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Jovens empreendedores brasileiros são mais numerosos mas ainda carecem de capacitação

Rose Mary Lopes

Entre os maiores sonhos dos brasileiros, figura o de ter o próprio negócio. Em 2014, numa amostra de 10 mil brasileiros, segundo o Relatório Executivo Empreendedorismo no Brasil, pesquisa realizada seguindo a metodologia internacional do GEM (Global Entrepreneurship Monitor), 31,4% acalentava este sonho.

Menos do que no ano anterior – 2013 – quando eram 34,6%, e menos ainda do que em 2012 quando totalizavam 43,5%. Sonho que perdeu força, mas ainda mobiliza muita gente, pois pelas projeções, mais de um terço dos brasileiros ainda jogariam suas fichas na carreira empreendedora. E, entre estes, cada vez mais, figuram os jovens.

Dependendo da fonte de dados, a foto que obtemos do empreendedorismo entre jovens brasileiros parece diferente e até contrastante. Peguemos por exemplo, recente pesquisa “Perfil do Jovem Empreendedor Brasileiro”, uma iniciativa da Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje), em conjunto com a Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

Foi uma pesquisa realizada pela internet, por questionário que foi respondido por jovens de 18 a 39 anos, do Brasil todo, totalizando 6 mil. E, que se dividiram entre os que já possuem negócios e os que tem intenção de empreender. O resultado apurado aponta que 61% deles já empreende, sobretudo na área de serviços.

Predominou o gênero masculino, com 72%. Ou seja, a diferença entre os gêneros mostrou-se muito grande. Prevaleceu a faixa de 26 e 30 anos com 38% deles já empreendendo, e na faixa seguinte, de 31 a 35 anos totalizaram 28%. Soma: 66%.

A escolaridade é muito elevada: 44% com curso superior completo e mais 40% com pós-graduação (total 84%). Empreenderam impulsionados pelo desejo de se tornarem independentes e por terem identificado uma oportunidade de negócio.

Se a foto for do relatório já mencionado anteriormente, do GEM 2015 (com dados apurados em 2014) obtemos uma figura bem diferente. Convém explicar que esta pesquisa apura os brasileiros que estão envolvidos com negócios desde as fases iniciais, e mesmo informais. Até 42 meses de existência.

Dividem os brasileiros que empreendem em etapa inicial e etapa de empreendedores estabelecidos. A demarcação se faz a partir do momento em que os empreendedores já recebem remuneração do próprio negócio, por mais de 3 meses consecutivos.

Haveria mais equilíbrio entre os gêneros, variando entre 51 a 45% de mulheres, dependendo se em etapa inicial ou em negócios já estabelecidos. Entre os jovens da faixa de 25 a 34 anos (faixa muito próxima à de 26 a 35 anos da pesquisa do Conaje) seriam 27%. Ou seja, uma diferença de 39%.

A discrepância maior é no que se refere à escolaridade. Mesmo não fracionando a escolaridade por faixas de idade, no relatório completo Empreendedorismo no Brasil 2014, entre os empreendedores iniciais, os com curso superior completo ou alguma pós-graduação (completa ou incompleta), eram 10,6%.

Entre os estabelecidos – um pouquinho mais 11,5%. Mesmo se pegarmos dados do IBGE, numa pesquisa de 2013, os jovens de 18 a 24% que frequentava curso superior era de 15,1%. Por qualquer estimativa, parecem ficar muito distantes dos 84% da pesquisa do Conaje. Haveriam muito mais jovens empreendedores pior preparados.

Não sabemos outras características dos empreendimentos dos jovens inseridos na pesquisa do Conaje. Pode ser que tenham negócios com mais tempo de vida. Ou que as pessoas que foram mais atraídas e dispostas a respondê-la, eram as mais escolarizadas. Mesmo assim, seus negócios ainda são de pequeno porte, faturando no máximo R$ 60 mil anualmente.

Entretanto, quer sejam de empreendedores jovens ou com mais idade, há muito pouca inovação e tecnologias novas agregadas aos negócios. A tecnologia empregada por eles (dados do GEM 2014), no geral tem mais de 5 anos de idade (96% a 98%, entre empreendedores iniciais e estabelecidos, respectivamente).

E, no GEM 86% deles não procurou ajuda alguma quando decidiu empreender, quer por desconhecimento de onde procurar apoio (26%), desinteresse (18%) ou não sentir necessidade (44%). Na pesquisa do Conaje, metade não procurou qualquer ajuda. A outra metade buscou nas redes sociais ou pediu consultoria sobre como abrir o negócio. No que parece uma autossuficiência perigosa.

Notou-se que mesmo os jovens mais preparados da pesquisa do Conaje, se ressente de mais capacitação que os instrumentalizasse melhor para enfrentar os desafios de ter seu próprio negócio, ampliando suas chances de sucesso. E, este fator vai ser ainda mais crítico agora, na crise, onde jovens pior preparados procurarão o empreendedorismo por falta de oportunidades melhores.

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