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O Regresso (Dir.: Alejandro González Iñárritu. EUA, 2015)

Eduardo Benzatti

“O Regresso” é mais um daqueles bons filmes que conta a mesma história arquetípica já tantas vezes contada: a da “jornada do herói”.

O diretor Alejandro González Iñárritu (“Birdman”, “Babel”) coloca o expectador dentro das cenas dessa jornada para compartilhar uma história visceral (em algumas cenas, literalmente visceral, e gravadas a muitos graus abaixo de zero e com a câmera tão perto dos atores que – em mais de uma vez – a respiração desses embaça a lente!) – a fotografia é deslumbrante.

DiCaprio (numa grande atuação) é Hugh Glass, um guia para homens que caçam animais em uma região dominada por uma etnia indígena que defende seu território matando todos os americanos – ou não – invasores. Estamos nos Estados Unidos de 1820. E como o homem/herói sofre: atacado por um urso, abandonado para morrer, perseguido pelos índios; passa frio, fome, cai do penhasco, toma facada (só pelo sofrimento DiCaprio já deveria levar de vez esse Oscar que nunca conseguiu: o de melhor ator). E tudo isso para ir atrás de John Fitzgerald (Tom Hardy) e vingar a morte do seu filho. É muito bom ver um ator envelhecer, ficar maduro e abandonar a carinha de astro Hollywoodiano.

O vilão John Fitzgerald é apenas mais um homem lutando pela sobrevivência naquele mundo hostil e suas ações são objetivas e até coerentes (do seu ponto de vista), ou seja, não se trata aqui de uma história onde mocinho é mocinho e vilão é vilão. Cada qual faz o que é possível numa terra sem leis – ou com leis (cultura) muito estranhas para quem vive quase que fundido na natureza (há uma cena belíssima – muito simbólica – em que Glass para sobreviver retira todas as vísceras e órgão internos de um cavalo para – literalmente – “entrar dentro” do seu corpo visando não morrer de frio. Homem, animais, natureza se fundem numa coisa só).

E assim segue a jornada desse herói tão bruto e violento quanto o vilão que persegue. E assim segue o filme: ora num ritmo frenético, ora numa contemplação de tirar o fôlego tamanha é a beleza da paisagem que parece pouco ligar para os humanos que tentam nela viver ou sobreviver. (As cenas oníricas também são lindas: sonhos, êxtases, delírios). A experiência é visual e sonora – trilha, sons da natureza, gritos humanos -, enfim tudo corrobora para o espectador “estar lá” no meio do nada, no meio de tudo. Poesia visual de duas horas e meia. Vai conferir?

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