pasolini

Pasolini (Dir.: Abel Ferrara, Itália, Bélgica, França, 2014)

“Saló ou os 120 dias de Sodoma”, dirigido pelo diretor italiano Pier Paolo Pasolini em 1975 é um filme que choca até hoje quem o vê pela primeira vez. Talvez menos pelas cenas de sexo e mais pelas de perversão, tortura e sadomasoquismo. Baseado livremente em histórias do Marquês de Sade (“Círculo de Manias”, “Círculo da Merda” e “Círculo do Sangue”), passa-se na Itália controlada pelos – e aliada dos – nazistas. Trata-se de uma crítica contundente a nossa moral, ao poder e aos não limites do desejo de uns sobre os outros. Escandalizou.

“Pasolini”, dirigido pelo diretor italiano Abel Ferrara em 2014 – e que chega agora ao Brasil – não escandaliza (apesar de ter impresso em seu cartaz: “Escandalizar é um direito. Ser escandalizado é um prazer” (frase do diretor – que também era escritor, ensaísta, poeta – “cine biografado”). Mas vale ser visto, pois retrata os últimos dias de vida de Pasolini (Bolonha, 5 de março de 1922 — Óstia, 2 de novembro de 1975) antes de ser assassinado.

Willem Dafoe convence num Pasolini com todos os trejeitos e expressões do verdadeiro. Transmite suas dúvidas, ansiedades e tormentos. (Só incomoda um pouco ouvir um Pasolini falando praticamente todo o tempo em inglês, inclusive com sua mãe com quem tem uma clara relação Edipiana – na versão exibida na Itália, Dafoe teve sua voz dublada em italiano).

O filme se inicia no momento em que diretor finaliza a montagem de “Saló” (seu último filme) e consegue condensar em poucos dias o período conturbado que a Itália atravessava no meio da década de 70. O diretor aproveitava sua evidência e espaço na mídia para atacar a Democracia Cristã italiana (então no poder e eleita pelo voto democrático) em seus artigos contundentes; e para denunciar o avanço de forças retrógradas em todos os campos da cultura, da política e da religião (a economia instável passava por um profundo processo de transformação ainda bastante calcado no desenvolvimento industrial).

Lembremos que foi uma época de radicalização da política entre fascistas (e suas matizes) e comunistas (e suas matizes) numa Itália que – após a tentativa fracassada de um Golpe de Estado militar apoiado pela direita no início daquela década, assistiria o surgimento das ações espetaculares das Brigadas Vermelhas – organização paramilitar de guerrilha urbana comunista. É nesse caldeirão que o cinema de Pasolini floresceu.

Ainda no filme, o diretor Abel Ferrara também se utiliza de um recurso narrativo interessante: aproveita as ideias – e anotações – do diretor registradas numa Olivetti portátil (o equivalente ao Laptop de hoje) para descrevê-las de forma imagética – como se o diretor estivesse visualizando (e dirigindo) seus futuros projetos. Infelizmente, um crime colocará fim a todos seus planos e a câmera – numa das últimas sequências do filme – procurará em sua mesa os sinais de uma vida tragicamente interrompida.

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