pixar, a Marvel e a Lucasfilm, Iger diz que conseguiu minimizar o risco da produção de filmes. “Tínhamos uma volatilidade enorme em nossa produtora de filmes. Ela podia ganhar US$ 200 milhões um ano e US$ 800 milhões no seguinte”, diz ele. “Agora, haverá alguma flutuação, com um grande filme da série ‘Guerra nas Estrelas’ em determinado ano, mas [os retornos] vão ser muito mais estáveis. E eles terão reflexos sobre o nosso lucro líquido.”

Isso não passou despercebido a Wall Street. Alguns analistas, por exemplo, sugerem que as reações do mercado às reduções do número de assinantes da ESPN podem ter sido exageradas.

“É errado desprezar o crescimento gerado por empresas que contribuem com metade dos lucros da Disney”, escreveu em nota o analista Jason Bazinet, do Citi.

À medida que analistas e investidores continuam a monitorar de perto a ESPN, Iger diz que comparações com outras empresas de mídia ignoram a amplitude das áreas de atuação da Disney. “Não somos uma empresa de mídia. Estamos presentes nas áreas de alimentos, de transportes, de férias, de hotéis, de tecnologia, de produtos de consumo, cinema, TV, livros, jogos. Acho que somos muito diferenciados das demais companhias.”

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