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O bom combate com bom debate: a ética nas discussões acaloradas

Carlos Frederico Lucio

O atual cenário eleitoral brasileiro, na polarização personalista Dilma x Aécio (expressões do antagonismo dos grupos PT x PSDB), tem sido o grande palco para o afloramento de ódios latentes e tensões acumuladas ao longo dos últimos anos. A arena dos temas políticos clássicos (as pautas social, econômica, cultural, etc.) tem dado lugar a discussões e até mesmo xingamentos que desqualificam de forma vazia, preconceituosa, estereotipada e sem sentido os interlocutores dos dois lados. E isso vem provocando um seu claro esgotamento o que tem desestimulado muita gente de fazer o bom debate (aquele pautado em valores, ideias, propostas…), sempre necessário. E a democracia acaba perdendo.

Pensando nisso, propus ao meu colega e amigo Pedro de Santi que escrevêssemos uma dobradinha (ele pela Psicanálise; eu, pelas Ciências Sociais) para tentar contribuir para entender um pouco o que acontece e propor, quase quixotescamente, que direcionássemos nossas lanças, não para moinhos imaginários que alimentam o ódio, mas para, pelo menos, compreender o processo de seu engendramento de forma mais objetiva. Desta maneira, voltaríamos a situar o debate onde ele precisa estar: na arena política propriamente dita (ideologias, propostas de governo, no campo político, social, econômico, cultural etc. Vou abordar aqui alguns aspectos complementares à sua análise do ponto de vista da minha especialidade. (Cf. o texto do meu colega Pedro de Santi Ódio, recusa e narcisismo das pequenas diferenças.)

Que as mídias sociais (em particular o Facebook) hipertrofiam, pro bem ou pro mal, aquilo que vivemos nas nossas relações cotidianas é um truísmo e isso fica muito evidenciado nos contextos que geram debates polêmicos e que despertam paixões acirradas. Com a peculiaridade de que transpomos, de forma quase direta, discussões outrora orais e presenciais (e circunscritas a pequenas esferas), para o registro amplamente público e quase que perene do quê e do como falamos. Principalmente do como. Com um agravante típico das mídias sociais: tudo fica ali registrado para um público que via de regra é amplo e transcende para além da minha própria rede de amigos.

E onde há debate acalorado, principalmente a respeito de temas muito antagônicos, cria-se o cenário fértil para manifestações de nossa passionalidade, de nossas emoções, comprometendo o tênue equilíbrio da natureza dialética daquilo que é mais profundamente humano, como bem nos ensinaram os antigos gregos: razão e paixão. Nós somos seres passionais e, em situações de conflito, quase sempre nos entregamos facilmente às paixões mais negativas. Muito mais facilmente somos dominados pela ira, pela raiva, pelo ódio do que pelo amor, a serenidade e a temperança. Isso nos desequilibra, nos desorienta. Mas também somos seres racionais, característica que, quando bem exercida, pode nos devolver o rumo, temperar nosso comportamento, trazendo-nos de volta o equilíbrio. Este é o profundo sentido da Ética, quando os gregos a inventam na antiguidade. A nossa razão põe um freio em nossas paixões, orientando nossos atos para o bem. Do contrário, como bem nos mostram Hobbes e Freud, tornamo-nos propensos, quase que “naturalmente”, a conflitos. No ambiente das mídias sociais, é como se potencializássemos a expansão dos efeitos nocivos desses conflitos passionais.

Esta certamente é uma das eleições mais polarizadas que tivemos desde o período da redemocratização encarnado pelo embate Collor x Lula, em 1989. Com um grande diferencial que, no meu entendimento, é o principal responsável pelo aumento da sensação de incômodo que o arroubo passional dos antagonismos políticos sempre provocam (não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo): se naquele momento, contávamos apenas com o mass media para poder veicular informações que alimentariam as discussões presenciais em pequenos grupos, hoje temos o cenário daquilo que em outro texto chamei de “Ágora eletrônica“, ou seja, um espaço amplo e praticamente irrestrito das manifestações de opiniões, não mais por meio da fala, mas por meio da escrita. Com isso, ampliam-se as fontes de informação (antes restrita aos mass media) assim como ampliam-se os grupos de discussão quase que ao infinito. Aumentando as fontes de informações, aumentamos o potencial de geração de mitos; ampliando-se os grupos de discussão, potencializamos os conflitos.

