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Câmara dos EUA lança processo de impeachment

Os democratas da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos lançaram ontem um processo de impeachment contra o presidente Donald Trump, depois de acusações de que ele tentou pressionar o presidente da Ucrânia a investigar a família de Joe Biden e interferir nas eleições americanas de 2020.
O anúncio do processo foi feito pela presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi. Esse é o primeiro processo de impeachment instaurado contra um presidente americano desde o de Bill Clinton, em 1998.
“A Câmara está seguindo com um processo oficial de impeachment”, disse Pelosi em um pronunciamento transmitido pela TV. “O presidente precisa ser responsabilizado. Ninguém está acima da lei”, afirmou ela.
“As ações do governo Trump revelaram a traição do presidente ao seu juramento de posse, traição à nossa segurança nacional e traição à integridade das nossas eleições”, disse Pelosi ao anunciar a decisão histórica.
O acontecimento dramático foi desencadeado pela acusação de que Trump pressionou um outro país a investigar a família de Biden, que está concorrendo à candidatura à Presidência dos EUA pelo Partido Democrata. O caso culmina mais de dois anos de preocupações dos democratas com a maneira como Trump vem agindo na Casa Branca.
O escândalo estourou depois que um informante manifestou sua preocupação com conversas que Trump teve com um líder estrangeiro, posteriormente identificado como sendo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. O diretor da comunidade de inteligência dos EUA recusou-se a fornecer ao Congresso a denúncia do informante, o que, segundo disse Pelosi, é uma “violação” da lei americana.
Imediatamente Trump atacou a decisão, repetindo sua alegação frequente de que os democratas estão empenhados em uma “caça às bruxas”. “Um dia tão importante nas Nações Unidas, com tanto trabalho e tanto sucesso, e os democratas tinham que arruinar isso de propósito com mais lixo e caça às bruxas. Pior para o nosso país!”, tuitou Trump de Nova York, onde está para participar da Assembleia Geral da ONU.
A iniciativa prepara o caminho para uma batalha traumática no Congresso. Trump disse que a transcrição de seu telefonema para Zelensky foi “perfeita” e vai provar que ele não pressionou seu colega para interferir na política americana. Uma autoridade dos EUA disse que a transcrição será um relato “literal” da conversa e mostrará que os democratas “exageraram” com o processo de impeachment.
Mas os democratas estão exigindo receber uma cópia da denúncia do informante, em meio a sugestões de que ela poderá apontar para um padrão de telefonemas problemáticos, além da conversa mantida em julho. Um deputado democrata afirmou que o partido não conseguirá determinar exatamente o que Trump fez se não tiver acesso completo à denúncia.
O democrata Adam Schiff, presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, disse ontem que o informante transmitiu à comissão o desejo de conversar com os parlamentares. Ele afirmou que o advogado do informante está discutindo a situação com o escritório de Joseph Maguire, diretor em exercício da Inteligência Nacional dos EUA.
Maguire, que se recusou a fornecer a denúncia ao Congresso, deverá comparecer amanhã perante a Comissão de Inteligência da Câmara. Pelosi observou que ele estará violando a lei americana se não encaminhar uma cópia da denúncia do informante.
“Na ocasião, ele terá de entregar a denúncia completa do informante à comissão”, disse Pelosi. “Ele terá de escolher entre violar a lei ou honrar sua responsabilidade com a Constituição.”
A decisão de iniciar um processo de impeachment ocorreu horas após Trump ter dito que divulgaria hoje a transcrição de seu telefonema com Zelensky, num esforço para embotar o apoio crescente e rápido dos democratas à abertura do processo de impeachment. Não deu certo.
O coordenador da campanha de Trump à reeleição, Brad Parcale, disse que o processo ajudará o presidente a se manter na Casa Branca em 2020. “Essa estratégia equivocada de impeachment dos democratas vai aplacar sua base esquerdista radical e extrema, mas servirá apenas para encorajar e estimular os apoiadores do presidente Trump e gerar uma vitória esmagadora”, disse ele.
Pelosi há muito vinha resistindo aos pedidos de impeachment de Trump feitos por membros democratas da Câmara, por acreditar que o Senado, controlado pelos republicanos, não condenaria o presidente. Ela também temia que isso pudesse energizar seus eleitores, aumentando as chances de reeleição de Trump e ameaçando uma série de deputados democratas novatos que foram eleitos no ano passado em distritos que pendem para os republicanos. Isso deu aos democratas a maioria na Câmara.
Pelosi, que é deputada pela Califórnia, mudou sua posição sob pressão dos membros da bancada do partido, que disseram que as acusações contra Trump são graves demais para serem ignoradas. As preocupações de Pelosi com os democratas novatos também se tornaram parcialmente irrelevantes depois que vários novos parlamentares publicaram um artigo de opinião no “The Washington Post”, defendendo o impeachment.
Uma das democratas novatas mais destacados na Câmara, Alexandria Ocasio- Cortez, disse ontem a jornalistas que os itens no processo de impeachment poderão incluir várias acusações, como a de que Trump aceitou ajuda de governos estrangeiros. “Precisamos responsabilizar esse presidente e temos de proteger nossa democracia. E é isso que vamos fazer agora”, disse ela.
Brendan Boyle, deputado democrata da Filadélfia que está há três mandatos na Câmara, disse ao “Financial Times” que este é um momento “divisor de águas”. “Todos estamos conscientes da gravidade disso.”
A investigação foi imediatamente criticada por alguns republicanos que se juntaram a Trump em qualificá-la de caça às bruxas. Tim Jordan, o principal republicano da Comissão de Supervisão e Reforma da Câmara, disse que os democratas estão tentando encontrar outra maneira de compensar a derrota de Hillary Clinton para Trump na eleições presidenciais de 2016.
“Os democratas vêm tentando lançar um impeachment sobre o presidente desde o começo [desta legislatura do] Congresso”, disse Jordan. “A presidente [da Câmara] finalmente sucumbiu às pressões inexoráveis da ala socialista do Partido Democrata. Isso nunca teve a ver com conluio com a Rússia ou com acusações da Ucrânia. Tem a ver com anular a eleição de 2016 e a vontade do povo americano.”

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2019/09/25/camara-dos-eua-lanca-processo-de-impeachment-contra-trump.ghtml

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