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O Clube (Dir. Pablo Larreín, Chile, 2015)

Eduardo Benzatti

Ao assistir “O Clube” dá para entender o porquê do novo filme de Pablo Larraín (diretor do belo “No” de 2012) ter levado o Grand Prix do Júri do 65o. Berlin International Film Festival – o segundo festival de cinema mais prestigiado depois de Cannes. O filme é fascinante e está entre os três melhores que assisti esse ano na categoria “Drama”.

O “clube” é na realidade uma casa no litoral chileno onde os padres excomungados da Igreja Católica que cometeram algum tipo de desvio são enviados. Um misto de asilo e prisão onde devem permanecer longe de suas paróquias para que possam refletir sobre suas culpas e as expiarem pela via da penitência. Que é exatamente o que eles não fazem.

Lá – isolados do mundo em sua micro-comunidade – exercitam os setes pecados capitais (Gula, Ganância, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça e a Soberba) e outros tantos, seja nas suas ações ou em pensamentos. Tudo vai bem na dinâmica do funcionamento desse grupo até a chegada de outro padre (esse acusado de pedofilia) – no clube também há padres acusados de pedofilia, homossexualismo, cumplicidade com os assassinos da Ditadura Chilena, um outro que doava crianças de jovens mães que engravidavam e não as queriam criar, um outro que perdeu – ou finge ter perdido – a memória, e uma mulher – quase freira – que decidiu ir para lá cuidar de todos eles depois que também foi acusada de espancar uma filha adotiva.

A chegada nessa comunidade costeira desse novo padre traz consigo outra personagem. Seguindo-o está um rapaz que foi abusado por ele desde a infância e hoje vive de cidade em cidade bebendo e acusando todos os padres que o violentaram – a complexidade da loucura é tão grande que ao mesmo tempo em que esse personagem odeia e quer a punição do padre pedófilo, também o ama e deseja continuar sendo serviçal sexual dos outros padres.

De acontecimento em acontecimento – não quero contar e estragar as surpresas que esperam quem bancar a assistir esse incômodo filme -, chegará também na casa um padre-psicólogo incumbido pela Cúria Romana de investigar o que lá se passa. Com a ficha de cada um daqueles padres tentará obter a confissão sobre os crimes que lhes são atribuídos.

Aí poderemos entender o ponto-de-vista dos membros do clube sobre a Igreja e suas hipocrisias, suas posições antagônicas, suas mentiras, seus medos. E mesmo esse padre-investigador (representante da nova postura das autoridades cristãs em relação aos padres desviantes em tempos de Papa Francisco) será penetrado pelas dúvidas e entenderá o quão difícil é fechar um clube dessa natureza, onde a doença psíquica e espiritual de cada um se complementa na do outro.

Será também cúmplice e testemunha do sacrifício de cachorros de corrida (Galgos) – se no passado sacrificávamos cordeiros para nos purificarmos da culpa, hoje são os cachorros os escolhidos -, realizado com o objetivo de criar “um bode expiatório”: o pobre e perturbado rapaz, vítima sodomizado no corpo e na alma pelos padres.

Mas, o final é tão inesperado – pelo seu desfecho e sarcasmo – ao levar em conta não a justiça ou a moral dos homens do mundo exterior, mas as regras daqueles pobres doentes e da comunidade que criaram. Permanecerem no clube – agora na companhia da vítima que ofenderam – será a punição adequada. Tudo isso mostrado através de uma película esmaecida, porosa que privilegia a penumbra ou a falta de luz (muitas cenas acontecem ao nascer ou ao pôr do sol; quando não a noite) externa ou interna – da casa.

Eis um impressionante filme – seus diálogos são uma aula de teologia, filosofia, sobre o que é moral e amoral; seu roteiro é enxuto – que demonstra mais uma vez a força do cinema latino-americano, no qual ultimamente o Brasil ocupa um lugar sem grande destaque. Se você gosta de apreciar um grande filme, não o perca.

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