Como neste cenário cabe tudo, ele se torna um terreno fértil para o acirramento das emoções e manifestações de ódios e intolerâncias. E, assim como nas manifestações de rua de 2013, tomadas por esses sentimentos, a despeito de sua legitimidade inicial, estamos chegando a um certo esgotamento de ver se proliferando tantas manifestações do mesmo espírito. Aqui especificamente, o verdadeiro debate político (argumentos econômicos, sociais, ideológicos etc.) tem ficado em segundo plano. E, é sempre bom resgatar, este é o ponto mais importante de qualquer processo político-eleitoral. Construímos um paradoxo: sentimos tanta falta da prática da cidadania que, no momento em que temos oportunidade de verdadeiramente concretizá-la, parece que enfiamos os pés pelas mãos.

Uma das características dos processos eleitorais no mundo democrático contemporâneo é que as escolhas não são feitas sobre indivíduos mas sobre grupos. Embora nós brasileiros tenhamos a tendência personalista de associa-lo a uma determinada “pessoa” (discutindo nomes, não propostas ou ideologias), frequentemente nos esquecemos que esta pessoa representa um grupo, uma coletividade. Quando estas coletividades se traduzem em grupos configurados e antagônicos, o cenário para a construção de uma relação de alteridade bem polarizada e conflituosa se cria: parece dividir a sociedade num “nós” frente a um “eles”. Este mecanismo é tão antigo quanto a humanidade. Seguindo a linha de interpretação narcísica (aqui usada como metáfora, apenas como um instrumento metodológico para tentar escapar de um certo etnocentrismo na interpretação) sugerida pelo Pedro, a construção de nossa identidade como indivíduo necessita da vinculação a um grupo para poder se consolidar. Isso é expresso por nossas características supostamente individuais mas que nos ligam a este grupo: desde o nosso nome, passando pela língua que falamos, religião que professamos, valores morais, etc. Essa sensação de vinculação e pertencimento a um grupo é que, de certa maneira, nos fornece o alicerce sobre o qual se edifica aquilo que passará a constituir a nossa identidade como indivíduo (contra a qual podemos até “lutar” mais tarde, no nosso processo de construção de escolhas; mas sempre referenciado nesse grupo ao qual pertencemos). Negá-lo é afirmar-lhe a existência.

Nesse processo, “eu” e “outro” são categorias construídas numa oposição dialética e interdependente. Não existem isoladamente na medida em que não têm um sentido substantivo, essencialista. Isso é o que, na teoria da identidade em Antropologia se configurou como o conceito de “identidade relacional” ou seja: o “eu” (ou o “nós”) só existe na medida em que se toma consciência da diferença (da distinção) com relação a um “outro”. É assim que este mecanismo tem garantido uma certa dinâmica na construção da identidade, coisa que a antiga e obsoleta abordagem substantivista (ou essencialista) não permitia. Dependendo do meu oponente, eu posso acionar mecanismos variados para construir uma distinção a fim de garantir que eu não seja confundido com este outro. Em última instância, para eu me definir como um “eu”, é necessário (até por uma questão onto-lógica) que eu, pelo menos simbolicamente, exclua o outro: ele não sou eu. O problema é que temos a tendência de entender a simples diferença entre “eu” e “outro” como uma desigualdade: esta exclusão, não raro (mas não necessariamente), vem acompanhada de um sentimento de diminuição e até mesmo por um ódio a esse outro. Ele é inferior. Quando isso acontece, o cenário para o conflito está estabelecido. E, a depender do modo como ele se desenvolve, a violência (física e/ou simbólica) é quase inevitável.

Este mecanismo é uma constante em todos os grupos humanos (seja em que época e/ou local). E é necessário como um seu fator de aglutinação (e consequentemente separação com relação aos outros). E a depender da sociedade, operam por mecanismos bem distintos (desde as redes de parentesco, passando pela crença religiosa ou aquilo que se convencionou chamar de etnicidade, nacionalidade até mesmo agremiações esportivas e, como no caso aqui abordado, ideologias ou partidos políticos).

