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Para onde se vai quando se ingressa na realidade virtual? Na rede desde o berço- 1

Pedro de Santi

No complexo e amplo campo das discussões sobre o uso de internet, coloca-se com frequência em termos negativos o quanto o recurso à realidade virtual aparta as pessoas da realidade. ‘Virtual’ opõe-se aqui à ‘efetiva’ realidade.
O mais comum é que esta observação tenha uma conotação negativa, de alienação. A imagem paradigmática é a de uma mesa de restaurante na cada pessoa está focada em seu celular, sem contato com as outras pessoas logo ali, a seu lado.
Não há dúvida de que o recurso ao telefone possa ser um recurso de fuga e evitamento de contato: como quando pessoas estranhas se vêem por algum tempo num elevador e, sentindo-se desconfortáveis ou constrangidas, mergulham os olhos em suas telas. Há também uma dimensão de dependência e entorpecimento que deve nos preocupar.
Mas gostaria de acrescentar uma dimensão psicológica em geral ignorada nesta discussão: para onde vai a mente quando se volta a seu aparato de informática?
Ao recolher seu interesse da realidade imediata e se focar na tela, a mente parece entrar num estado de transe, em maior ou menor grau. De toda a forma, entra-se num estado prazeroso no qual a experiência da passagem do tempo é também alterada. Seja lendo notícias, interagindo com mídias sociais, jogando hipnóticas variações de Candy Crush ou simplesmente deslizando erraticamente por vídeos e músicas, é fácil perder a noção da passagem do tempo.
Este espaço virtual pode ser associado a um espaço de ilusão, que muitos psicanalistas associam ao espaço transicional, constituído nas primeiras relações da criança, na espaço intermediário entre seu mundo interno e o externo. Entre a experiência de ser fundido com o outro (quem faça a função dos cuidados maternos) e a construção da capacidade de se relacionar com o mundo real.
Este “espaço entre” é nossa própria capacidade de fantasiar, o espaço lúdico e criativo que tanto admiramos nas crianças pequenas e que em boa medida costumamos perder, com o ingresso no mundo das coisas sérias do mundo adulto.
Nem texto pequeno e belo, “O escritor e a fantasia (1908), Freud caminha nesta direção ao comparar a atividade criativa ao brincar infantil. A criança mergulha em sua fantasia e leva sua brincadeira muito a sério; ao mesmo tempo, é capaz de mudar de registro e voltar à realidade compartilhada com os demais quando chamada. Diz Freud: “O adulto pode se recordar da grande seriedade com que brincava na infância, e, equiparando suas ocupações pretensamente sérias àquelas brincadeiras infantis, livra-se do pesado fardo imposto pela vida e alcança o elevado ganho de prazer proporcionado pelo humor”. Consumidos pelas demandas da vida presente, é sempre bom ser capaz de ganhar perspectiva e humor.
O psicanalista Winnicott chama isto de espaço transicional, aquele entre o fechamento em si e a capacidade de estabelecer verdadeiras relações de objeto. A criação de uma realidade interna através daquele espaço é a condição, inclusive, para a capacidade de estar só, o que Winnicott identifica como um indicador de amadurecimento subjetivo.
Desta perspectiva, ser capaz de ingressar no registro virtual representa a capacidade de distanciamento relativo, necessário que não nos vejamos perdidos e misturados com as coisas. Algo bem distinto da alienação que costuma atribuir a ele.
Pense-se no clássico quadrinho do Calvin e seu amigo, o tigre imaginário Haroldo. Naquelas tiras está expressa a seriedade do espaço lúdico, sua riqueza e a capacidade de sair dele e voltar à realidade compartilhada com a família ou a escola, quando elas o chamam.
Nosso telefones, com os quais pouco fazemos ligações, se tornam objetos transicionais, aos quais desenvolvemos um apego e, mesmo dependência, como objetos mágicos que nos proporcionam acesso àquela outra realidade. Dela, podemos saltar para contatos, relações e trabalhos, e então sairemos do outro lado da ilusão. Ou podemos nos manter eternamente dependentes e reclusos naquele espaço, mas então o espaço deixará de ser transicional para se tornar uma prisão.
Assim, ao nos deslocarmos da realidade imediata em favor da virtual, entramos num espaço de ilusão que pode sim ser um recurso aditivo de fuga, mas também pode ser o acesso ao campo dos sonhos, devaneios e utopias que nos possibilitem transcender a dura realidade imediata- especialmente dura e privada de utopias, no momento- sem nos deixarmos engolir por ela, e concebermos formas de transforma-la.

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