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O menino do balão pink e outros retratos da FLIP 2014 (Parte I)

Celso Cruz

1.

Andrew, aos seis anos, queria um balão pink. Aos vinte e sete, perdeu a mãe e ficou três horas na frente do telefone sem conseguir ligar. Depois, escreveu sobre depressão e sobre pais e filhos. Encontrou nas palavras de seus entrevistados, sobreviventes de massacres em Ruanda ou dos horrores dos campos de concentração, um denominador comum para os processos de resiliência, uma palavra: amor.

2.

Adriana diz que dormiu no quarto de Pessoa e que, de manhãzinha, sobre a mesa do poeta, de pé, como Fernando fazia, rabiscou nos originais as ilustrações de sua antologia de hai kais. Falou também de seu surto psicótico em terras portuguesas, narrado no livro Saga Lusa – não uma catarse, disse ela, mas um modo de organizar a experiência.

3.

Contardo disse que a estrutura da personalidade é uma teia de sulcos que a vida risca. Quando chove, é por ali que a água pode correr.

4.

Pérsio desapareceu um tempo nas galerias da OBAN. Quando soube que seus pais, enfim, descobriram onde ele estava, sentiu alívio. Antes, não custava nada matá-lo. Aliás, seria até econômico.

5.

A irmã e o cunhado do Bernardo foram parar naquela casa em que os hóspedes eram esquartejados e queimados, até que sobrasse só pó, para que mesmo quase cinquenta anos depois continuasse a tortura.

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