O jovem e a desesperança da vida adulta | Nota Alta ESPM

O jovem e a desesperança da vida adulta

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Pedro de Santi

Nestas próximas duas semanas, a ESPM vai promover dois eventos com o tema acima para discutir um momento delicado e preocupante relativo aos jovens e sua perspectiva de futuro. No dia 09/08, haverá às 19:00 hs um encontro dedicado a coordenadores de escolas de segundo grau. No dia 18/08, às 9:00, outro encontro, desta vez dedicado a pais de alunos do segundo grau.

A ESPM se coloca em posição de colocar estes temas em discussão, uma vez em que ela se apresenta como um próximo passo da vida de um jovem daquele perfil.

O disparador destas discussões é a sequência de notícias que temos tido, envolvendo o suicídio de jovens, tanto do segundo grau quanto universitários.

As histórias de cada um destes episódios tristes são singulares e, seguramente, não saberemos o que levou especificamente àquele desenlace.

Mas é claro que a proximidade dos episódios nos questiona e desafia à reflexão sobre a possibilidade de que se trate de um sinal, um sintoma de uma dinâmica social mais ampla.

O sofrimento que podemos conceber em cada um dos jovens, suas famílias, amigos e educadores é enorme. Diante dele, nossa fantasia cria instantaneamente sentidos e temores de um efeito epidêmico. É preciso compreender o que se passa e então passar a identificar sinais que permitam interceder antes de um desenlace fatal.

Como sabemos, não lidamos bem com a incompreensão e falta de sentido. Precipitamo-nos a acionar explicações de acordo com nossas ideias anteriores, o que dificulta o trabalho de pensamento e aprendizado.

As notícias divulgadas pelas mídias oficiais e sociais costumam vir já interpretadas: a culpa é da depressão, do excesso de acesso à tecnologia, das drogas, da cultura neoliberal, do excesso de mimo ou de exigências, dos imperativos de se obter sucesso e felicidade, de desequilíbrios químicos no cérebro, etc. Cada um deste caminhos interpretativos pode ser interessante, mas as conclusões apresentadas são idênticas às premissas que cada um já trazia, de antemão. Quando isto acontece numa interpretação ou pesquisa, justifica-se a suspeita de que o fenômeno esteja sendo apenas usado, a serviço das crenças do intérprete.
Há grandes problemas derivados deste “excesso de conhecimento” propagado pelas mídias: em primeiro lugar, ele simplesmente não pode ser verificado pela ausência do principal implicado; e ele estigmatiza grandes grupos de pessoas, por uma racionalidade invertida e simplificada que não faz sentido. Se associamos suicídio à depressão, por exemplo, imediatamente olhamos para depressivos como suicidas em potencial. O peso deste estigma oprime ainda mais aqueles que sofrem das afecções indicadas.

Dr. Google teve como um de seus efeitos de difusão de informação o uso de categorias psicopatológicas fora de contexto por pessoas não formadas para lidar com elas. Uma vez, mais, depressão (assim como dependência, psicopatia, dislexia, déficit de atenção, transtorno de humor, TOC, etc) são respostas acionadas de forma simplória para reduzir o sofrimento de alguém a uma categoria impessoal, que parece poupar a pessoa de um julgamento moral, mas retira dela a condição de sujeito: “É a doença que a leva a ser assim”.

Tudo isto parece livrar-nos do enigma sobre o que pode levar alguém a tirar a própria vida, mas não ajuda de fato a entender o que se passou e ainda cria um ambiente onde o sofrimento humano fica reduzido a psicopatologias.

Nos últimos anos, muitas vezes fui convidado como professor e psicanalista para falar a respeito destas situações. Sempre há a demanda por uma explicação psicopatológica e pelas formas de identificar sinais preventivos.

