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Dossiê FLIP – ESPM 2014  Conhecendo Millôr

Amanda Cestaro, Aluna da ESPM/SP

Milton Fernandes, ou melhor, Millôr Fernandes, foi o grande homenageado da Flip 2014. Para aqueles que não o conhecem, talvez seja mais fácil definí-lo como um dos maiores pensadores brasileiros (ainda que ele mesmo refute tal denominação). Mas esse título, para alguém tão heterogêneo, é demasiadamente simples, como fui entender ao frequentar a Flip, pois foi desenhista, humorista, cartunista, dramaturgo, escritor, tradutor, roteirista, jornalista… ufa! Todos esses múltiplos talentos foram assumidos com grande maestria pelo “maior leigo do país”, de acordo com suas próprias palavras. Isso pois foi um grande autodidata.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1923, o guru do Méier foi homenageado da forma mais bonita durante a festa, meio a lembranças bem humoradas e um ar nostálgico entre os palestrantes e participantes da feira. Como escritor, foi um grande manipulador das palavras e o fazia com enorme naturalidade – utilizava irônia, inversões sintáticas e de sentido, aforismos e, inclusive, palíndromos. Não só utilizava diversos recursos para enriquecer suas sentenças como transitou entre escrever haikais, fábulas, frases, definições e paródias. Se descrevia como um “escritor sem estilo”, em uma época em que ainda existia a grande necessidade de classificar escritores e artistas entre movimentos literários ou artísticos. Acima de seu talento em dominar a estrutura, em questão de conteúdo, Millôr sempre tinha algo a dizer sobre os mais diversos tipos de assunto. Tanto que, como existia material suficiente para criar um grande dicionário de tudo aquilo que ele já escreveu para para tantos termos, foi publicado pela editora LP&M no livro Millôr Definitivo, que conta com um glossário para orientar o leitor a buscar por tema e palavra. E é só checar, ele teve algo a dizer até sobre abacate, acredite. Como artista, seus desenhos nunca são meras representações, já que se dedicam a transmitir mensagens repletas de irônia e humor. E mesmo se fossem, levando em consideração os aspectos técnicos do fazer arte, Millôr não peca pois muito pelo contrário, tem um vasto domínio de cores, pesos visuais, traços etc.

A festa, com a homenagem de Millor Fernandes, acabou por se tornar uma Flip engajada, política, subversiva e sobretudo, engraçada em certos momentos. Com a participação de Marcelo Rubens Paiva e Bernardo Kucinski, tratou-se da ditadura e das duras perdas das famílias. Com Davi Kopenawa e Claudia Andujar, falou-se sobre a questão indígena. E é claro, com Antonio Prata e Gregorio Duvivier, as risadas tiverem momentos marcados. Esses são somente alguns exemplos da extensa programação da Flip (sem contar os eventos não oficiais que ocorriam por toda Paraty). Houveram exposições, distribuições do Millor Daily e as incríveis réplicas em tamanho humano das letras do artista, na praça, que fizeram a alegria dos participantes da flipinha. Millôr ficou marcado pra mim como um cara extremamente inspirador, que emana genialidade, um homem com respostas afiadas na ponta da língua, dos mais inusitados insights e sobretudo, alguém que nunca se calou e que, por isso, somos muito gratos.

Na fila de autógrafos. Minha jovem menina vibrou dentro de mim quando Antonio Prata foi confirmado como autor convidado para a Flip, justo a edição que eu estaria presente. Meu contato com seus textos se deu desde a pré-adolescência. Acontece que, no início da minha puberdade, virei uma ávida leitora da Capricho. Foi em busca de dicas de beleza, conselhos amorosos e uma companhia para as aflições e ansiedades que comecei minha pequena coleção de revistas. Que a revista tem muitas falhas, isso é verdade. Mas talvez seu maior acerto, pelo menos nos anos em que virei assinante, seria justamente Antonio Prata. Meio a entrevistas com Cauã Reymond, guias de estilo emo/patricinha/gótica e um verdadeiro dossiê de como evitar espinhas indesejadas, eis que, após uma leitura intensa e demasiadamente útil para o meu eu mais jovem, surgia, na última página, uma crônica. Sempre fui muito sistemática e meu esquema de leitura de revistinhas, gibis e livros me impedia de pular páginas, contos, matérias. Lia qualquer publicação de cabo a rabo e censurava qualquer outro tipo de comportamento que burlasse essa regra. Era completamente impensável ler a Capricho como minha mãe lia a Claudia… afinal, onde já se viu pular para as matérias que mais te interessavam? Bacana mesmo era passar o tempo de leitura da revista em pura aflição e euforia pela espera daquela tão importante seção. Se o êxtase de algumas meninas se dava por justamente chegar na parte da revista que revelava os segredos daquela celebridade teen mais louvada, o que aconteceria no próximo episódio de Malhação ou até mesmo a seção de Micos das leitoras (que tenho que admitir que me faziam gargalhar e ruborizar por vergonha alheia), tenho que dizer que a minha parte preferida era a última página. Sim, justo a última página! Não conseguia compreender como era possível tamanha maldade com leitoras tão fiéis, como eu. Era na seção chamada Estive pensando que encontrei o que havia de mais valioso naquele pequeno produto que custava 5 reais da minha mesada mensal. Na Estive pensando, Antonio Prata se comunicava conosco da maneira mais sensível e delicada, sobre tudo quanto é tipo de tema. Desde assuntos mais filosóficos, sobre o sentido das coisas – e dos textos que estavam nessa categoria, não consigo me esquecer daquele em específico onde se dissertava sobre qual seria a forma física de Deus e se concluia que Deus podia ser até mesmo…. um gafanhoto! – à amor a primeira-vista, escola, crescer, trabalhar, drogas e outros assuntos que estavam mais de encontro com o conteúdo editorial da revista, foi que esse jovem escritor (e olha! Não é que é um menino?!) me influenciou como menina, adolescente, pessoa. Me identifiquei com todos os questionamentos, manias, costumes, brincadeiras e memórias que Prata descria com bom humor. Agradeço muito por ele ter tido a dedicação de escrever para meninas, dificilmente seu público mais desejado, ainda mais para um jovem de 23 anos, sem nos banalizar ou subestimar, como tenho certeza que muitos fariam. Quando Nu, de botas entrou na minha casa como um presente para o meu pai, me apoderei do livro como se fosse meu. E era, ainda é. Na fila dos autográfos da Flip, o avistei sentado ao lado de Mosin Hamid e lembrei da crônica na qual se despedia da Capricho e iniciava uma trajetória muito maior e rica: “Quando começamos, éramos todos muito novos. Nós crescemos juntos, aprendemos juntos e nos entregamos, inteiros, por bastante tempo.”

Saideira. Na última madrugada de Flip, caminhávamos sobre as ruelas do centro histórico, nos despedindo dos paralelepípedos, casas e pessoas. O fim de semana chegou e Paraty foi tomada por uma legião ainda maior de gente de todos os tipos. A cada esquina, um estilo de música diferente. E a gente toda dançava, cantava, comemorava e passeava, com o espírito leve e solto. Quando nos deparamos com um artista argentino que manipulava sombras para contar histórias de forma teatral, paramos e decidimos que essa seria nosso último programa cultural. E numa narrativa completamente fantástica, vimos a silhueta de borboletas, sóis e edifícios num conto regado à poesia e à delicadeza das formas que nos foram apresentadas. Um final ideal para os dias de intenso contato com o que há de mais bonito na existência humana, as histórias, sejam contadas por palavras ou sombras.

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