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A promessa e o perigo da biologia sintética

Nos últimos 4 bilhões de anos, aproximadamente, o único meio de a vida na Terra produzir uma sequência de DNA – um gene – foi copiando uma sequência que já existia ao alcance. Às vezes o gene podia ser danificado ou embaralhado, a cópia imperfeita ou realizada repetidamente. A partir dessa matéria-prima vieram as glórias da seleção natural. Mas, fundamentalmente, gene gera gene.
Isso não é mais verdade. Agora os genes podem ser escritos a partir do zero e editados repetidamente, como texto em um processador de texto. A capacidade de projetar coisas vivas que isso proporciona representa uma mudança fundamental na forma como os seres humanos interagem com a vida do planeta. Ela permite a fabricação de todos os tipos de coisas que costumavam ser difíceis, até mesmo impossíveis de se fazer: produtos farmacêuticos, combustíveis, tecidos, alimentos e fragrâncias podem ser construídos molécula por molécula.
O que as células fazem e o que elas podem se tornar é algo que também pode ser engendrado. As células imunológicas podem ser instruídas a seguir as ordens dos médicos; células-tronco mais bem programadas para se transformar em novos tecidos; ovos fertilizados planejados para crescer em criaturas bem diferentes de seus pais.
Os primeiros estágios dessa “biologia sintética” já estão mudando muitos processos industriais, transformando a Medicina e começando a chegar ao mundo do consumidor. O progresso pode ser lento, mas com a ajuda de novas ferramentas e uma grande dose de aprendizado de máquina (machine learning), a manufatura biológica poderia produzir uma verdadeira cornucópia de tecnologias. Edifícios podem ser feitos a partir de madeira sintética ou coral. Mamutes produzidos a partir de células de elefantes modificadas ainda poderão vir a atravessar a Sibéria.
A escala das mudanças potenciais parece difícil de se imaginar. Mas olhe para trás na história. As relações da humanidade com o mundo vivo testemunharam três grandes transformações: a exploração dos combustíveis fósseis, a globalização dos ecossistemas do mundo após a conquista europeia das Américas, e a domesticação de culturas e animais no alvorecer de agricultura. Tudo isso trouxe prosperidade e progresso, mas com efeitos colaterais prejudiciais. A biologia sintética promete uma transformação semelhante. Para aproveitar a promessa e minimizar o perigo, vale a pena aprender com as lições do passado.
A nova biologia põe tudo em dúvida
Comece pela mais recente dessas mudanças anteriores. Os combustíveis fósseis permitiram que os humanos conduzissem uma notável expansão econômica no presente, usando a produtividade biológica de eras passadas, armazenada em carvão e petróleo. Mas muito da natureza selvagem foi perdido e os átomos de carbono que viram a atmosfera pela última vez há centenas de milhões de anos fortaleceram o efeito estufa do planeta a um grau que pode revelar-se catastrófico.
Aqui, a biologia sintética pode fazer algo de bom. Já está sendo usada para substituir alguns produtos feitos de petroquímicos; com o tempo, poderia substituir alguns combustíveis também. Na semana passada, o Burger King introduziu em alguns de seus restaurantes um Whopper sem carne, que obtém sua consistência de uma proteína vegetal modificada; tais inovações poderiam facilitar muito a mudança para dietas menos onerosas do ponto de vista ambiental. Elas também poderiam ser usadas para fazer mais com menos. As plantas e seus micróbios do solo poderiam produzir os próprios fertilizantes e pesticidas, os ruminantes menos gases de efeito estufa – embora, para garantir que a biologia sintética produza metas ambientais tão louváveis, seja preciso a adoção de uma política pública, bem como de sinais do mercado.
O segundo exemplo de mudança biológica que varre o mundo é o intercâmbio colombiano, por meio do qual a nova rede de comércio mundial do século 16 misturou as criaturas do Novo Mundo e do Velho. Cavalos, gado e algodão foram introduzidos nas Américas; milho, batata, pimentão e tabaco foram para a Europa, África e Ásia. Os ecossistemas nos quais os seres humanos vivem foram globalizados como nunca, proporcionando uma agricultura mais produtiva em todas as partes e dietas mais ricas para muitos. Mas também houve consequências desastrosas. Sarampo, varíola e outros patógenos corriam pelo Novo Mundo como um incêndio florestal, matando dezenas de milhões de vidas. Os europeus transformaram esta catástrofe em uma arma, conquistando terras esgotadas e desordenadas por doenças.
A biologia sintética poderia criar tais armas por projeto: agentes patogênicos destinados a enfraquecer, incapacitar ou matar, e talvez também para se limitar a tipos particulares de alvos. Existe uma causa real de preocupação aqui – mas não para alarme imediato. Para tal armamento, como o restante da biologia sintética de ponta, seriam necessárias equipes altamente qualificadas com recursos significativos. E os exércitos já têm muitas maneiras de arrasar cidades e matar pessoas em grande número. Quando se trata de destruição em massa, uma doença é um substituto pobre para uma arma nuclear. Além disso, a comunidade de biologia sintética de hoje preenche as expectativas de ideais de abertura e serviço público melhor do que muitos campos mais antigos. Mantida e nutrida, essa cultura deve servir como um poderoso sistema imunológico contra elementos nocivos.
A primeira transformação biológica – a domesticação – produziu o que até agora era a maior mudança em como os humanos viviam suas vidas. Ao acaso, depois intencionalmente, os humanos cultivaram cereais para serem mais abundantes, os animais para serem mais dóceis, os cães mais obedientes e os gatos mais sociáveis (o último, um sucesso parcial, na melhor das hipóteses). Isso permitiu novas densidades de colonização e novas formas de organização social: o mercado, a cidade, o Estado. Os humanos domesticaram a si mesmos, assim como suas colheitas e animais, abrindo espaço para o trabalho enfadonho da agricultura de subsistência e as hierarquias políticas opressivas.
A biologia sintética terá um efeito cascata semelhante, transformando as relações humanas entre si e, potencialmente, sua própria natureza biológica. A capacidade de reprogramar o embrião é, com razão, o ponto da maioria das preocupações éticas de hoje. No futuro, elas podem se estender ainda mais; o que se deve fazer com pessoas com a força dos gorilas na parte superior do corpo, ou mentes imunes ao sofrimento? Como os humanos poderão escolher modificar biologicamente a si mesmos é difícil dizer; que algumas escolhas serão controversas, não é.
O que leva à maneira principal em que esta transformação difere das três que vieram antes. Seu significado foi descoberto apenas em retrospecto. Desta vez, haverá previsão. Não será perfeita: por certo haverá efeitos imprevistos. Mas a biologia sintética será impulsionada pela busca de objetivos, tanto antecipados quanto desejados. Isso desafiará a capacidade humana de sabedoria e visão. Pode derrotá-la. Mas cuidadosamente nutrida, também pode ajudar a expandi-la.

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