Se não temos acesso ao mundo interno daqueles que tiraram suas vidas e não temos como prever com segurança quem está sob risco real de faze-lo, podemos ao menos nos voltar para o sofrimento que nos é próximo. O sofrimento dos pais, educadores, psicoterapeutas. O horror e desamparo vivido por aqueles que passaram por esta situação e se sentem culpados e fracassados em apoiar aquela vida que se perdeu; a aflição e insegurança daqueles que temem passar pelo mesmo e buscam por alguma forma de controle ou prevenção.

Tenho procurado reverter o ponto de vista proposto a mim. Ao invés de dar respostas toscas e apenas apaziguadoras, parece melhor fazer um caminho reflexivo. Ainda que isto seja frustrante para quem espere repostas imediatas, talvez permita lançar luz sobre um aspecto da questão que costuma passar desapercebido, embora nos seja mais próximo e acessível: ao invés de perguntar pelo jovem, perguntemos o que nós, adultos, temos oferecido a eles como perspectiva de futuro?

O termo ‘adolescente’ deriva do latim e significa ‘em crescimento’; correlato do termo ‘adulto’, ‘crescido’. É em nossa direção que eles estão vindo e têm seus olhos voltados para nossas vidas como modelos para cumprirem sua travessia.

Tudo indica que, quando jovens olham para o futuro, o que tem visto é um grupo predominantemente desgostoso com a própria vida.

Todos dizem que ingressar no ambiente profissional é muito difícil, que não temos ideia do que será o mercado profissional em dez ou vinte anos, que aqueles que trabalham e querem permanecer assim têm que ter uma disponibilidade 24 x 7 para seus empregos. Alguns tentam dourar a pílula e reverter este quadro em “oportunidade para empreender”, mas para as pessoas em geral o recado não é bem este.

Mais recentemente, tem-se noticiado que o índice de desemprego tem caído, nem tanto pelo surgimento de vagas, mas também pela desistência da procura, por parte de muitos; chamados de ‘desalentados’.

Então, acrescenta-se o campo da vida familiar. Frequentemente fala-se sobre a insatisfação com o casamento, com o custo alto de educar os filhos, com as oportunidades individuais perdidas em nome dos vínculos familiares.

Temos então um quadro social maior. Sabemos que, historicamente, é um privilégio estarmos vivendo numa democracia, mas a proximidade das eleições para presidente e governador neste ano mostra um quadro dramático. No dia em que escrevo este texto a pesquisa CNI/IBOPE aponta um índice de 59% de intenção de votos brancos, nulos ou indecisos (http://www.jb.com.br/eleicoes-2018/noticias/2018/08/02/pesquisa-cni-ibope-sem-lula-jair-bolsonaro-lidera-corrida-presidencial/). E quase metade das pessoas está pessimista com relação ao resultado das eleições.

Num espectro mais amplo, sabemos que há grandes contingentes de depressão e apatia infligindo grupos cada vez maiores. A experiência de desalento, parece cobrir uma área maior do que a daqueles que desistiram de procurar colocação profissional.

Em nossa ficção, tão ligada a séries, uma temática recorrente é a distopia pós apocalíptica. É quase um fetiche a ideia de um fim do mundo e a reconstrução por poucos. Estamos longe das utopias de maio de 1968.

À luz de tudo o que disse acima, claro que não ofereço esta reflexão como resposta, mas proponho algo. Entre o tempo do trauma e enigma dos suicídios de um lado e, de outro, o tempo da publicação de respostas e sentidos, acrescentemos um terceiro, intermediário: um tempo de reflexão.
A partir de nossas próprias inquietudes, talvez possamos adquirir alguma empatia pelo sofrimento dos mais jovens, ao invés de encaixar e encerrar aqueles casos de suicídio como casos patológicos, que não teriam nada a nos ensinar sobre nossa a qualidade de vida, ou falta de.

Quem sabe, a partir do contato mais próximo com a experiência dos jovens, poderemos voltar a sonhar e vislumbrar futuros como horizontes para uma vida mais satisfatória para nós e nossos filhos?

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