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O homem da música

Cesar Veronese, Professor do CPV Vestibulares

Houve uma época, não tão distante, em que as pessoas compravam discos. Este vinha dentro de uma capa que, por sua vez, encerrava um encarte com as letras das canções, fotos do artista e, às vezes, até algum elemento lúdico. O disco era concebido dentro de um conceito, as músicas eram dispostas em lado A e lado B e a disposição tinha um porquê, contava uma história, destacava alguma ideia sobre a qual o intérprete queria chamar a atenção.

Comprar um disco era adquirir um objeto de arte e todo esse aparato funcionava como uma antesala para se chegar ao universo do artista. Ouvir um disco com um grupo de amigos significava também sentar-se em roda e ficar admirando as capas e os encartes. E no Brasil, desde a década de 50, muito da música que se ouviu foi uma importante fatia do que de melhor se fez no planeta. Entre tantos artistas, produtores, empresários e diretores artísticos, o nome de André Midani é uma referência obrigatória.

Sírio que cresceu em Paris, Midani aportou no Rio de Janeiro em 1955 e fez a história da moderna MPB. Foi ele quem saiu com um disco embaixo do braço, em 1958, tentando convencer programadores de rádio que ali estava uma música original. Ouviu coisas como “isso é música de veado”, mas não desistiu e conseguiu fazer aquele longplay emplacar nas rádios. O disco era CHEGA DE SAUDADE, do João Gilberto, e inscreveu a bossa nova no circuito internacional das artes.

Passando por várias gravadoras, Midani conquistou o cargo de diretor da divisão da Philips no Brasil, onde foi o responsável número um pela promoção de artistas como Elis Regina, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Nara Leão, Milton Nascimento, para citar meia dúzia de uma lista que vira os três dígitos. Anos depois ele se tornaria o descobridor do Kid Abelha, Ultraje a Rigor, Titãs, Lulu Santos e dezenas de outros. Fernanda Torres sintetiza bem: “Midani foi fundamental para que não acontecesse com a MPB o mesmo que se passou com o cinema brasileiro, eterno artesanato acachapado pelo grande cinema internacional. Graças à sua sensibilidade, pude ouvir Lulu, Rita Lee e os Titãs, em pé de igualdade com os Rods, os Micks e afins”.

Trabalho semelhante ele desenvolveu por toda a América Latina, tendo sido responsável pela direção simultânea da Warner em 14 países, nos quais descobriu e promoveu talentos do porte de Luis Miguel, ou Chavela Vargas, ídolo da música mexicana, que ele reencontrou como mendiga e relançou-a com enorme sucesso. Essas e outras histórias estão na excelente autobiografia MÚSICA, ÍDOLOS E PODER – DO VINIL AO DOWNLOAD, lançado em 2008 e que acabei de ler com um certo atraso. O livro é a história do sucesso profissional de Midani num mundo em que o lucro é uma exigência. E como diz o próprio autor no prefácio: “Escrevi a história de um homem que buscou manter o equilíbrio entre o sagrado (a música) e o profano (o lucro). Escrevi a história de um homem fascinado pela personalidade dos artistas – sem fronteiras culturais ou geográficas”.

Esse mundo encantado do disco foi mortalmente ferido com a pirataria que passou a tomar conta do mercado a partir do início dos anos 2000. Ouvimos dizer com frequência que as gravadoras não fizeram nada. O argumento não é de todo verdadeiro. As gravadoras se mobilizaram, Midani foi outra vez uma peça chave na luta contra a pirataria, mas foi ignorado pelas autoridades brasileiras, como o chefe da Polícia Federal, que lhe respondeu que só estava interessado em policiar cigarros e whisky.

Os cabeças da pirataria foram Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural: “Ao resolver acabar com a Revolução Cultural, Mao precisou do apoio dos generais responsáveis pela ordem nas províncias chinesas. Em troca, os generais obtiveram autorização para desenvolver negócios pessoais à margem do Estado e da economia socialista. Uns vinte anos depois, esses generais tinham criado centenas de empresas que fabricavam e vendiam desde armas, cigarros e vídeos até CDs, além de, em alguns casos, controlar a prostituição e a venda de drogas”. Explicações detalhadas desse processo estão no capítulo 46 do livro, disponibilizado na íntegra na internet.

MÚSICA, ÍDOLOS E PODER, cujo projeto gráfico da capa é uma obra de arte, é para ser lido agora, mesmo que seja num download.

Para ler outros textos do Prof. Veronese, acesse blog CPV (link Dicas Culturais do Verô).

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