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Design como enfrentamento em Gui Bonsiepe

Guilherme Mirage Umeda

As reflexões de Gui Bonsiepe nos primeiros dois capítulos do livro Design, Cultura e Sociedade (2011) demonstram uma preocupação de recolocar o design em uma discussão ampla sobre o escopo do pensamento projetual e suas potenciais contribuições para os desafios sociais que enfrentamos atualmente. Poderíamos entender, com Bonsiepe, o design sob uma perspectiva humanista, assim definido pelo teórico alemão: “o exercício das capacidades projetuais para interpretar as necessidades de grupos sociais e elaborar propostas viáveis, emancipatórias, em forma de artefatos instrumentais e artefatos semióticos”(2011, p.21). Nota-se de imediato a amplitude de tal conceito, que evita o foco sobre a instrumentalidade do trabalho do designer para tecer uma reflexão sobre os propósitos mesmos da atividade.

Essa reflexão teleológica do projeto torna-se uma discussão particularmente relevante diante de um cenário de “expansão semântica horizontal” e “redução semântica vertical” do termo “design”. Bonsiepe aponta para um uso cada vez mais disseminado da palavra, em contextos por vezes discutíveis, como os “design products” – levando a crer que todos os outros produtos não envolvem design – ou os hoje populares “design de sobrancelhas” e “cake design”. A disseminação da palavra “design” não é, per si, algo negativo. Pelo contrário, aponta para um lugar social destacado, um reconhecimento espraiado da sua importância para o desenvolvimento econômico e para a vida cultural. Entretanto, esse esgarçamento lexical acaba por esvaziar o sentido do conceito. Isso porque a direção que a popularização do design tomou é unidimensional, reducionista. Sua orientação é, na maior parte das vezes, voltadas ao comercial, ao styling, ao efêmero, à sedução.

Bonsiepe não advoga um monopólio no uso do design pelos projetistas industriais ou os programadores visuais, argumentando, antes, a favor da extensão do pensamento projetual a campos muito diversos das ações humanas. Fica evidente sua compreensão do design mais orientado ao processo de identificação e solução de problemas do que ao produto final ao qual se chega por esse processo. Nesse sentido, aproxima-se da noção antropológica de projeto trabalhada por J-P. Boutinet (2002), reconhecendo o largo espectro ao qual a ideia de projeto pode ser aplicada. O design deixa, assim, de ser exclusivamente uma ferramenta mercadológica de sedução para ganhar potencial de desenvolvimento individual e social.

Por conta dessas possibilidades construtivas do projeto, Bonsiepe parece sugerir uma espécie de “pedagogia do projeto”, uma convicção acerca dos benefícios que disciplinas do design podem trazer para uma formação geral. Ele considera o ensino das ciências (e aqui, entende ciências como as cargas curriculares focadas em conteúdos focados nos dados cognitivos) como algo muito mais desenvolvido do que o ensino do projeto, em parte pela maturidade da tradição acadêmica voltada à cognição, mas também pela desconfiança com que o design e sua origem artesanal têm “contra tudo o que é teórico” (BONSIEPE, 2011, p.36). Uma aproximação entre as disciplinas científicas e as projetuais seria construtiva e desejável, uma vez que esses dois campos podem se beneficiar com a relação. Para Bonsiepe, o design já tem feito esse movimento, ao romper gradativamente a resistência ao trabalho intelectual e à fundamentação científica de suas práticas. Porém, ainda considera o movimento contrário, das ciências em direção ao design, como incipiente. Cabe perguntar, como refutação a essa noção do pensador, se a criatividade experimental mesmo das ciências mais duras – como a física e a química – não revelariam um pensamento projetual sofisticado por parte dos cientistas.

O papel vital da intelectualidade sobre a prática do design, na forma de uma postura crítica e de enfrentamento ao status quo, acaba por nos conduzir de volta a discussões marcantes da década de 1960, representadas notoriamente por Victor Papanek em seu Design para o mundo real. Cabe ressaltar que Bonsiepe escreveu críticas ferrenhas às posições defendidas por Papanek, considerando sua obra contaminada pelo paternalismo e pelas insuficiências das tecnologias alternativas. Porém, convergem no retrato de um mundo desigual, onde os centros de poder detêm as tecnologias e os benefícios da industrialização, enquanto a periferia sofre com o atraso industrial, a prevalência de padrões estéticos pobres e o consumo de tecnologias marginais e ineficazes.

Apesar de ocasionalmente ser apontado como obsoleto ou anacrônico por alguns analistas, as polêmicas levantadas por Papanek persistem – basta ver a proliferação de textos sobre “design social”, todos, de alguma forma herdeiros das provocações originais do autor. Por quê? Talvez, porque os problemas lá diagnosticados não tenham sido satisfatoriamente resolvidos; pelo contrário, parecem ter se adensado e se complexificado, como aponta Rafael Cardoso em Design para um mundo complexo (assumidamente uma homenagem e revisão crítica à obra de Papanek). Ou seja, aparentemente, as discussões ultrapassadas do século XX têm pedido para serem retomadas e aprofundadas.

Mas também caberia pensar: estaríamos diante de um problema insolúvel? Haveria saídas definitivas para as questões colocadas pelos pensadores do design na segunda metade do século XX? Parece-nos que os conflitos entre interesses econômicos ou políticos e o bem estar coletivo da sociedade são inevitáveis, provocando marca permanente na prática do design: “Projetar significa expor-se e viver com paradoxos e contradições, mas nunca camuflá-los sob um manto harmonizador. O ato de projetar deve assumir e desvendar essas contradições” (BONSIEPE, 2011, p. 25). Portanto, torna-se instigante o desfaio de pensar se as noções de valor social não deveriam atrelar-se indissoluvelmente às preocupações fundamentais do design como prática profissional e campo intelectual.

Referências

BONSIEPE, Gui. Design, Cultura e Sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.
BOUTINET, J. P. Antropologia do projeto. Porto Alegre: Artmed, 2002.
CARDOSO, Rafael. Design para um mundo complexo. São Paulo: Cosacnaify, 2012.
PAPANEK, Victor. Design for the real world. 2a ed. London: Thames & Hudson, 1995.

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