Pedro

Palhaço não sou?

Pedro de Santi

Pronto, já tenho o título da coluna da semana. Agora, só falta decidir se vou falar sobre a ópera “Pagliacci”- que trabalharei com o Guilherme Umeda e o Celso Cruz na próxima quinta no ciclo Ópera e paixão na ESPM- ou sobre as eleições que acontecerão no próximo domingo.

O debate de ontem, 28/09, entre os presidenciáveis na Record me proporcionou a oportunidade isolada de acompanhar os intervalos. Em continuidade: campanhas para senador e deputado, entremeadas por cremes para tirar celulite. Ronaldinho Gaúcho apareceu, pensei que fosse candidato, mas vendia spray anti-fungo nas unhas: inevitável a fantasia de aplicá-lo nos participantes do debate. Não se delimita campanhas eleitorais de campanhas de produto.

Como ponto alto, um creme que cauteriza verrugas com tal eficiência que concluí que é preciso tomar cuidado para não passá-lo sobre os mamilos. Os penteados também estavam no nível: sobretudo o do grande e respeitável Herótodo Barbeiro, que deveria trocar o dele. Há uma semana do primeiro turno: só rindo, palhaço.

Pronto, dá para falar dos dois assuntos.

Sobre “Pagliacci”, amanhã vai ser publicado aqui no Nota Alta ESPM um excelente artigo do Umeda, que diz mais do que eu saberia dizer. Sobre as eleições, há a urgência de tentar pensar a respeito e tentar engajar nossos alunos em reflexão e ação políticas. Embora pareça que voltamos a um certo desinteresse geral depois do refluxo da onda Marina, são, afinal, eleições para os principais cargos executivos do país.

A ópera de Leoncavallo estreiou em 1993, 5 anos depois de “Othelo”, de Verdi, ambas em Milão e com grandes semelhanças na história. Temos o vilão metalinguístico (que declara no início: “Eu sou o Prólogo”), ressentido e manipulador; e o marido tomado por um ciúme assassino. Mas há uma grande diferença: em “Pagliacci” a traição não é só uma representação que não corresponde à realidade. E todo a narrativa é feita da constante irrupção do real no campo representativo, desfazendo a continuidade da experiência.

Como estou fazendo o mesmo nesta coluna, volto ao título. Há nas eleições, para começar, o também metalinguístico Tiririca, que ironiza sua condição de palhaço e é líder em intenções de voto para sua reeleição: ele tem um enorme valor emblemático de nosso cinismo social. E há a estratégia de muitas campanhas políticas, que nos tratam como palhaços com sua absoluta desconsideração pela realidade nas propostas dos candidatos e nos ataques que fazem aos adversários. Tudo parece ser conduzido sem qualquer consideração pela inteligência ou memória do eleitor. Em duas semanas, nos estados em que houver segundo turno e provavelmente na eleição para presidente, estaremos iniciando uma nova campanha com a necessidade de estabelecer novas alianças com os adversários espinafrados no momento. E isto será ainda mais necessário com os mandatos em curso. Governar é isso: gerir e negociar.

Será que o marketing eleitoral nos conhece mais que nós mesmos? É possível. Os caras são bons: por dever de ofício, têm a obrigação de conhecer muito de psicologia. Mas mesmo que suas estratégias representem a realidade, é lamentável que elas reproduzam e reforcem esta mesma realidade, tão alienada e pobre. E se o meio é a mensagem, já sabemos o que esperar do governo eleito por estas estratégias para alcançar ou manter o poder.

Na última quinta-feira, dia 25/09, saiu uma matéria na Folha de São Paulo mostrando como imagens publicitárias são montadas a partir de bancos de imagem, para baratear o processo e garantir sorrisos mais…verdadeiros nas campanhas: está no Caderno Eleições 2014 e a chamada da matéria é: “Meramente ilustrativo. Para baratear campanhas, candidatos do Paraná e da Bahia usam fotos de banco de imagens em suas propagandas na TV e na internet, que mostram modelos estrangeiros como se fossem eleitores”. Uma campanha é uma representação, é claro, mas muitas vezes elas nos induzem a crer que são feitas sobre retratos e depoimentos reais. Quando o jogo da representação se revela, sentimo-nos enganados, frustrados e nos tornamos cada vez mais descrentes e cínicos. Sem dúvida, esta campanha política tem um grande poder de corroer os laços de confiança social e é profundamente despolitizante.

Reagimos como o palhaço da ópera que, mesmo reticente e triste, vai lá e se prepara para jogar o jogo. O palhaço que chora sob a máscara enquanto deve fazer os outros rirem é um tema clássico, afinal. Com grande auto-controle e resignação ele se distancia de seu sentimento, desdobra-se e canta para si em terceira pessoa: “ri, palhaço, que o público aplaudirá!” (em “Vesti la giubba”, a mais famosa ária de ópera). Mas, em meio à representação a realidade se impõe de forma ostensiva, ele explode, vai da representação ao ato e grita: “Palhaço não sou!”. O que resulta em tragédia real. Então, o vilão metalinguístico declara: “La commedia è finita!”. Em italiano, significa que a comédia acabou. Na vida real, a tragicomédia não acaba.

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