O Jovem Karl Marx. (Dir.: Raoul Peck. França, Alemanha, Bélgica, 2016) | Nota Alta ESPM

O Jovem Karl Marx. (Dir.: Raoul Peck. França, Alemanha, Bélgica, 2016)

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Eduardo Benzatti

“Jovens do mundo inteiro, uni-vos!” 

O filme “O jovem Karl Marx” deveria se chamar “Os Jovens Marx e Engels”, pois antes – assim me pareceu – ser esse o tema principal do filme de Raoul Peck (que já foi até Ministro da Cultura do Haiti nos anos 90!): a amizade de dois jovens inconformados com as desigualdades do mundo – no caso a Europa de meados do século XIX – em que viviam.

Alguém já disse – não me lembro onde – que ser jovem é ser inconformado com o seu tempo e lugar (ainda que não me parece ser essa a “marca’ da juventude desse início de século). Todas as “grandes revoluções” sociais e políticas – e por que não dizer as “tecnológicas” – tiveram os jovens como protagonistas.

Talvez por isso o filme termine com um Marx de 30 anos se queixando de já estar cansado! Lembrando que no século XIX ter 30 anos já era estar entrando na segunda e última metade da vida (o filme abrange o período do logo após doutoramento de Marx (1841) até a escritura, junto com Engels, do “Manifesto do Partido Comunista” (1848). A trama tem duas camadas: uma mais superficial e linear que é a parte histórica: Marx e as eternas dificuldades familiares – sempre sem dinheiro para possibilitar uma vida minimamente digna à sua mulher e filhas (aí entre o burguês Engels bancando grande parte das despesas da família do amigo), Marx sendo expulso de todos os países onde residia – por conta de suas atividades e escritos “subversivos” em defesa do proletariado – e como cenário disso tudo a situação de penúria e exploração da classe trabalhadora europeia nessa fase da Revolução Industrial.

A outra camada é a, digamos, “filosófica” (aí o “bicho pega” e o espectador precisa ter alguma “referência cognitiva” para entender as muitas discussões entre “socialismo utópico” e “socialismo científico”; entre o idealismo, o “materialismo hegeliano” e o “materialismo histórico”; entre a visão de sociedade de Proudhon – e seus seguidores -, a dos anarquistas e socialistas do período e a dos “novos revolucionários”, os comunistas marxistas… e tudo isso apresentado em pequenos diálogos e em rápidas discussões políticas!).

Enfim, para quem gosta de história, sociologia e filosofia, “O jovem Karl Marx” é daqueles filmes que “tem que ser visto”. Panfletário? Claro, como qualquer filme sobre uma obra que tomou posição o é. Que bom que nesses tempos “insonsos” os filmes tomem posições. Os jovens de hoje – principalmente eles – poderiam tomá-las ainda mais.

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