O fim da comida

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Aníbal Azevedo, Diretor do Cursinho Intergraus

Você é capaz de preparar uma tigela de miojo, uma panelada de arroz, fritar ovos? Ou aventura-se por pratos complicados, risotos, suflês, assados? Qualquer que seja seu grau de familiaridade com o fogão, deve saber que cozinhar dá trabalho.

Quem permanece por longas horas no escritório, ou mora sozinho, acaba virando freguês de restaurantes, lanchonetes, ou do balcão de refeições congeladas. Isso explica a rápida expansão de estabelecimentos que oferecem repasto por quilo ou a preço fixo. E o sucesso das redes de fast food, que oferecem, a preços baixos e em quantidades excessivas, os quatro alimentos, aos quais nossa história evolutiva torna quase impossível resistir: proteínas animais (dois hambúrgueres), gorduras (carne moída frita, batatas fritas, queijo cheddar), carboidratos (pães, batatas, o xarope de glicose nos molhos e no catchup) e sal, muito sal. Coisas que faltavam na savana e que não podíamos desperdiçar quando as encontrávamos. Mas que, em tempos de abundância, resultam em obesidade, problemas cardíacos e câncer.

Mas muita gente também precisa simplificar e restringir a dieta. Atletas, diabéticos, alérgicos e religiosos, entre outros, devem evitar certos alimentos. Astronautas permanecem meses na Estação Espacial Internacional, a 400 km de altura, e não têm frutas frescas no cardápio. Além disso, a alimentação em ambiente de baixa gravidade apresenta vários problemas técnicos; líquidos e partículas sólidas podem se espalhar pelo ambiente e inadvertidamente alojar-se em pulmões ou circuitos delicados. Uma excreção segura também é complicada e desconfortável (geralmente usa-se algo semelhante a uma fralda geriátrica). Por isso, os ocupantes da estação espacial alimentam-se de pastas especiais, que lhes permitem absorver sem risco os nutrientes necessários e produzir o menor volume possível de dejetos orgânicos. Raciocínio parecido aplica-se à alimentação de tropas na frente de batalha.

Rob Rhinehart, um nerd típico do Vale do Silício, debatia-se com os mesmos problemas. Atrasado em seu projeto de startup, não queria perder horas de concentração e de trabalho produtivo preparando refeições; além disso, o dinheiro andava curto e o tipo de take out com que podia arcar — pizza, hambúrgueres, comida chinesa — não era exatamente saudável. Começou a ler sobre alimentação e chegou à conclusão de que era possível criar algo semelhante a uma excelente ração para cães ou gatos — só que adaptada às necessidades humanas. Afinal, o corpo precisa apenas de carboidratos, gorduras, proteínas, vitaminas e fibras solúveis (além de alguns microelementos, como zinco) para sobreviver. Rhinehart e seus amigos adquiriram os insumos necessários, experimentaram com as proporções e batizaram a mistura final de Soylent (Soylent Green é o nome de um filme cult de 1973 em que, numa Terra superpovoada e à beira da inanição, as pessoas contam exclusivamente com uma ração à base de soja e lentilhas para seu sustento). Os amigos publicaram a fórmula na internet e a repercussão foi enorme.

O passo seguinte foi óbvio: um angel investor (investidor que se ocupa de projetos novos e promissores) entrou com capital suficiente para que Rhinehart conseguisse industrializar e distribuir sua fórmula. Hoje, seu elegante site, www.soylent.me, mal dá conta de atender o mercado americano (e promete expandir-se, em breve, para outros países). A revista americana The New Yorker chegou a chamar o produto de o fim da comida.

O Soylent é fácil de preparar (basta misturar um saquinho de pó a um frasco de óleo), supersaudável (contém exatamente o número de calorias e as quantidades de proteína, carboidratos, sódio, fibras, etc. diários recomendados pelos nutricionistas), barato (menos de R$ 5,00 por refeição) e rápido para consumir (não é preciso mastigar) — mas não é perfeito: tem gosto e consistência de massa para panqueca antes de ser cozida.

Isto é, o Soylent fornece, de maneira fácil e econômica, tudo o que uma refeição sofisticadamente equilibrada pode proporcionar, menos os prazeres do sabor e da textura.

Ironicamente, no filme de 1973, entre as variedades insossas do biscoito de soja e lentilha, existe uma, de cor verde, verdadeira preferência nacional. Ao final da história, descobre-se que ela é tão única por conter carne — humana, de cadáveres frescos.

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