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“Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” (Dir.: Warter Salles, Brasil, 2014)

Eduardo Benzatti

A China não é um país fácil de se entender. “Jia Zhangke, um Homem de Fenyang” do diretor Walter Salles é um documentário (com toques de ficção) que reforça essa ideia. Afetuoso no olhar, Walter Salles retrata a trajetória de outro diretor e realizador de cinema, Jia Zhang Ke (nascido em 1970 em Fenyang, Shanxi) – bastante conhecido na China, mas desconhecido do grande público brasileiro – seus filmes costumam ser exibidos em mostras e festivais restritos ao público cinéfilo.

Com uma câmera na mão, o diretor brasileiro acompanha o chinês pelas ruas de várias províncias onde esse último filmou seus filmes ou viveu parte de sua vida. Entre entrevistas – do próprio Jia Zhang Ke – e depoimentos de atores, técnicos (entende-se a importância da trilha sonora em seus filmes) e outras pessoas envolvidas na feitura de seus filmes (além de familiares e amigos), o documentário recupera o caminho linear de uma história que se inicia na faculdade de cinema e atravessa mais de uma década de produções realizadas com precárias condições materiais, mas apurado conhecimentos das técnicas cinematográficas – além da paixão do diretor por um cinema que retrata o cotidiano de pessoas comuns – algumas cenas e sequencias de seus filmes nos remetem a Nouvelle Vague (dos anos 60) e/ou ao Realismo Italiano (dos anos 50).

Aí que se vê como a China é – aos nossos olhos ocidentais – esquisita. Capitalista para fora e comunista para dentro, essa potência autoriza debates livres do diretor com os jovens em universidades sobre como é o seu “fazer cinema”, mas proibi a exibição – ou libera com restrições – de seus filmes. Chega-se mesmo ao limite de proibi-lo de continuar filmando.

Utilizando as reminiscências do diretor como fio condutor, Waltinho registra hoje imagens de lugares usados pelo diretor para filmar seus dramas num passado recente. Essa sobreposição de passado/presente tem o efeito de desvelar uma China em vertiginosa transformação geográfica e arquitetônica também – nada resiste a força do capital.

Num dos momentos mais tocantes do documentário, Jia Zhang Ke fala da morte de seu pai e do fato dele ter vivido poucos momentos de felicidade, mesmo enquanto professor – aliás, como tantos, acusado de reacionário pela Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung – seu pai cumpriu trabalhos forçados para se “reeducar” aos olhos da Grande China Comunista.

Enfim, trata-se de um filme para quem gosta de cinema visto “por dentro” – do pensamento sobre até a feitura de um filme.

Em tempo: assisti numa sessão em São Paulo em que estava presente o também diretor de cinema Héctor Eduardo Babenco, e fiquei pensando: “O que passa na cabeça de um diretor de cinema assistindo um filme de um outro diretor sobre outro diretor”. No meio da sessão Babenco foi embora. Nem todo mundo respeita o trabalho de seus pares.

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