O papel da abstração e da lógica no desenvolvimento da capacidade analítica

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Ulrich Hoffmann

O que nos transforma em profissionais de nível superior é a nossa capacidade analítica. Somos também técnicos: aprendemos a aplicar procedimentos adequados a circunstâncias determinadas. Mas nosso papel principal não é conhecer e aplicar receitas. Nosso papel é superior: é desenvolver e formular receitas. É ter capacidade analítica para entender a realidade, sempre nova e mais complexa, e propor soluções criativas para resolver novos problemas e enfrentar novas oportunidades.

Somos formados para entender, para modelar novas realidades. E para esse entendimento temos duas ferramentas vitais: a abstração e a lógica. Vejamos o que Darwin diz a respeito: “Ninguém pode ser um bom observador se não for um teorizador laborioso”. Com esta frase nosso evolucionista quis advertir que não basta ficar ao nível dos fatos, das aparências. É necessário entender o que está acontecendo. Buscar identificar as relações de causa e efeito que explicam os fatos. Darwin, que era também botânico, criticava os colegas do seu tempo por restringirem seus estudos à minuciosa descrição das plantas. No seu esforço teorizador ele, entre outras contribuições, esclareceu o funcionamento da sexualidade nas flores.

Para melhor entender o papel da abstração, e concomitantemente da lógica, vamos usar uma metáfora, uma comparação. Vamos classificar os níveis de abstração em tipos como se fossem 3 andares.

O 1º. andar seria o espaço da relação direta com a realidade. Os conceitos são relativamente simples, ficam ao nível das aparências, sem grandes abstrações; é a comunicação concreta, simples, popular. É interessante constatar que os esquimós (os inuítes) têm meia dúzia de palavras para designar a neve; não sinônimos, mas palavras relacionadas a cada tipo de neve. Neve é já uma importante abstração; até porque não existe a neve, mas sim os seus diferentes tipos.

No 2º. andar estariam todas as generalizações, principalmente nos diferentes campos do conhecimento. É o espaço do rompimento com as aparências e a busca pelo entendimento da essência dos fenômenos. É o campo das leis científicas: a fórmula do pêndulo, o teorema de Pitágoras, o complexo de Édipo, as previsões climáticas.

E o 3º. andar? Ai estão as generalizações das generalizações. Vale para qualquer campo do conhecimento o fato de que o acúmulo de variações quantitativas termina por gerar mudanças qualitativas. É o espaço da lógica formal e da lógica dialética. Enfim é o campo das relações mais abstratas, mais gerais; aquelas que valem para todas as áreas do conhecimento, para todas as ciências. Dentro dessas relações ou constatações mais gerais, temos que ter claro que tudo está sempre mudando, são sistemas em processos em desenvolvimento, processos esses cujo devenir é determinado pelo comportamento de algumas poucas variáveis.

Para melhor compreender a questão dos diferentes níveis de abstração, um bom exemplo é o caso de uma criança com febre alta.

Qualquer mãe sabe que se a temperatura do seu filho adoentado começar a subir ela tem que fazer alguma coisa: controlar e buscar baixar essa temperatura por meio de compressas ou algum antitérmico. Esse “saber” da mãe é prático, concreto. É como uma receita: é assim que tem que ser feito. Esse é o 1º. andar, das coisas concretas, pouca abstração.

Estaremos no 2º. andar se um médico, ou mesmo uma mãe mais instruída, analisar o problema sabendo que o corpo humano não sobrevive fora de uma faixa pequena de temperatura que vai dos 35 ºC aos 40 ºC. Esse 2º. andar é o andar da teoria, das ciências, da capacidade analítica nas diferentes áreas do conhecimento humano.

Mas esse mesmo problema pode ser tratado em um 3º. andar, o da teoria da teoria, o das leis gerais do conhecimento, o da lógica. Umas das leis da lógica dialética diz que o acúmulo de mudanças quantitativas termina por gerar mudanças qualitativas. Aumentando muito a temperatura do corpo advém a morte.

Esse 3º. andar trata de um campo limitado do pensamento humano: o da teoria da teoria, o das categorias, o da lógica e da dialética.

E nesse 3º. andar é difícil ficar. Nossa pressa, nossa ansiedade, nossa cultura pragmática nos faz cair, rápido e inconscientemente, para o 2º. e o 1º. andar.

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