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O sentir na atualidade

Stefanie Godoy Fonseca – Aluna de Publicidade e Propaganda

Certa vez me disseram para adorar os mestres de outro tempo. Michelangelo, Salvador Dalí, Mozart, Chopin, Vincent Van Gogh, Giambologna, Rembrandt. Me ensinaram sobre eles, sobre pessoas que viveram intensamente e conheceram a profundidade da vida, suas belezas e dores. Me encantei pela forma que fizeram da vida, a capturando na mais genuína essência. Bom, assim o fiz. Não me contaram que no nosso tempo presente, o qual chamam de contemporâneo, que essa essência enriquecedora de vida não existia. Tarde demais.
Descobri o pior, através da melhor forma: conheci o atual vivendo os sentimentos de meus ídolos passados. Assim, tentei capturar sorrisos que ninguém percebia. Meus sentidos estavam aguçados para um mundo apático, não é de espanto que intenções diferentes causam ruído, e assim me foi.
O que nos move? E por que estamos desmotivados?
A desvalorização do sentir, da profundidade, mata o ser, de fato. Não há vida, ou sentido para ela se você mata o combustível que nos movimenta. O que nos movimenta, portanto, pode vir em formatos diferentes para cada ser, mas são forças que nos levam a ação, que dão sentido às nossas ações. Para Freud essa força era a Pulsão, para Nietzsche, Vontade de potência. Para nós são apenas paixões que podem ser entendidas como o despertar.
Sendo assim, se tudo o que sentimos é desvalorizado, o resultado é a internalização das sensações que desencadeia em medo e insegurança. A tendência é o entorpecimento.
Porém, a perda de valor na profundidade do pensamento, tal como nas sensações de um vívido sentimento, apesar de estarem ausentes em seu real sentido, se fazem próximos os seus símbolos, que são proliferados a todo momento no mundo virtual. Assim, o que mudou foram os valores que atribuímos à estes símbolos, nossa relação com eles.
No passado, criamos os símbolos porque sentíamos, porque eram embutidos de significados. Hoje, o símbolo existe pelo símbolo, despidos de real sentido. Ou seja, o significado ficou no passado, mas o símbolo ainda é superutilizado.
Como exemplo temos uma data comemorativa: o dia dos namorados. Se está dentro de um relacionamento, boa parte desse dia passará recriando sua relação nas redes sociais dizendo que ama seu parceiro(a), e menos tempo passará atenciosamente ao lado de quem está com você, sentindo de fato. A mesma lógica podemos aplicar ao natal. Provavelmente o indivíduo estará pouco confortável com a reunião familiar, mas todos estarão online, demonstrando virtualmente o quanto são unidos, por fotos e emojis (signos sem significado) – amor e carinho recriados.
Não estou dizendo que não amamos ninguém e tampouco que não temos carinho pelos nossos familiares. Mas sim que estas relações foram esgarçadas por uma reprodutibilidade intensa de signos de afeto no virtual que carregam um ínfimo valor no mundo real, no cotidiano. E essa reprodução gera uma banalização das sensações reais pelo costume de exibição intensa.
O “seguro” agora não é mais a pura expressão do sentir e sim a recriação dessas expressões como simulação do atual pelo o que é conveniente. Ou seja, é o simulacro, tempo em que o verdadeiro não mais existe e sim suas rasas representações. Conveniente é por preencher o indivíduo com geração de likes. Sendo assim, nesse estágio não há mais ligação entre o sentimento-expressão, mas sim a expressão-expressão: criação de símbolos (não correspondentes com o real em tempo e essência) que dão segurança e/ou sensação de aceita

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