Um exemplo muito interessante a esse respeito é a reinterpretação da função social da guerra entre os índios Tupinambás (feita por Florestan Fernandes) e o papel que o canibalismo tinha na “alimentação” de uma certa “vendetta” entre tribos inimigas. Quando capturado na guerra, o jovem guerreiro era levado para uma aldeia onde tinha um tratamento de excelência, recebendo inclusive mulheres para seu prazer. Vivia uma vida de pequeno rei. Quando chegava a hora do ritual de execução, o algoz lhe dizia: “Vou te matar e te comer porque os seus amigos mataram e comeram muitos dos meus amigos”. Ao que o prisioneiro respondia: “Quando eu estiver morto, terei muitos amigos que saberão me vingar!”. Assim, duas sociedades distintas cujos traços culturais eram exatamente os mesmos, a antropofagia ritual ocupava um lugar de manutenção do elemento concreto de polarização e antagonismo, que geraria o sentimento de vingança necessário para alimentar o conflito bélico que, por sua vez, marcaria fronteiras imaginárias, definindo quem era quem: Tupinambá ou Tupiniquim. Nesse sentido, explicita o fato de que o “eu” depende da existência do “outro” para seguir sendo quem é.

Se queremos efetivamente construir uma sociedade democrática, consagrando o caráter formador desta Ágora Eletrônica neste momento de debate eleitoral, teríamos que seguir uma certa utopia: brincando com a metáfora tupinambá, atingir a compreensão que a devoração do inimigo não deveria ser física nem real, pela violência passional, mas simbólica. Devorá-lo naquilo que ele tem de essencial no cenário político: suas propostas de governo, ideias para o campo da economia, da saúde, da educação, programas sociais etc. Este deveria ser o verdadeiro cenário de combate, de conflito.

E isso deveria ser um dever de todos, não somente dos “cientistas sociais”. Afinal, se queremos ocupar o espaço de modo que nossa “opinião” seja tratada de maneira séria, teríamos que assumir nosso caráter racional até com um pouco mais de veemência que o passional, e mostrássemos concretamente o que desqualifica o projeto de governo do oponente, mostrando suas fragilidades, seus equívocos, e porque “o meu é melhor”. Não desqualificar o oponente.

Para isso, nesse momento, resgatar a memória  histórica das duas trajetórias é fundamental. Focar na objetividade das propostas e dos argumentos baseados em dados também me parece mais adequado. Se conseguíssemos atingir este patamar racional, controlando ímpetos irascíveis em nome da construção de uma convivência civilizada como um bem maior, talvez consigamos fazer o bom combate mantendo o bom debate.

Claro que isso não é fácil. Mas necessário. Lembremos que, dessas armadilhas, nem figuras ilustres (e intelectuais) como o ex-presidente FHC ou o antropólogo Roberto DaMatta escaparam.

Do contrário, teríamos que nos entregar à sanha do “Homo homini lupus” (O homem é o lobo do homem), tematizada por Plauto (dramaturgo romano do século III) e notabilizada por Thomas Hobbes (filósofo inglês do XVIII).

Supondo com Freud e Hobbes que o conflito seja inerente ao ser humano, dele não podemos fugir. Mas podemos, como fazemos com todas as nossas características “dadas” pela natureza, reorientá-lo. Em lugar da destruição, para a construção. Precisamos aprender a discutir.

E isso, como lembrado no início deste texto, todo ser dotado de razão pode fazê-lo. Não é nada fácil, mas extremamente necessário. Brincando com uma metáfora darwinista, teríamos que decidir entre retroceder à barbárie, entregando-nos à violência pura e simples, ou avançar no oceano do bom uso da razão, direcionando nossa nau rumo ao bom combate que nos conduzirá a um bem maior: a construção de uma sociedade justa e feliz, à qual, segundo os antigos gregos, nós todos estamos destinados.

NOTA:

Escrevi uma versão mais longa deste texto que pode ser lida no meu blog pessoal: O bom combate com bom debate: a ética nas discussões acaloradas (versão longa).

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