Grilo Falante

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Lara Leites Rodrigues, do quarto semestre de PP da ESPM/SP

 

 

“Se diverte como se não houvesse amanhã”. Vive um dia após o outro, com os coleguinhas da escola, com as aprendizagens básicas do conhecimento. Azul é a cor do céu e amarelo é o Sol. Ano vai, ano vem, e esses conhecimentos que a princípio tão simplórios vão tomando uma forma mais assustadora. O sujeito que antes só acompanhava um verbo agora está repleto de predicados. E se acumulam mais cadernos e mais livros e mais provas e mais notas e mais. Colegial. Ansiedade. Com menos de um quarto de sua vida vivida, tem que fazer a escolha de sua vida. E aí de você se não acertar! Vai perder seu tempo, vai ficar atrasado no mercado de trabalho. Tem que ser feliz no que gosta, mas tem que ganhar bem também, hein?

Nada importa, estuda, prova, aflição. A primeira insegurança de falta de capacidade. Deixa de lado a festa de aniversário da titia, agora precisa focar nos estudos que mais pra frente tem vestibular. Reprova. Ansiedade acumula. Uma pena, um semestre ou até mesmo um ano jogado fora se tivesse estudado mais. Não vai viajar. Estuda. Aflição. Passa. Mas no que adianta passar na melhor universidade do país se o seu concorrente fala três línguas, fez intercâmbio na Europa, trabalho voluntário na África e possui uma vida social ativa? Melhore.

Pode estudar o que for na faculdade, mas é só na empresa que você vai por a mão na massa de verdade. Mas pera, que empresa? Corre, ta atrasado. Ansiedade. Todo mundo já mandou currículo e você não. Parece que não liga pro seu futuro. Digita, ensaia, se prepara, social, entrevista, aflição e e-mail. “Obrigada pelo seu tempo, mas você não corresponde com nossos interesses”. Estaca zero. Ansiedade. Agora está mais atrasado ainda porquê todos estão tendo uma primeira experiência e você ficou pra trás. Queria jogar tênis? Jogava na escola? Agora não da tempo, o futuro ta chegando. Precisa fazer algo que agregue no seu futuro.

E mais propostas foram entregues. Mais nãos foram recebidos. Até que um dia tinha que aparecer alguma coisa né? Pulos de alegria. Mas não por muito tempo. Agora a competição começa diferente. Agora todas as pessoas já selecionadas precisam ser as melhores. Trabalha, estuda, trabalha, faz as contas, trabalha, dorme o que dá, trabalha, ansiedade, trabalho, estuda mais um pouco, trabalha. E pelo menos isso fez direito, conseguiu manter o seu emprego! Mas não acaba por aí.

A viagem com os amigos virou uma reunião com o chefe da Alemanha. A festa de formatura virou e-mail de feedback. O casamento dos sonhos na praia foi no cartório da esquina. A aspirina virou antidepressivo. O duplex na Barra virou o que cabia no orçamento, porque não pode gastar todo dinheiro da poupança.  Então precisamos de mais, certo? Trabalha mais, se esforça mais, fique mais ansioso, que agora não adianta pensar nas viagens não realizadas que a mensalidade da escola do filho não se paga sozinha.

O tempo está passando. A titia não está mais aqui, e o tempo perdido com ela? Mas agora não adianta mais também, os dias longe do trabalho já fazem a diferença. A ansiedade só vai aumentar. A aposentadoria não cobre mais o mesmo estilo de vida. Guarde mais. Fique mais contido. Reprima seus desejos, mas depois do trabalho quem sabe.

Depois do trabalho chegou, e adivinha? Não dá. O dinheiro não dá. O corpo não aguenta. O psicológico ainda se preocupa. Esse tempo todo passou e não foi vivido em tempo algum.

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