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Acordo EUA ­México trará mais dano que benefício

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que um acordo foi fechado. Ele afirmou que vai substituir o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) por um acordo bilateral com o México. O Canadá pode aderir ou ser punido com tarifas. Empregos industriais voltarão aos EUA e tudo ficará bem. Como sempre, com Trump, o acordo que ele divulgou e sua capacidade de colocá-lo em prática foram excessivamente exagerados. Não se trata nem mesmo de uma atualização abrangente do Nafta. Sua parte mais substancial, sobre automóveis, é ineficaz na melhor das hipóteses, e destrutiva na pior.
Depois de um ano em que o presidente abusou do Poder Executivo para impor tarifas a vários parceiros comerciais, seria um momento excelente para o Congresso reafirmar sua autoridade sobre acordos comerciais e exigir que alguma sanidade e transparência sejam devolvidas ao processo. O Nafta não pode ser sucateado nem reescrito sem a aprovação do Congresso dos EUA, que deveria se recusar a aprovar o novo acordo, como mostrou matéria do Financial Times, publicada no Valor Econômico de 29/08.
Dependendo dos detalhes, muitos dos quais ainda não foram revelados, o acordo pode não ser tão desastroso como parece. Muitas mudanças são cosméticas. As provisões mais substanciais são os requisitos mais rígidos para as normas de origem de automóveis. Caso as montadoras tenham flexibilidade suficiente para atender aos novos requisitos – em especial para se adaptar à condição de que uma certa proporção do valor seja agregada por trabalhadores com maiores salários – muitas de suas cadeias produtivas podem ser mantidas.
No entanto, como ocorre tão frequentemente com restrições comerciais, o efeito dominó pode ser considerável, ao criar distorções ao longo da cadeia produtiva. Parte do objetivo do acordo, além de encorajar o aumento da produção de automóveis nos EUA, é tirar as peças chinesas das cadeias de fornecimento da América do Norte, ao limitar o número que pode ser incorporado em carros que se beneficiem do sistema de preferências do Nafta.
Mas outros países podem simplesmente se beneficiar no lugar dos chineses. É provável que a complexidade crescente das cadeias de fornecimento e a transferência da produção para os EUA provoquem um aumento geral dos preços dos automóveis. Isso não é ruim apenas para os consumidores americanos. Também abre espaço para empresas automobilísticas da União Europeia, do Japão e da Coreia do Sul, mesmo que tenham de pagar a tarifa de 2,5% do Nafta. O que, por sua vez, só vai encorajar Trump a atingir as importações de automóveis desses lugares com mais de suas queridas tarifas punitivas.
Tão perturbador como o acordo em si é a maneira como ele foi feito. O México, abandonando suas promessas de negociar de forma trilateral, ignorou o Canadá, em boa medida por razões de política interna. As negociações com os EUA foram coordenadas entre o governo de Enrique Peña Nieto, em fim de mandato, e o do presidente eleito, Andrés Manuel López Obrador. Peña Nieto tinha um forte incentivo para amarrar seu sucessor com a manutenção de muitas das disposições do Nafta, enquanto que para Obrador era interessante minimizar o desgaste político ao fechar o acordo antes de assumir a Presidência.
O México enfraqueceu o poder de barganha do Canadá e colocou o país sob forte pressão para aderir ao acordo. Trump prefere discutir questões comerciais com países isolados, em vez de negociar coletivamente. O México deu-lhe exatamente o que ele queria.
Fazer oposição a Trump nunca é divertido. Mas o Canadá – e o Congresso americano – farão um grande favor ao sistema de comércio internacional se não aceitarem ser empurrados para um apoio imediato ao acordo de Trump com o México. O Congresso, especialmente, tem uma chance sólida de exercer suas prerrogativas sobre tratados comerciais para além da estratégia adotada até agora, de ficar só reclamando das tarifas de emergência de Trump.
O melhor que pode ser dito sobre o acordo anunciado na segunda-feira é que ele é inócuo. Não é, enfaticamente, um desenvolvimento positivo para o Nafta nem para a qualidade da formulação de políticas comerciais nos EUA e além.

https://www.valor.com.br/internacional/5781761/acordo-eua-mexico-trara-mais-dano-que-beneficio#

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