samba

Samba (Dir.: Eric Toledano e Olivier Nakache França, 2014)

Eduardo Benzatti

“Samba” (dirigido a quatro mãos: Eric Toledano e Olivier Nakache) é o tipo de filme que trata de questões dramáticas com um humor inteligente e irônico – quando eu leio que o “gênero” de um filme francês é comédia, compro o ingresso para o outro filme, pois comédia francesa tipo “pastelão” é difícil de assistir tamanha a bobagem sem graça.

Não é o caso de “Samba” que conta a história de um imigrante Senegalês (o Samba (Omar Sy) do título) que vive há 10 anos na França – e como todo imigrante ilegal, vive de “bicos” e sub-empregos que lhe permitem ganhar algum dinheiro para enviar à sua família (O protagonista está sempre sonhando com o dia que regressará como “vencedor” e poderá – junto com o seu tio, outro imigrante – comprar uma casa perto de um lago).
Apanhado pela justiça será defendido por uma ONG – que trabalha defendendo aqueles que entraram e vivem ilegalmente no país (As sequências dentro dessa ONG onde cada um fala uma língua diferente são ótimas).

É por isso que Samba vai conhecer Alice (Charlotte Gainsbourg com a sua beleza diferente dos padrões do cinema), uma executiva que está prestando trabalho voluntário enquanto se recupera de uma depressão causada por um estresse. Bom, é claro que eles vão se apaixonar e representar simbolicamente a união de uma França (branca) mais tolerável com aqueles que por muito tempo foram seus colonizados (no caso, os negros africanos).

Sim, pois o que muita gente esquece é que o berço da Revolução Iluminista que prometia “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” foi uma das nações mais colonialistas da história (de 1534 até 1980, a França ocupou territórios na América do Norte, América Central, Ásia e, principalmente, África).

Parte dos seus ex-colonizados agora – “agora” não, já há algumas décadas – foge de seus países de origem – seja por causa da pobreza, ou de guerras políticas e religiosas, ou de perseguições ideológicas – e procura uma vida melhor na “Pátria-Mãe”. Como o francês se tornou a “segunda” (em muitos lugares a “terceira” ou “quarta”) língua nesses países de origem, os imigrantes procuram na periferia das grandes cidades francesas um lugar para sobreviver.

Samba vai passar por muitas situações humilhantes e outras engraçadas – parte das engraçadas se refere às coisas e os jeitos do Brasil (representado por um imigrante que se diz “brasileiro”, mas que é Argeliano – Argélia, eis outra ex-colônia -, que curte sambar – ainda q de forma muito estranha -, e ouvir Gilberto Gil).

Jorge Bem Jor também está presente na bela trilha ainda quando era só “Jorge Ben”). A questão social de fundo do filme então é essa: toleramos vocês – que são úteis para o trabalho braçal e mal remunerado -, gostamos da música, das danças, da sensualidade e das comidas exóticas (Samba vai virar um cozinheiro), mas também não dá para acolher todo mundo – ainda que venham dos lugares que exploramos por tanto tempo, de alguns países que ajudamos a desenhar as fronteiras que não respeitaram a história tribal – étnica, cultural e social – de uma África pobre (palco de muitos conflitos) que o mundo preferiu esquecer. Então, Jorge Ben nos lembra: “Take it easy my brother Charlie, take it easy meu irmão de cor”.

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