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Concorrência menor reduz salários nos EUA

As chamadas companhias “superstars” nos EUA estão ficando cada vez mais poderosas em seus setores, o que está permitindo a elas aumentar ainda mais os preços de seus produtos e serviços. Analistas dizem que, conforme esses empresas altamente lucrativas aumentam seu papel de dominância, os trabalhadores estão ficando com uma fatia menor do bolo econômico, o que está contribuindo para uma maior desigualdade de renda, como
Políticos do Partido Democrata e “think-tanks” progressistas se posicionaram sobre o fenômeno. Elizabeth Warren, senadora de Massachusetts, conclamou as autoridades de defesa da concorrência a agirem e diz que “a competição está morrendo” nos EUA, como mostrou matéria do Financial Times, assinada por Sam Fleming e Brooke Fox, publicada no Valor de 16/08
Mas a noção de que as leis antitruste são frouxas demais é contestada. Uma apresentação do Departamento de Justiça dos EUA e da Federal Trade Commission (FTC) na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), em junho, questionou algumas das pesquisas sobre concentração no setor corporativo, afirmando que as análises não monitoraram mercados de produtos significativos.
Cada vez mais, economistas concordam que alguns setores estão sendo mais dominados por uns poucos grandes concorrentes corporativos. Uma medida padrão da concentração corporativa – o índice Herfindahl-Hirschman – acumula uma alta de 48% desde 1996. Houve uma maior concentração em cerca de 75% dos setores americanos nas últimas duas décadas, segundo uma pesquisa de acadêmicos, que incluem Gustavo Grullon, da Rice University.
As gigantes americanas da internet, por exemplo, ergueram posições poderosas em seus mercados. Google e Facebook controlaram, juntos, mais de 58% dos gastos com propaganda digital nos EUA em 2017, segundo a eMarketer. A Amazon caminha para capturar quase metade do mercado de “ecommerce” dos EUA neste ano, embora sua participação no varejo do país, incluindo as vendas off-line, seja de 5%. Enquanto isso, a área de cuidados com a saúde vem registrando uma onda de aquisições que incluem a união de hospitais e a proposta de fusão entre a CVS Health e a Aetna.
Em junho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um estudo centrado em uma medida do poder corporativo – as margens comerciais que medem a diferença entre os preços cobrados e os custos de produção. Entre as empresas americanas de capital aberto, essa medida cresceu uma média (ponderada pelas vendas) de 42% entre 1980 e 2016, num possível sinal de competição mais fraca. Tendências parecidas são visíveis em outros países.
“Vemos evidências de aumento do poder de mercado e queda da concorrência nos EUA”, diz Daniel Leigh, vice-diretor de Américas no FMI. “Isso junto com sinais de que a participação da mão-de-obra está caindo.”
Um grupo de pesquisadores, que inclui David Autor, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e David Dorn, da
Universidade de Zurique, constatou que, enquanto o peso de um pequeno número de empresas “superstars” altamente
lucrativas e inovadoras aumentou, a fatia dos trabalhadores no bolo caiu em seus setores.
Isso pode ter contribuído para uma queda maior dos rendimentos do trabalho, particularmente perceptível nos EUA desde o começo dos anos 2000. Ao mesmo tempo, a lucratividade corporativa cresceu para níveis recorde.
Analistas do Goldman Sachs afirmam que a concentração crescente de produtos e do mercado de trabalho impôs uma barreira de 0,25 ponto porcentual ao crescimento anual dos salários desde o começo dos anos 2000. Eles também observam que o fraco crescimento da produtividade nos EUA é um problema maior.
Conforme as empresas grandes e altamente lucrativas ganham mais poder, há o risco de a economia vir a sofrer. O FMI afirma, por exemplo, que a inovação e os investimentos poderão acabar caindo depois do pico inicial, à medida que os setores se tornam altamente concentrados e as grandes empresas descansam sobre os louros da glória. “Embora os rendimentos corporativos maiores estejam inicialmente associados a maiores investimentos e gastos com pesquisa e desenvolvimento, isso se inverte quando o poder de mercado se torna forte demais”, diz Leigh.
Jason Furman, do Peterson Institute for International Economics, e Peter Orszag, diretor-gerente do Lazard Frères, dizem que a redução da competição e o menor dinamismo da economia vêm contribuindo para a desigualdade e o fraco crescimento da produtividade.
Os fundamentos por trás da crescente concentração corporativa são difíceis de serem desvendados. Parte da explicação pode estar nas novas tecnologias, que conferiram vantagens a empresas bem-sucedidas nos chamados mercados “winner takes most” (“o vencedor leva tudo”), afirma Autor. Sua pesquisa constatou que o aumento da concentração aparece de maneira desproporcional em setores que estão passando por mudanças tecnológicas aceleradas.
Para alguns políticos e analistas, a política reguladora também é uma parte importante do fenômeno. Eles dizem, por exemplo, que as autoridades permitiram um número grande demais de fusões e pouco fizeram para desarticular companhias poderosas demais.
“É preciso haver uma reconsideração da lei antitruste para que ela seja mais diligente com os custos dessas fusões e aquisições”, prega Ro Khanna, congressista democrata da Califórnia. Ele observa que é um “raciocínio negligente” afirmar que grande é necessariamente ruim, acrescentando: “Deveríamos ser mais precisos e avaliar se está havendo ou não um comportamento anticompetitivo”.
“O problema está na margem: você vai permitir fusões que antes não permitia?”, pergunta Furman. Kevin Hassett, presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Donald Trump, disse que, embora haja evidências de aumento da concentração, não está claro se é preciso haver uma intervenção do governo. “A questão é que, se você está pensando nos prejuízos causados ao consumidor pela concentração, então você também deveria pensar se há algo que o governo possa fazer a respeito”, afirmou ele.
“Acho que pode haver, às vezes e em tese. Mas as evidências são de que o governo com muita frequência pode consolidar o monopólio, impondo uma burocracia tão grande que novos participantes não têm como competir.”
Alguns advogados especialistas em concorrência vêm reclamando de um “movimento antitruste hipster”, que espera que o Departamento de Justiça e a FTC resolvam um conjunto de problemas econômicos grande demais.
“A mobilidade econômica e a proteção a uma classe média forte são claramente importantes, mas a questão é se a atual política de proteção da concorrência pode ser culpada por uma série de problemas sociais, e se a lei antitruste é a ferramenta certa para isso”, diz Jan Rybnicek, advogado da Freshfields Bruckhaus Deringer especialista em concorrência.
“Sou cético em relação a esses dois pontos: a preocupação é que a expansão dramática da aplicação da legislação antitruste possa acabar causando mais danos que benefícios.”

https://www.valor.com.br/internacional/5739599/para-analistas-concorrencia-menor-reduz-salarios-nos-eua#

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