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Que Horas Ela Volta? (Dir.: Anna Muylaert, Brasil, 2015)

Eduardo Benzatti

A diretora paulistana Anna Muylaert de tempos em tempos escolhe a cidade de São Paulo para ser cenário dos seus bons filmes. Quem não viu – e gosta de cinema – deveria ver: “Durval Discos” de 2002 e “É Proibido Fumar” de 2009. No seu mais recente trabalho, “Que Horas Ela Volta?” – premiado internacionalmente nos festivais de Berlim e Sundance – ela escolheu uma cidade fictícia como palco para a ação (o país onde essa história se passa também é distópico).

Nessa cidade vive uma família da chamada “elite econômica” – é politicamente correto denominá-la de “classe socioeconomicamente mais favorecida” (o senso-comum a chama de “ricos”, embora o filme mostre que apesar de “ricos” materialmente, os indivíduos dessa classe podem ser “pobres” de muitas outras coisas: por exemplo, afeto, amizade, disposição para o trabalho braçal, etc e etc.).

Beleza. Na casa dessa família, situada nesse lugar imaginário, vive – além da família, é claro -, Val – interpretada (com todos os méritos que já foram reconhecidos nos festivais por quais o filme passou) por Regina Casé (que no limite, interpreta a si mesma: trejeitos, entonações e – o melhor – o “tempo” do humor, da piada, algo que nem todos os atores e atrizes têm).

Val veio da região Nordeste desse país fictício, tentar ganhar a vida na região Sudeste, ou seja, fez o mesmo que muitos dos seus conterrâneos. Mas, o mais interessante é que os cidadãos – na sua maioria – dessa tal região Sudeste não veem com bons olhos a vinda dessas levas de migrantes da outra região, a Nordeste. E tratam esses migrantes como cidadãos de “segunda categoria” e reservam a eles subempregos – em geral, trabalhos braçais que não exigem uma formação educacional extensa. Assim, um dos lugares no mercado de trabalho onde eles podem atuar são os chamados “Serviços Domésticos”.

Val é uma empregada doméstica exemplar: acorda mais cedo do que seus patrões – sim, ela mora na casa dos patrões, num quartinho minúsculo, sem ventilação, no fundo (e num nível mais baixo) da casa principal (algo, imaginem vocês, parecido com uma configuração espacial e arquitetônica que nos remete ao clássico livro do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, intitulado “Casa-Grande & Senzala”, publicado pela primeira vez em 1933.

Nessa obra o autor já nos mostrava, entre outras coisas, como as antigas fazendas de produção do açúcar – uma de nossas primeiras riquezas – eram projetadas considerando o lugar em que cada tipo humano ocupava na hierarquização social: os “senhores de engenho” brancos e ricos ocupavam a construção central do terreno e os “escravos”, negros e pobres, o outro espaço, digamos assim, amenamente falando, menos nobre, a “senzala”. Mas isso foi há mais de 400 anos atrás e só poderia estar sendo reproduzido numa sociedade atual numa obra de ficção – lembremos que o roteiro do filme também é da diretora Anna Muylaert).

Como eu dizia, Val acorda mais cedo para chamar todos os outros moradores para o café que ela prepara antes para eles. Depois tem umas dezenas de atividade braçais para cumprir – para isso conta com a ajuda de outros trabalhadores também braçais e empregados dessa família. (Até o cachorro da família ela leva para passear e defecar!). Faz o almoço para o patrão – seu patrão, que ela chama submissamente, de “Doutor”, apesar dele não ter o título de “Doutoramento” (essa parece ser outra característica dessa estranha sociedade: aqueles que não têm – ou têm pouca escolaridade -, chamam de “Doutores” aqueles que conseguiram estudar mais!) e ainda controla o horário dos medicamentos que esse deve tomar.

Tudo vai bem na vidinha de Val até receber um telefonema de que a sua filha – que ela deixou há anos atrás para sua irmã criar lá na região Nordeste – está vindo para essa cidade fictícia com o objetivo de prestar o vestibular para uma vaga na maior universidade pública dessa tal cidade, não por acaso, para o curso de Arquitetura (olha o “Casa-Grande & Senzala” aí novamente!). Ela virá e não é uma daquelas nordestinas sem formação que os habitantes da região Sudeste estão acostumados a ver: a menina tem senso crítico, é bem informada, gosta de ler e estudar e será aprovada na primeira fase desse vestibular, ao contrário do filho da família da elite, que apesar de estudar nos melhores colégios, leva “pau” numa prova que requer mais do que conhecimento, requer também força de vontade para ser aprovado.

Esse filho, aliás, é responsável pelo título do filme, pois a frase “Que horas ela volta?” é dita por ele na primeira cena, quando pergunta para Val por sua mãe que se encontra trabalhando. Val – acreditem vocês! Podem assistir ao filme para ver se eu estou mentindo! – praticamente foi quem criou esse garoto na ausência da mãe (o que dá a entender que alguns pais dessa classe social elitizada deixam seus filhos em casa com empregadas ou babás enquanto saem para trabalhar, logo, essas acabam criando os seus filhos e esses acabam demonstrando mais carinho para com as empregadas ou babás do que para com seus próprios pais! Como se a educação deles – obrigação dos pais – fosse terceirizada para outros. E quando eles crescem não conseguem enxergar os pais, como pais no pleno sentido da palavra!).

Val tem com esse garoto uma relação, diga-se de passagem, até erotizada demais, pois o acostumou com um tipo de carinho gestual que parece estar no lugar da impossibilidade do toque em relação à filha que cresceu longe e ausente. Só mesmo uma diretora com uma imaginação tão potencializada poderia pensar na possibilidade de relações familiares assim.

Falando em “família” – e só para concluir, pois poderia ficar linhas e linhas analisando o filme, seja pela perspectiva antropológica, sociológica e psicanalítica (por exemplos, os “arquétipos” sociais que cada um representa no nosso Inconsciente Coletivo) -, Val é considerada “praticamente da família” pelos seus patrões, daí deixarem que ela hospede a sua filha lá na casa deles (embora sendo “praticamente da família” ela não possa sentar-se à mesa deles para comer junto, não possa entrar na piscina da casa e sofre outras restrições, inclusive alimentares).

A chegada dessa jovem irá desestabilizar todas as relações: a mãe ficará com ciúme dela; o pai – um artista plástico decadente – irá se apaixonar por ela; e o filho vai dar “em cima” dela, mas sem sucesso, pois a verá mais como uma irmã – já que compartilham da mesma mãe: a Val. Val também não sairá ilesa desse reencontro e, ao final, encontrará a redenção – por sua culpa de ter abandonado a filha quando bebê (que também perguntava a sua tia, que horas a mãe voltaria, nas breves visitas que Val fazia a ela quando podia – na possibilidade de criar o seu neto (ou seja, criar o filho da sua filha e não o filho dos outros).

O mais curioso de tudo é que eu assisti ao filme num desses cinemas da cidade de São Paulo frequentado por pessoas pertencentes a essa tal classe social e elas ficavam rindo das situações numa espécie de “catarse”: rindo de si mesmas. Meu Deus! que uma obra de ficção não tem o poder de fazer!

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