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Alemanha adota política industrial protecionista

A Alemanha anunciou ontem que vai intensificar esforços para proteger setores importantes de aquisições e da concorrência de estrangeiros, enquanto tenta combater o que classificou de crescente protecionismo de EUA e China.

A nova política permitirá ao país comprar participação em empresas estratégicas para protegê-las de aquisição por estrangeiros. Prevê ainda uma adaptação das regras antitruste nacionais e europeias para encorajar a criação de grandes grupos alemães ou europeus para enfrentar empresas gigantes chinesas e americanas.

O objetivo, diz o governo, é ajudar as empresas alemãs a manter e reforçar sua liderança em uma dezena de áreas – do setor automobilístico aos de máquinas-ferramentas e produtos químicos.

A estratégia industrial – a primeira adotada por um governo alemão no pós-guerra – representa uma reviravolta num país que, ao menos no discurso, há muito insiste que os mercados deveriam ser livres, e as empresas devem tomar suas próprias decisões.

O anúncio acontece num momento em que o pensamento econômico liberal recua em praticamente todo o mundo, em meio à aceleração da reação contra a globalização, especialmente no Ocidente. De Donald Trump a Emmanuel Macron, vários líderes políticos prometem proteger suas economias contra o que veem como competição injusta de países como a China, onde o capitalismo e o Estado andam de mãos dadas.
Em Berlim, um indicador dessa mudança de clima são as críticas crescentes do governo às autoridades antitruste da União Europeia (UE), que estão para proibir uma fusão ferroviária entre a alemã Siemens e a francesa Alstom, cujo objetivo é melhorar suas chances de competir com os chineses.

A ascensão dos movimentos populistas, com discurso crítico ao livre mercado e à abertura comercial, também vem pressionando governos centristas da Europa a adotarem políticas que visam proteger os eleitores dos rigores da vertiginosa competição global.

Ao apresentar a chamada de Estratégia para a Indústria Nacional 2030, o ministro da Economia alemão, Peter Altmaier, disse que ela representa o fim de “uma Alemanha que assiste passivamente um acontecimento que já está a todo vapor nos EUA, Japão e China”.

O documento de 21 páginas faz referência ao plano “América em primeiro lugar”, de Donald Trump, para proteger setores tradicionais, como o siderúrgico e o automobilístico, e ao plano “Made in China 2025″, com a qual a China quer virar líder em áreas que vão da inteligência artificial (IA) à robótica.

“Se países individuais ou empresas tentam assumir a liderança e ampliar suas posições de mercado, também temos o direito e o dever de nos defender”, disse Altmaier.

O influente lobby industrial alemão BDI elogiou a estratégia, chamando-a de “um conceito industrial amplo há muito necessário”.

Já economistas se mostraram mais cautelosos. Lars Feld, membro de assessores do governo, disse ao jornal alemão “Die Welt” que a estratégia é “na melhor das hipóteses, a tradição econômica francesa, e na pior, a economia planificada”.

Altmaier negou que ela seja conflitante com a economia de livre mercado. Disse que o Estado só deverá poder comprar participações em casos “muito importantes” e por períodos limitados.

Ele acrescentou que os detalhes do plano serão finalizados em discussões com executivos de empresas, parlamentares e sindicatos. O objetivo final, disse, será a Europa chegar a um acordo sobre uma política industrial conjunta.

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